Para responder a este triplo convite, e depois de alguma hesitação (tanta coisa para mostrar), pareceu-me que o melhor seria não inventar muito e ir pelo óbvio, ou seja, três dias, três filhos, três livros. Comecemos pelo mais velho, um livro para a prateleira-um-bocadinho-menos-de-baixo, ainda tão vazia na prateleira-de-baixo virtual, mas já a ficar composta na real. Depois desta participação no Carrossel, prometo aparecer por lá (tanta coisa para mostrar) ainda antes de fechar para férias.
Li “A invenção de Hugo Cabret” há dois anos e há dois anos que espero pacientemente para passar o livro ao B. Gostei tanto do livro que queria ter a certeza de que ele iria gostar também. Tudo tem o seu tempo e os livros também: dar um excelente livro cedo demais pode ser o fim desse livro.
Costuma dizer-se das ilustrações que acompanham o texto ou que o completam. Aqui estamos para lá disso, pois as ilustrações não ilustram, passo a redundância, mas antes narram, ou apalavram-se – como diria Manoel de Barros. Brian Selznick encontrou uma fórmula, uma espécie de ovo de colombo absolutamente genial: páginas e páginas de ilustrações que contam a história, o romance, a trama com adjetivos e reticências, como se de palavras e pontuação se tratassem. A certa altura, a palavra entra onde a imagem parou, nem mais nem menos, e passamos das imagens para as palavras, naturalmente, como num dia, como na vida.
O B lê muitíssimo rápido e cheguei a duvidar que lesse de facto; achei só que fazia corridas com ele próprio. Depois percebi que lia, sim, e desisti de o tentar convencer a demorar-se mais: tudo tem o seu tempo, dizia, a leitura também tem e é o de cada um. Demorou dois dias a ler as 294 páginas deste calhamaço mas gostou muito; e era mesmo isso que eu queria.
O objeto-livro, o preto-branco, o texto-imagem, tudo se conjuga de modo a fazer deste livro uma absoluta obra-prima. Brian Selznick desenha e escreve, uma espécie de artista absoluto, à antiga. Muito depois do cinema, Selznick reinventou-o em livro e Scorsese fechou o círculo, fazendo o filme do livro. Não vi o filme, não sei se “Hugo” guarda o encanto deste Hugo.
Não sei como Scorsese filmou estas páginas brancas com a orla preta, a lembrar os cartões fúnebres, a fazer pesar o suspense, ou como tratou das imagens a carvão ao mesmo tempo toscas e delicadas. Um filme para descobrir nas férias, quem sabe.
Nas livrarias de Boston, em maio, já estava o novo livro deste autor. Não o trouxe, confiante que ando no nosso mercado editorial. Ando agora à espera de o ver aparecer aí numa prateleira. Pode ser mais do mesmo, mas quando o mesmo é tão bom, não enjoa.
Sara Amado [convidada do Carrossel Cria Cria*]


















Apesar de todas as recomendações ;-) ainda não ganhei coragem para ver o filme. O livro é realmente mágico, não deixando nenhum espaço por preencher.