Monthly Archives: June 2011

See Seaclop, Criatura #001

Tenho, no meio da cabeça, um olho aberto para o outro lado de mim. Quem quer que seja que olhe para mim, olha sempre através de mim e vê-se… a si próprio. Pois, olhamos e pensamos que o olho é o nada, que é o buraco. Que é o vazio. O problema é que no vazio é que está tudo.

As mães das vossas crias andam constantemente a dizer: “Ai, que feio! A meter o dedo no buraco do nariz!”. Por isso é que eu acho que elas não iriam gostar lá muito de mim. Porque eu, oh, eu estou sempre a dizer: “Anda, vá lá! Enfia o teu dedo no meu olho!” Aliás, aqueles meninos formidáveis, que andam sempre a enfiar os seus dedos pequeninos nos sítios mais improváveis (para grande vergonha, preocupação e desconsolo dos seus progenitores), são mesmo, de entre os da vossa espécie, os meus prediletos. Para esses, o meu olho não é um nada-buraco-vazio. É um botão, um interruptor. Quando carregam, pfffzzoing!,  a minha cabeça-ecrã dispara imagens – pouco nítidas de início, decerto. Mas se fixarem o olhar no ponto negro da minha boca durante um minuto e 10 segundos (esse é o segredo!), as escamas de peixe que me cobrem a cabeça transformam-se nas ondas do mar. Atenção, não na imagem das ondas do mar! Transformam-se nas próprias ondas do mar, essas mesmas, as molhadas, as feitas de água, as mesmas que embalam os barcos ou os engolem em espumas, movimentos e sons aterradores, as mesmas que vêm morrer aos teus pés em laçadas de espuma quando passeias à beira-mar. Os meninos podem até enfiar o dedo no meu olho nessa altura, porque ele sairá molhado e salgado (ou, como já aconteceu recentemente, escuro e oleoso, por causa da poluição e dos derrames de petróleo, acho eu).

 

 

Muitos tentaram vestir-me, compor-me, ataviar-me, enjaular-me. Posso até ser escovado, penteado e alisado. Podem até achar que fico bem de papillon preso a meio pescoço (e fico, modéstia à parte). Mas não resulta durante muito tempo, lamento informar-vos. Dura pouco mais do que os segundos de um disparo de fotografia. A fatiota desfaz-se em suspiros de giz e o pêlo eriça-se ou retorce-se em sinuosos caracóis, indomáveis, inesperados. Na verdade, nunca me preocupei muito com isso. Sou como sou e pronto.

Já me explicaram que na minha árvore genealógica tenho ciclopes, gigantes de um só olho no meio da testa, o que faz todo o sentido. Mas também me disseram que devo ter tido um antepassado minotauro e uma avó sereia. Já me chamaram robô e até, vejam bem, lobo! Lobo?! Quando me chamaram isso só me lembrei da história da menina Capuchinho Vermelho e do lobo disfarçado de avozinha, e deu-me uma imensa vontade de rir. Eu, lobo, com este olho? “Oh Avó, porque tens uns olhos tão grandes?”… Bah!! Eu, lobo, com esta boquinha? “Oh Avó, porque tens uma boca tão grande? Para te comer melhor! – disse o lobo saltando da cama”. No meu caso, só se a menina Capuchinho fosse sorvida por uma palhinha!

Há depois a questão das orelhas. Na verdade, são meio orelhas, meio antenas, meio chifres. Servem para ouvir, para captar e transmitir, como quaisquer orelhas e antenas normais. Mas quando as arrebito e as estico, e se transformam em chifres, servem para mais algumas coisas: para secar roupa, enfiar argolas e deixar recados em folhas de papel… Não percebo bem por que razão, mas uma vez uns senhores muito finos, com umas roupagens brilhantes e uns gorros vermelhos e verdes enfiados na cabeça, viram-me passar, ali para os lados do Campo Pequeno, ia eu a meio de uma importante transmissão para um projeto, de orelhas espetadas portanto, e desataram aos saltos e correrias. Até houve uns que se puseram, de mão na anca, aos gritos: “Eh touro! Eh touro!”. Isto de ser como sou e ter este tipo de orelhas pode ser complicado para alguns de vós, não é? Há realmente criaturas da vossa espécie que são tão ignorantes que não sabem que eu sou um Petramarfilocrocéfaseeseaclop (See Seaclop, para os amigos), construtor e desconstrutor (de muros, paredes e outras construções, reais ou inventadas, muralhas de cubos e castelos de Lego), ao vosso dispor.

 

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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Filed under Criações, Ilustração

Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 2)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 
Cria Cria: Sente o seu cérebro crescer quando está a desenhar ou quando está a criar alguma coisa?

