Tag Archives: Catarina Sobral

Maria João Worm, Prémio Nacional de Ilustração

 

O Prémio Nacional de Ilustração de 2011 foi hoje atribuído a Maria João Worm, pelo livro “Os animais domésticos”, com imagem e texto de sua autoria. Publicada no ano passado pela Quarto de Jade, a editora fundada pela ilustradora, esta obra reúne linogravuras que Worm produziu na década de 80, e retrata de uma forma muito íntima o dia a dia de uma série de animais feito humanos na “lida da casa”, a realizar algumas tarefas domésticas como costurar, passar a ferro ou estender a roupa. O traço e a mancha não alinhados, bem como o texto sintético deste livro, oferecem espaço à Continue reading

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Três novidades da Orfeu Mini anunciadas para a rentrée

 

Para os meses de setembro e outubro, a Orfeu Mini, “livros ilustrados para miúdos e graúdos” (segmento do livro infantil, gráfico e de ilustração da magnífica editora Orfeu Negro), promete mais algumas histórias mirabolantes, gravuras tão divertidas e singulares quanto todos aqueles que as leem, e o regresso de alguns autores que nos marcaram em anos recentes. Para o princípio do outono, teremos “A cantiga do urso”, o primeiro livro de Benjamin Chaud publicado em Portugal, que conta a história de um pequeno urso que decide ir atrás de uma abelha, para, algumas aventuras depois, se reencontrar com o seu pai… Onde? Na ópera… No mês de outubro, serão publicados novos livros de Oliver Jeffers e Catarina Sobral. Depois de Continue reading

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2011 > essencial > literatura > livros > nacionais

 

Uma reflexão e sistematização do que a história fará perpetuar da produção criativa de determinado ano não é, em nosso entender, tarefa que possa ser adequadamente cumprida ainda no decurso desse período ou, sequer, nos dias que se seguem ao seu fim. Por isso, sem as precipitações e as obsessões normativas que regem a quase totalidade das publicações culturais por este mundo dentro, optamos por deixar as obras que mais nos impressionaram e emocionaram em 2011 assentar um pouco da sua intemporalidade nesta primeira meia dúzia de semanas de 2012 – e resumimos, nos próximos dias, o que nos parece ser a essência dessa colheita, os trabalhos aos quais o ano passado merece ficar efetivamente associado. Para inaugurar esta pequena sequência de balanços, a produção literária infantojuvenil de Continue reading

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“Greve”, de Catarina Sobral

 

Dizem os linguistas (“vendo-se gregos”) que as expressões idiomáticas sempre constituíram um problema para a gramática, ou melhor, que a própria definição de idiomaticidade (“deus-nos-acuda”), sendo sobretudo um fenómeno semântico, possuiria aquela caraterística de não composicionalidade, definida em função da convencionalidade. Ou seja, sem conhecimento prévio da regra, como a maior parte das expressões idiomáticas distribuem sentido pelas partes que as compõem, não se curvam à literalidade (“é um ver-se-te-avias”, portanto)…

O que a ilustradora e designer de comunicação Catarina Sobral faz em “Greve”, seu livro de estreia, nesta semana lançado pela Orfeu Mini, é oferecer-nos, “ponto por ponto”, um texto que vai longe na exigência decifrativa e no consequente resultado humorístico. Em primeiro lugar, toda a obra atribui dimensão gráfica a um encadeamento de expressões idiomáticas em torno da palavra “ponto”, que pedem uma leitura atenta; depois, múltiplos textos (subtextos, intertextos, paratextos e metatextos) se esgueiram, se infiltram, se revelam ou escondem, sublimemente descarados e disponíveis para a sorridente descoberta simultânea, algures nas ilustrações. Num primeiro nível, surgem referências artísticas ousadas: à obra “Ulysses” e à figura de James Joyce, à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, Fernando Pessoa e à “Orfeu”, à peça shakespeariana “Hamlet” (desta feita não com a caveira na mão, mas brandindo uma tíbia); num outro nível, encontramos referências a objetos, marcas e produtos que podem passar despercebidos a quem não pertenceu à geração dos automóveis “Carocha”, dos eletrodomésticos Miele, Lavamat ou Minerva, a todos os que não usaram detergente Rinso, aos que não leram a Burda nem a Crónica Feminina, a quem não estudou pelos antigos compêndios para o ensino liceal e por sebentas científicas em carteiras com tampo de abrir, com buraco para colocar o tinteiro, aos que não fizeram as contas do mês com caneta de aparo, a todos os que não reconhecem as amarelecidas folhas dos cadernos e mapas, os catálogos, fotografias e guias, a sépia e a preto e branco…

 

 

Parte da originalidade subversiva de Catarina Sobral deve-se às sobreposições de elementos gráficos e de perspetivas, às colagens originais de efeitos inesperados, aos jogos constantes com o nonsense. “Greve” é uma narrativa fílmica e dinâmica, em que todos os elementos, mesmo os balões de banda desenhada, parecem estar em cada página apenas de passagem, vindos de algum lado e dirigindo-se para outro lado qualquer. Personagens sem rosto ou de rostos alongados, minimalizados numa geometria retangular, olhar ciclópico, de traço infantil, meio centopeia, meio protozoário, penteados “à garçonne”, seguindo o figurino das revistas para “a mulher moderna” da época, são expressivas nas suas conversas mudas e gestualidade rígida. Repare-se ainda na inteligente ironia de incluir a ficha técnica no corpo da narrativa, apresentando-se um excerto de página de jornal fictício anunciando a data de lançamento da própria obra (hoje, dia 29 de outubro, na Biblioteca Camões, Lisboa), ou anunciando o tão esperado livro “Oinc! A história do Príncipe-Porco”, com litografias de Paula Rego e texto de Isabel Minhós Martins, a partir de um conto de Straparola, que a editora publicará daqui a poucas semanas. Mas o mais significativo nesta “Greve” é o facto de, mesmo que o leitor não esteja familiarizado ou desconheça as referências sofisticadas, mesmo que não descubra os detalhes culturais, mesmo que os anacronismos não suscitem um sorriso mais rasgado, a leitura continuar a resultar.

 

 

Exibindo uma vertente política, panfletária até, na escolha das cores e nas referências, “Greve” é cómico e provocador, numa época de agitação económica e social, como é esta que vivemos, brincando inclusivamente com os efeitos do marketing na atribuição de prémios, com catalogações arbitrárias, com suspeitas inclusões ou exclusões em Planos Nacionais seja do que for: “Pointless award”, “Melhor livro desde maio ’68”, “Prix OhhhMonDieu!” e “Recomendado pelo PNC* Plano Nacional de Costura”…

Acaso ou não, o que é certo é que, no nosso exemplar de “Greve”, a ponta de uma linha branca, despontada, espreita na costura que une as páginas de rosto. Terá alguma coisa a ver com o facto de a direção de arte/design ser da responsabilidade da Alfaiataria de Rui Silva? Não queríamos escrever nem mais uma linha, mas gostaríamos mesmo de saber se foi ou não por acaso. Detestamos deixar pontas soltas…

 

livro “Greve”, de Catarina Sobral
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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