“O ladrão de galinhas”, “A vingança do galo” e “A pesca”, de Béatrice Rodriguez

 

O mundo está cheio de galinhas. Supondo, à laia de exercício argumentativo, que esta taxativa afirmação poderia suscitar em alguns dos nossos leitores uma qualquer dúvida e requerer imediata justificação, e sabendo nós que a galinha continua a manter um intocável estatuto simbólico, imagético, filosófico, metafórico e ritualístico, acendendo ainda hoje fervores morais e religiosos, consumísticos, biológicos, domésticos ou industriais, talvez possamos começar por uma confortável reformulação: a literatura de receção infantil está cheia de galinhas. Senão vejamos, a título meramente exemplificativo e memorativo (excluindo, por discutíveis questões práticas, o vasto repertório oral e musical, como canções e rimas): a famosa e antiquíssima galinha dos ovos de ouro, fixada, entre outros, por Jean de La Fontaine; incontáveis versões, mais ou menos populares, popularizadas ou tradicionais, do conto mundialmente famoso em que uma galinha avisava que o céu estava a cair e que o fim do mundo estava próximo (com possível apogeu mediático e fílmico em “Chicken little”); “A galinha preta – Um conto para Aliocha” (1829), de Antoni Pogorelsky, supostamente escrito para o então pequeno Alexei Konstantinovitch Tolstoi; diversas galinhas ruivas, incluindo a pré-pop “The little red hen”, conto ilustrado em 1958 por Andy Warhol; ou “O ovo e a galinha”, dos icónicos Iela Mari e Enzo Mari (edição portuguesa de 1995).

 

 

Claro que podemos acrescentar a esta improvisada lista o maravilhoso “The painter who loved chickens” (1995), de Olivier Dunrea; a deliciosa série “Minerva Louise” (1988), de Janet Morgan Stoeke; o humorístico “The problem with chickens” (2005), de Bruce McMillan, ilustrado por Gunnella; a proposta orientalizante de Jan Brett com “Daisy comes home” (2002); o divertido “Hungry hen” (2001), de Richard Waring, ilustrado por Caroline Jayne Church; e, evidentemente, a indispensável antologia de ilustradores que tentam responder à anedótica questão “Why did the chicken crossed the road?” (2006). Em tradução portuguesa, encontramos algumas galinhas mais, como “A galinha Guilhermina”, de Beatriz Doumerc, “Oh, não!”, de Rotraut Susanne Berner, ou “Carmela, a galinha que queria ver o mar”, de Christian Jolibois e Christian Heinrich. Por outro lado, tanto autores emblemáticos como jovens talentos nacionais parecem ter encontrado na galinha tema inspirador, geração após geração, com alguns dos resultados incluídos no “obrigatório” Plano Nacional de Leitura: “A galinha verde” (os inesquecíveis contos de Ricardo Alberty, ilustrados por Júlio Gil), “A galinha medrosa” (de António Mota, numa versão do conto tradicional, ilustrado por Catarina Correia Marques), várias “Galinhas ruivas” (como a proposta por António Torrado), “A galinha poedeira” (de Maria Alberta Menéres, com ilustração de Rui Truta), “O mistério das galinhas espavoridas” (do trio Maria Alberta Menéres, Natércia Rocha e Carlos Correia), “História com reis, rainhas, bobos, bombeiros e galinhas” (peça de teatro de Manuel António Pina) ou ainda “A galinha que cantava ópera” (Luísa Costa Gomes, ilustrado por Pierre Pratt), “A galinha dos ovos de ouro” (com texto de Ana Oom e ilustração de Madalena Matoso) e “Galinhas à solta!” (de Marta Alvarez). Também aqui pelo Cria Cria já passararam alguns recentes e destacados exemplos literários (e belissimamente ilustrados) deste respeitável galináceo: “Como é que uma galinha…”, de Isabel Minhós Martins e Yara Kono, “O passeio da Dona Rosa”, de Pat Hutchins, ou a “gaulinha” de Daniil Harms em “Esqueci-me como se chama” (ilustrada – logo na capa – por Gonçalo Viana).

 

 

Depois de tanta galinha (excluindo pintos, galos, frangos, pintainhos e ovos), apetecerá ainda ler a série “Histórias sem palavras”, recentemente lançada pela editora Bags of Books, da autoria da jovem e talentosa ilustradora francesa Béatrice Rodriguez? Constituída pelo trio “O ladrão de galinhas”, “A vingança do galo” e “A pesca”, o que torna esta série de álbuns puros tão especial? A presença dos animais e em particular a invulgar e perigosa paixão que une figadais inimigos, predador e presa, uma galinha e uma raposa? O toque feminista e a inovação procriadora das espécies? A incrível sequência cinematográfica de aventurosos eventos e panóplia de emoções que conduzem à inevitável criação de histórias mentais (e outras, à vontade do leitor e/ou do mediador/educador) que começa logo na capa e ocorre a cada mudança destas páginas cartonadas e invulgarmente alongadas, despojadas de palavras e inundadas de dulcíssimas cores? Acreditamos mesmo que sim.

E passamos agora aos porcos. O mundo está cheio de porcos. Na Dinamarca, p. ex., em 2003 foram contabilizados 13 milhões de porcos e apenas 5 milhões de humanos. Na literatura infantil, os suínos são etc…

 

livros “O ladrão de galinhas”, “A vingança do galo” e “A pesca”, de Béatrice Rodriguez
Bags of Books, 2011
[a partir dos 2 anos]

 

Paula Pina

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