Marta Madureira: Sim. Quando ilustro, quando vejo, quando ouço, quando faço seja o que for. Em conversa com a ilustradora Teresa Lima, ela dizia-me que o que lhe agrada no trabalho de ilustração é o facto de ter um tema. Concordo. Uma das grandes vantagens é que não somos nós a procurar o assunto. O assunto é-nos dado. Isso à partida abre um leque de objetos muito mais vasto, muito para além do meu círculo de interesses pessoais. Na maior parte dos casos, esses assuntos que não são meus são semi-desconhecidos ou até mesmo desconhecidos, são diversos e são vastos. Para ilustrar sobre eles tenho que os procurar, o que me torna, automaticamente, recetiva ao conhecimento. No trabalho de ilustração, a parte da pesquisa, a procura do “mais” sobre o assunto, é fundamental. Quanto mais souber sobre o tema, mais variadas serão as perspetivas que tenho dele, e mais eficaz será, de todos os pontos de vista, a sua solução imagética. Tendo como base este pressuposto, que acredito e experiencio vivamente, muito tenho crescido desde que comecei a ilustrar, onde cada projeto é pretexto. A título de exemplo, não posso deixar de referir os trabalhos que fiz para a Op., com os quais ouvi Tom Zé ou li Enrique Vila-Matas e Hannah Arendt. A diversidade de assuntos é mais do que bem vinda, e a procura dos mesmos é um processo que, além de necessário, é frutífero. Nunca experimentei ilustrar segunda vez o mesmo assunto em momentos diferentes. Mas seria uma forma interessante de medir o meu crescimento.


ilustrações originalmente publicadas no livro “O menino Jesus da Cartolinha” (Campo das Letras, 2006)

 
Marta Madureira: Estas ilustrações são mais uma resposta à pergunta. Pertencem ao livro “O menino Jesus da Cartolinha”, de 2006. Com este trabalho percebi a importância de crescer no assunto. Foi também o livro que me juntou pela primeira vez à escrita (essa escrita cheia de raça) do Vergílio Alberto Vieira. Quando li o texto, em verso e com alusões diretas a sítios e histórias, não soube por onde começar. Pouco consegui encontrar sobre o assunto e o que havia na internet era vago e quase sem referências visuais. Precisava de saber mais. E, num dia de final de verão, fui ao encontro desse menino, rumo a Miranda do Douro. Vim com muitas imagens. De pessoas, de talha dourada, de santos, de paisagem, de comida e de sensações. Muitas delas viriam a servir de base gráfica para as personagens do livro. O brinco da velha, por exemplo, ou o cajado do Constantim, são recortes de fotografias que trouxe de Miranda. Ainda hoje percebo a forma deste livro como um reflexo da minha vivência no local. O conjunto de um processo criativo e pessoal, com um outro, de entendimento do assunto. Só assim foi possível traduzir visualmente a velha vidente, idosa e amarrotada pela “vantagem” da idade.

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“Isto é…”, de M. Sasek

Lembram-se da vossa primeira grande viagem? Lembram-se daquela sensação de deslumbramento misturado com um nervoso miudinho, que vos acelerava ligeiramente o coração e acentuava o discreto bater de asas de borboleta nas paredes do estômago? Lembram-se da primeira vez que percorreram a plataforma de uma gare internacional? E da primeira vez que estenderam o vosso passaporte de avião, novinho em folha, a um funcionário ensonado da alfândega do aeroporto? Quem guarda ainda o primeiro bilhete de metro de uma grande cidade?

Nascido em Praga em 1916, e falecido na Suíça em 1980, Miroslav Sasek é o autor e ilustrador premiado da série “Isto é…”, em que regista as suas impressões sobre algumas cidades, regiões e países do mundo. O sucesso obtido com o primeiro volume da série, “Isto é Paris”, publicado em 1959, leva o autor a encetar um percurso que resultará na edição de diversos outros livros: Londres, Roma, Nova Iorque, Veneza, Edimburgo, Israel, São Francisco, Hong Kong, Grécia, Bretanha, Irlanda, Austrália, Cabo Kennedy, Washington D.C. ou Munique.

 

 

Sobre a criação de alguns destes livros, o autor recorda (em “Books are by people – Interviews with 104 authors and illustrators of books for young people”, de Lee Bennett Hopkins, Citation Press, 1969): “Hong Kong foi um livro muito difícil de fazer por causa do problema da língua. Demorei horas e horas a desenhar os carateres do alfabeto. Tentei usar a máquina fotográfica, mas não resultou. Ás vezes apetecia-me gritar! Três vezes, dez vezes, doze vezes, levei eu até conseguir aperfeiçoar uma só imagem!” (…) “Para fazer ‘Isto é Texas’ tive de viajar 3000 milhas de autocarro para ver tudo o que precisava de ver! E quando fiz ‘Isto é Israel’ (1962), as pessoas riam-se durante horas do modo como eu pintava os sinais. Elas não conseguiam perceber como é que eu desenhava da esquerda para a direita quando elas liam e escreviam as letras da direita para a esquerda!”. Traduzidos em muitas línguas, a editora Civilização publicou há pouco tempo estes quatro volumes e promete-nos mais alguns vertidos para a língua portuguesa no decurso do próximo ano.

 

 

Afirma ainda Sasek: “O pormenor é muito importante para as crianças. Se eu pinto 53 janelas em vez de 54 num edifício, recebo logo uma avalancha de cartas. As crianças de hoje sabem tudo – o mundo é muito mais pequeno. Eu recordo-me de regressar a minha casa, em Munique, depois de terminar ‘Isto é Cabo Kennedy’ (1964). O meu filho olhou para os meus livros de esboços e, sem uma única palavra minha, começou logo a dizer ‘isto é o foguetão Apolo e esta é a rampa de lançamento e isto é…’. Eu não conseguia acreditar! Às vezes nem acredito no que sabem as crianças hoje em dia. Quando eu era novo, ninguém viajava. E é por isto que o mais simples detalhe é tão importante.”

 

 
Bilhetes, recibos, convites, excertos de guias, folhetos, selos, postais, sinais de trânsito, símbolos, cores, trajes, fotografias e retratos pintados de curiosidades, hábitos, rituais, pormenores, bizarrias que tornam cada cidade única, cada país especial, é isso tudo que encontramos nos livros de Miroslav Sasek. As cidades e os países, os seus monumentos, os seus habitantes (humanos e animais!), são pintados ao ritmo de um diário com impressões detalhadas de viagem, no passo infantil de quem vem para desvendar o máximo no mínimo que cada esquina, que cada recanto tem para oferecer.

 

 
“Isto é”, “aqui está”, “este é”, os deíticos de Sasek, tão típicos da linguagem infantil, cumprem aqui também uma função outra, para além da enumeração ou conexão frásica: colam-nos à imagem, nós, leitores, juntamente com o “tu” informal que o narrador usa para se nos dirigir. Sem a preocupação extenuante de ser pedagógico, sem arrastar o lastro de ser informativo, sem o vazio lúdico do humor emprestado, o olhar é sempre o de quem vem visitar para descobrir, o olhar de quem regressa diferente.

Sobre a génese da obra, pensada depois de umas férias em Paris, diz-nos Sasek: “Originalmente, queria fazer uma série de três livros: Paris, Roma e Londres. Nunca pensei que pudesse continuar para além disso.” Nós desejávamos que tivesse continuado e continuado e continuado… Quem precisa de guias de viagem? Nós levamos os exemplares da obra de Sasek.

 
livros “Isto é Paris”, “Isto é Roma”, “Isto é Londres” e “Isto é Nova Iorque”,  de M. Sasek

todos Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

 

Paula Pina

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“Hot sauce committee, part two”, dos Beastie Boys


Hoje, como em qualquer outro ponto de uma carreira já trintona, os Beastie Boys são um exemplo cabal do que de melhor a “eterna juventude” pode fazer pela música urbana. Um pouco como nos N*E*R*D, essa prioridade concedida à celebração de uma adolescência sem idade que brilha omnipresente no trio novaiorquino poucas vezes foi tão feliz e duradoura na história da cultura pop. Contra todos os preconceitos que na sua direção grassam praticamente desde o momento, há quase três décadas, em que decidiram ser algo mais do que apenas uma banda de punk hardcore, os Beastie Boys seguem aqui o seu exímio percurso ético e estético com uma nova festa que, não gerando os mesmos índices de frescura criativa a que nos habituaram, não deixa em momento algum de se elevar muitíssimo acima de quase toda a “concorrência”. Hip hop prepassado de funk, electro, punk e outras diversões, com o sentido lúdico e de permanente desafio sonoro que o género lamentavelmente foi alienando com o trânsito do tempo. Ou seja, mais um clássico, num certo sentido… “Hot sauce committee, part two” como o caldo da adrenalina que é este tão aconselhável antídoto para a violência advogada pela generalidade da televisão, internet, jogos de computador e suportes afins que a quase totalidade dos adolescentes e pré-adolescentes consomem nestes dias de tanta escassez e, simultaneamente, de tantos excessos…

As doses massivas de ironia e delírio dos três videos que se seguem podem ajudar a decifrar melhor o fenómeno. Ou confundir tudo ainda mais… Tal como eles esperam…

 

 

 

disco “Hot sauce committee, part two”, dos Beastie Boys
Capitol / EMI, 2011
[a partir dos 13 anos]

 
Moreno Fieschi

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O gatinho preto de Machado de Assis

Nascido no dia 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro (então capital do Império do Brasil), filho de um pintor de paredes, mulato, e de uma lavadeira de origem açoriana, Machado de Assis terá desde cedo enfrentado o preconceito racial e social. Singular e polifacetada, a sua obra percorre todos os géneros literários, desde a crónica ao romance, do folhetim ao libreto de ópera, passando pela poesia, pela crítica e pelo comentário político.

 

 

Também o percurso de Machado de Assis é singular e polifacetado: intelectual e amante das artes, estudou numa pequena escola de subúrbio pobre, ajudou nas missas católicas, e aprendeu francês com um padeiro imigrante; tornou-se frequentador assíduo de uma livraria que vendia chás, porcas e parafusos, remédios, tabaco, e que servia de local de reunião para os membros da Sociedade Petalógica (sim, vem do termo “peta”, ou seja, mentira): “Lá se discutia de tudo, desde a retirada de um ministro até à pirueta da dançarina da moda, desde o dó do peito de Tamberlick até os discursos do Marquês do Paraná”, escreveu ele mais tarde. Aos 17 anos, começou a trabalhar como tipógrafo e revisor de imprensa, emprego que determinaria o seu futuro como escritor.

Machado de Assis não teve filhos, mas alguns dos seus textos revelam-nos muitas infâncias e crescimentos difíceis: em “Conto de escola”, oferece-nos o retrato de uma escola de 1840, em que um rapazinho, Pilar, é confrontado com desafios de corrupção e delação; um outro conto, “História comum”, é um apólogo que nos obriga a refletir sobre a ascensão social, tendo como protagonista um… alfinete; em “O caso da vara” encontramos Damião, um jovem seminarista em luta com uma carreira eclesiástica que é obrigado a seguir por imposição de seu pai.

Conta-se ainda que Machado de Assis e sua mulher, Carolina, tinham uma cadela chamada Graziela. Carolina alimentava-a com sopas de leite e tricotava-lhe casaquinhos de lã. Após a morte da cadela, certo dia, em 1883, e morando o casal no nº.  18 da Rua do Cosme Velho, uma menina de 12 anos, sua vizinha, ter-lhes-á oferecido um gatinho. Eis aqui a deliciosa carta de agradecimento que o escritor enviou, escrevendo em nome do próprio bichano:

 

 

 

 

 

 

D. Alba,

Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez mandando-me de presente ao velho amigo Machado.

No primeiro dia não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe com medo e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores.

No segundo dia já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas espero que chegue até lá.

Só não consente que eu trepe à mesa, quando ele almoça ou janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama.

A minha vida é alegre. Bebo leite, caldo de feijão e de sopa, com arroz, e já provei alguns pedaços de carne. A carne é boa; não creio, porém, que valha a de um camundongo, mas camundongo é que não há aqui, por mais que os procure. Creio que desconfiaram que há mouro na costa, e fugiram.

Quando virá ver-me? Eu não me canso de ouvir ao Machado que a senhora é muito bonita, muito meiga, muito graciosa, o encanto de seus pais.

E seus pais, como vão? Já terão descido de Petrópolis? Dê-lhes lembranças minhas, e não esqueças este jovem…

Gatinho preto.

 


Esta missiva surgiu publicada pela primeira vez no artigo “Radiografia de Machado de Assis”, da autoria do Professor Gladstone Chaves de Melo (1917-2001), datado de outubro de 1986, na Carta Mensal, editada pelo Orgão do Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio.

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 1)

Com a abertura oficial do verão, que hoje se celebra mais ou menos por todo o hemisfério norte, celebramos igualmente a abertura de um novo espaço regular nas páginas virtuais desta nossa Cria que Cria: sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, teremos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Como (e quando) é que surgiu o desenho na sua vida? E como (e quando) é que o desenho começou a “transformar-se” em ilustração?

Marta Madureira: Desde que me lembro. O meu pai é ilustrador. Trabalhava para a Porto Editora e fazia as ilustrações dos manuais escolares. Lembro-me de acompanhar o trabalho dele em casa, no meio dos desenhos em esquisso e, depois, na escola, muito vaidosamente, os mostrar aos amigos, já impresso nos livros. Desde logo defini belas artes ou pintura como objectivo, penso que com forte influência do ambiente que vivia em casa. Quando entrei para o curso de pintura fui percebendo, ao longo dos primeiros anos, que aquela não era a minha vocação. E a convivência com os outros cursos de belas artes fez-me perceber que design de comunicação talvez fosse o caminho. Assim, depois de três anos, resolvi mudar de curso. E o que eu pensava que iria ser um mudar de direção foi um convergir. Foi nesse primeiro ano que descobri a ilustração e percebi os seus mecanismos, que passam pelo desenho, mas também pela comunicação visual. O conceito de “desenho”, por exemplo, é tão vasto quantas as suas possibilidades de registo. Qualquer material que permita o registo de algo num qualquer suporte, pode ser desenho. Estou-me a lembrar de autores como Erik Nordenankar que construiu o “The biggest draw in the world” através de GPS, ou como Mark Khaisman (www.khaismanstudio.com) que desenvolveu uma técnica de desenho realista através de fita-cola, só para enumerar alguns nomes onde o conceito de desenho é trabalhado a níveis muito pouco convencionais. Mas não deixam, no entanto, de ser desenho. E depois há o conceito. Uma ilustração não deve nunca viver subjugada ao texto. Deve completá-lo e ajudar nessa fascinante tarefa de contar uma história. Com letras, mas também com imagens e metáforas visuais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Canção dos dias por vir” (Edições Eterogémeas, 2002)

 

Marta Madureira: A primeira imagem, a imagem para iniciar este ciclo seria sempre uma escolha difícil. Há uma primeira tentação: querer mostrar logo tudo. Mas a ilustração que escolhi não o mostra, nem me identifica (ou já identifica muito pouco). É no entanto uma imagem à qual não posso fugir. Marca o meu ponto de partida e pertence ao meu primeiro livro editado, “Canção dos dias por vir”, pelas Edições Eterogémeas (www.eterogemeas.com), em 2002, pelas mãos do professor, ilustrador e amigo Gémeo Luís (www.gemeoluis.com). Um facto curioso: a metodologia deste primeiro trabalho foi inversa ao normal. Primeiro criei a sequência de imagens e posteriormente surgiu o texto, por Ana Roiz (José António Gomes). Temos então, como se deseja, duas histórias. A do ilustrador e a do escritor.

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“Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert com ilustrações de Mordicai Gerstein

Escrito por Jacques Prévert (1900-1977) em 1943, “Para fazer o retrato de um pássaro” é um poema publicado em “Paroles” (1946), concebido para uma das exposições da artista plástica Elsa Henriquez, a quem o dedica, e ilustrado pela primeira vez em 1953, com desenhos desta artista. Em Portugal, esta dupla Prévert/Henriquez estreou-se com um outro livro, “O dromedário”, originalmente parte da antologia “Contes pour enfants pas sages” (1947), publicado pela Contexto em 1983.

 

 

“Para fazer o retrato de um pássaro” é um poema. É um livro. É um filme. De facto, a biografia destes artistas desvenda-nos percursos pluriartísticos e interdisciplinares. Os textos de Prévert circulavam de mão em mão, em folhas manuscritas ou datilografadas, muitos tornaram-se canções que ainda hoje sabemos de cor, e os seus filmes e guiões para cinema não deixam ninguém indiferente. Mordicai Gerstein é pintor, escultor e realizador (músico também, muito provavelmente, se atentarmos no cuidado que é posto na transcrição do canto do pássaro, pleno de sentido musical, natural, na escolha das notas-tema para o canto da ave, e bachiano, nas suas variações…).

Vamos entrar dentro de um livro que é um “quadro”, real, emoldurado, com frente e verso. Quatro slides antes do “genérico”, a folha de rosto do livro, dão início a uma narrativa visual: um menino que dorme à luz da lua; o pássaro que chega e pousa no parapeito da janela; o seu canto que acorda o menino; o menino que, sem tirar os olhos do pássaro, posiciona uma enorme tela branca junto à janela.

Mas a narrativa fílmica que se segue é mais do que uma história, mais do que um guião, é uma reflexão sobre o próprio processo criativo. Na verdade, todas as aprendizagens importantes estão lá, todos os passos significativos, pré e pós-criação: do maravilhamento da descoberta à estruturação de materiais e espaços, das técnicas delicadas ao didatismo da espera e da paciência, da atenção à multiplicidade das sensações, da consciência da mutabilidade do universo às dimensões relacionais, da reflexão, da busca, da persistência, à pura alegria, à absoluta liberdade.

Diz o último verso: “Então, arranca muito suavemente uma das penas do pássaro e escreve o teu nome num canto do quadro.” O nome que o menino assina é o do ilustrador. É a sua história, a dele, ilustrador tornado personagem menino? Mas o nome, antes de ser dele, era já de outro, do poeta, do narrador. Mas o nome pode ser o “teu”, o nosso, de narratários, de leitores… O nome, texto primordial, é aqui múltiplo, partilhado, partilhável, desdobrando-se em tantas instâncias quantos os criadores-leitores. Este é um poema-livro-filme-guião-manual-de-instruções. Mas é muito mais do que isso. A voz do poeta que escreve confunde-se com a voz do ilustrador, com a voz do protagonista menino-artista, que regista a sua experiência, com a voz do ilustrador que registou a sua experiência e que acompanha o menino; com a voz do narratário, que somos nós, que lemos, que somos nós, que lemos para alguém, com quem todos partilham o ato criativo.

Termina aqui o texto originalmente escrito por Jacques Prévert. Mas a história continua, fechando-se o círculo em nova sequência de quadro slides: o menino que transporta o quadro com o pássaro cantando dentro da gaiola; o menino que pendura o quadro no quarto, junto à janela; o menino que se aconchega, satisfeito, quando a noite cai; o menino que adormece e o pássaro que voa de novo, pela janela aberta.

“(Amanhã podes pintar outro.)”, acrescentou Gerstein (ele, Prévert, o menino, o narrador, nós…). É com esta frase que a história termina. Mas será que termina mesmo?

 

 

Para fazer o retrato de um pássaro

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)

 

livro “Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert com ilustrações de Mordicai Gerstein

Faktoria de Livros / Kalandraka, 2011

[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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A “velha infância” de Arnaldo Antunes ao vivo em Lisboa

É um dos artistas mais singulares do Brasil e de toda esta apátrida globalização criativa contemporânea, e no entanto é plural como poucos. Arnaldo Antunes não é – nunca foi e nunca será – um modelar criador de arte musical, literária ou gráfica para crianças, e no entanto há tantas infâncias e tantas juventudes na sua obra. E são também essas infâncias e juventudes que, paradoxalmente ou talvez não, o comprovam como um dos mais sérios e adultos autores da música popular de recentes décadas.

 


Começando quase pelo fim: o coletivo Pequeno Cidadão, que formou com outros três músicos com obra relativamente relevante no panorama independente de São Paulo e cujos filhos partilham a escola com as crias de Arnaldo, é apenas a ponta mais assumida mas também mais irregular desse iceberg. A par de “Pequeno cidadão”, o videoclip que aqui destacamos no dia inaugural do blogue, “Leitinho” é uma das poucas canções com que brindou a estreia do quarteto, registada em 2009 em CD e também num DVD que propõe videos para a totalidade das faixas – e é a que nos parece ser mais digna de memória, sobretudo digna de uma memória afetiva que nos pode ser muito prática, por se tratar de uma das mais eficientes cantigas de embalar doadas em tempos recentes à língua portuguesa. Isto apesar do infeliz elogio, acentuado pelo video, ao leite de vaca para consumo humano (numa época em que, desligando a televisão e dando atenção às vias de informação que são merecedoras de credibilidade cientificamente sustentada, já está mais do que provado que o ser humano sai mais prejudicado do consumo de leite de origem animal do que alguma vez foi assumido…). Felizmente a associação ao todo poderoso leite humano mantém-se intacta. E há sempre as estrofes dedicadas ao “soninho” e ao “carinho” para garantir uma tranquila e saudável digestão…

Pequeno Cidadão, “Leitinho”:

Em Arnaldo Antunes, contudo, a linha que distingue o escalão etário alvo de cada canção é invariavelmente ténue, confundindo-se elegantemente músicas concebidas para crianças mas que viciam de igual modo os adultos, e músicas que à partida terão sido geradas para conquistar adultos mas que criam nas crianças uma empatia não muito vulgar. Esse “dom de iludir” (como diz a canção de Caetano Veloso) é o resultado do talento monumental que Arnaldo sempre evidenciou para esculpir letras tão lúdicas, palavras tão gráficas, ideias tão plásticas. Três exemplos paradigmáticos desse pensamento vocacionado para crianças sem limite de idade, seguidos de três exemplos paradigmáticos dessa ação que se move rumo a uma idade adulta “ideal”:

“Mão”:

“Tudo”:

“Hora-disso-hora-daquilo”:

“Cultura”:

“A nossa casa”:

“Alta noite”:

Aos 50 anos, com quatro filhos, Arnaldo Antunes não é – nunca foi e nunca será – um modelar criador de arte musical, literária ou gráfica para crianças, mas é um notável criador de “música para embalar adultos” (expressão com que descreveu “Saiba”, faixa originalmente oferecida a Adriana Calcanhotto para encerrar a sua primeira aventura em modo Partimpim) – “adultos” de todas as idades, entenda-se…

Amanhã, 18 de junho, às 10 da noite, um desses plurais majestáticos de Arnaldo Antunes irá iluminar a sala 1 do Cinema São Jorge, Lisboa, com um recital – viabilizado pelo nobre Festival Silêncio – que promete uma retrospetiva intimista da sua carreira, recuando até aos primevos dias dos Titãs (esperar uns passos ainda mais atrás, aos breves momentos dos seminais Aguilar & A Banda Performática já seria pedir demais…). Ou seja, provavelmente com algum material verbal impróprio para crianças, mas que os adolescentes que tiverem o bom senso de encantar os seus pais até à Avenida da Liberdade não irão esquecer com facilidade. Para os pais e outras crianças maiores de 18 anos, esta promete ser uma magnífica oportunidade para reequacionar prazos de validade da “velha infância” de cada um, perspetivando-a analogamente à do próprio Arnaldo. Será essa a mais pertinente retribuição que lhe poderemos garantir…

 

18 de junho, 10 pm
Arnaldo Antunes
“Dois violões”
Festival Silêncio
Cinema São Jorge (sala 1), Lisboa
[a partir dos 15 anos]

 

 

 

Moreno Fieschi

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Jardim Botânico O Chão das Artes

Gostamos muito de jardins. E este, na Casa da Cerca, em Almada, é especial. Leiam o texto que se segue em voz alta e sintam como dele se desprendem os aromas (em lufadas poéticas de oxigénio); os sabores (em doces polpas e fios de sumo); as cores (em memórias tecidas de oriente a ocidente).

 

Jardim:

Mata

(azinheira, buxo, nogueira, pinheiro);

Pomar das Gomas

(ameixeira, amendoeira, aroeira, cerejeira);

Jardim das Telas

(algodão, linho, papiro);

Jardim dos Óleos

(alecrim, girassol, rosmaninho);

Jardim dos Pigmentos

(açafroa, indigo, lírio, ruiva-dos-tintureiros);

(…)

 

2011 é, merecidamente, um ano festivo para a Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em Almada. E neste sábado, 18 de junho, das 10 às 24 horas, em entrada livre, o Jardim Botânico O Chão das Artes, inaugurado em junho de 2001, oferece-se ao passeio, à exploração, desdobra-se em visitas, oficinas, jogos, conferências, em olhares com os olhares de artistas plásticos.

 

Paula Pina

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Santo António menino e os pássaros

“É viva a Palavra quando são as obras que falam.”

Santo António

 

Hoje é dia de Santo António. Contamos aqui uma história, dizem que verdadeira, deste santo ainda menino.

Diz-se que Martinho de Bulhões, pai de Santo António, possuía, nos arredores de Lisboa, uma propriedade de lavoura, que amiúde visitava. Num desses longos dias de visita, talvez porque lhe soubesse bem a companhia ou porque armado de instrutivo propósito, resolve o pai levar consigo Santo António menino, ainda de nome Fernando. Era chegada a época das sementeiras, e os pássaros, gulosos, em grandes bandos esvoaçantes e ariscos, engoliam as preciosas sementes, pondo em risco a colheita. Nem espantalhos, nem gritos pareciam assustar as insaciáveis aves. Desesperado, D. Martinho chamou o filho, encarregando-o de patrulhar o campo, enxotando os pássaros, com corridas, ramos e pedras, enquanto tratava de outros afazeres.

Vai-se o pai e fica o filho, atento e cumpridor, agitando os braços, correndo diligentemente de um lado para o outro e afugentando os pássaros. Claro que em breve a tarefa passa de brincadeira a enfado, do desvelo ao cansaço. Empoleirado já em cima do muro de pedras, o seu olhar perde-se na paisagem. Mais do que perder-se, os seus olhos acham, aninhada no sopé de uma colina, uma capelinha rústica, branca e solitária. Despertara nele precoce a religiosa vocação, e o chamamento da oração vai ficando cada vez mais forte. Mas como não abandonar a tarefa? Como não desobedecer a seu pai?

Chama Fernando com sua voz de menino os pássaros. Escutam-no as aves. Em passinho curto, dirige-se Fernando à casa da quinta. Seguem-no as aves, obedientes. Abrindo decidido as portas do salão, convida Fernando os pássaros a entrar. Todos os pássaros entram, em alegre revolutear de cantos e asas. Todos, sem exceção. Trancadas janelas e portas, segue Fernando caminho até à capela, ajoelhando-se tranquilamente a rezar.

Passam as horas e retorna D. Martinho ao campo. Do filho, nem sinal. Preocupado, corre em busca do menino. Atravessa as propriedades vizinhas e chega à capela. Aí o descobre, santo António, menino santo, em profunda oração, junto ao altar. Regressam a casa, levando a criança seu pai pela mão e conduzindo-o ao salão onde mantivera as aves cativas. São recebidos por um coro de penas, vozes e voos gentis. Abriu então Fernando as portas e janelas de par em par e, a um gesto seu, os passarinhos prisioneiros voam de novo, livres, para o céu.

 

M. C. Escher, “Moebius birds”

 

Paula Pina

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“É um livro”, de Lane Smith

VX-909 entrou no espaço virtual de transmissão de conhecimentos. Trazia um recetáculo de metal e acrílico nas suas mãos mecânicas. Pousou a caixa e retirou do seu interior um pequeno objeto, retangular, de aspeto frágil, que ficou a pairar no ar durante alguns segundos:

– Quem sabe o que é isto? – perguntou VX-909.

Vários flashes dispararam quase em simultâneo, oriundos de diversas zonas semi-iluminadas do compartimento. Ouviu-se então o som de uma voz humana, masculina, jovem:

– Eu! Eu sei.

– Muito bem! Foi bastante mais rápido do que da última vez, TCW-87650. Gastou apenas três segundos e 14 milésimos. Vou ampliá-lo. Estamos com interferências. Que me sabe dizer?

– Bom, este objeto parece-me um conjunto de folhas de papel impressas, cosidas de um dos lados, e cobertas por uma capa de material rijo… E descobri uma sequência.

– Bem observado. E alguém sabe para que serve?

Uma rapariguinha loira entrou no compartimento com um ligeiro zumbido. A sua imagem oscilava ligeiramente, provavelmente devido a uma transmissão deficiente, mas isso não parecia perturbá-la minimamente. Parecia segura de si. O seu olho direito estava coberto por um mecanismo articulado, de que se servia como um braço extra. A rapariga rodou o pescoço e desviou o olhar de um único olho para um dos ecrãs do seu lado direito. Carregou rapidamente em alguns símbolos e respondeu:

– É claramente um objeto utilizado para uma atividade humana. Aparentemente, e segundo os registos mais antigos que descobri, terá sido criado por um tal Gutenberg no século XV e prevaleceu até meados do século XXI. Consegui recuperar alguns ficheiros de imagens com objetos idênticos… Os seus últimos utilizadores terão sido pais de crianças que usavam estes objetos como facilitadores da passagem do estado de vigília ao sono.

– Chama-se livro. – interrompeu-a TCW-87650, com voz vitoriosa – É um livro!…

(…)

 

 
É ficção. Nossa. Mas poderia não ser. Mas poderá não o ser. E dentro de muito pouco tempo.

 

Nas últimas décadas tornaram-se óbvias as mudanças nos processos tradicionais de circulação de livros, graças à internet e ao ciberespaço. Temos amigos das velhinhas feiras do livro que transportam agora leitores de e-books com ecrãs de tecnologias avançadas, em ostentosa demonstração dos resultados da concorrência entre livro digital e livro impresso. Prevê-se, inclusivamente, que em 2018 as vendas de conteúdos digitais sejam superiores às dos conteúdos impressos, pois os leitores de e-books são já dezenas de milhões. E, em tantos milhões, incluem-se muitos milhões de amantes incondicionais da leitura e do livro tradicional. Dentro de muito pouco tempo, as mais importantes obras no domínio público estarão serenamente disponíveis na internet, ao alcance de um qualquer computador, telemóvel ou iPhone. O suporte impresso em cheiroso papel deixou de ser sinónimo de cultura e de tempo. Por isso, para entendermos melhor o futuro do livro, teremos de ser capazes de o relacionar com os suportes digitais e meios de comunicação, com a fragmentação discursiva das novas gerações e seus processos cognitivos e neurológicos em reestruturação, com os novíssimos hábitos de leitura (com ou sem Plano Nacional de Leitura). As vantagens palpáveis, sensoriais, testemunhais e amorosas do livro impresso são igualmente as suas fragilidades. Custos ecológicos, problemas de armazenamento, distribuição e venda, interesses de editores e autores, tornam o livro vulnerável. E daí, talvez não.

 

“É um livro” é uma bem humorada fábula de Lane Smith sobre esta suposta rivalidade entre livro impresso e livro digital. “Um dia acordei e percebi que o mundo tinha mudado”, afirma Lane Smith, de 51 anos, ilustrador e autor premiado de livros para crianças.

 

Um burro, de computador ao colo, nunca viu um livro: “O que é que tens aí?”, pergunta ele ao macaco, leitor de livro na mão, “Onde tens o rato?”, “O livro envia mensagens?” “E tuíta?”, “Tem wi-fi?”. As respostas pacientemente repetitivas do macaco e a sua disponibilidade resmungona, acabam por deixar o burro literal e irremediavelmente apaixonado por esse novo objeto. E há paixões que duram para sempre. Desde que haja autores talentosos e leitores dedicados. Nós conhecemos alguns. E vocês?

 

 

livro “É um livro”, de Lane Smith
Presença, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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O Camões de João de Barros

A inaugurar um espaço regular de  memórias de crianças de outros tempos para as crias do futuro, propomos agora um exercício de releitura de “’Os lusíadas’ de Luís de Camões contados às crianças e  lembrados ao povo”, a adaptação em prosa do pedagogo, poeta e político João de Barros (1881-1960) do clássico da literatura portuguesa.

 

Numa era de adaptações, de adaptações das adaptações, de versões das versões, as palavras de João de Barros no prefácio da obra parecem-nos quase ingénuas:      “O autor desta quase literal adaptação dos ‘Lusíadas’ reconhece – apesar do respeito, do cuidado e do carinho que pôs na delícadíssima tarefa – que ela é de qualquer modo sacrílega”. Uma saudável deferência pela obra intocável que seria substituída pela legitimidade abusiva da condensação rápida, pelo resumo descuidado e pela  presença fragmentada e desconexa em posteriores manuais de qualidade muito duvidosa.

 

Hoje é dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Talvez as ilustrações de André Letria, na edição de 2009 da Sá da Costa, ajudem a ler João de Barros que leu Camões. Camões morreu. Viva Camões!

 

Paula Pina

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Logo Tipo

E, ao sétimo dia da Cria, ainda não conseguimos parar de lhe contemplar as feições… Uma cara e um corpo enigmáticos, uma beleza que o politicamente correto apelidaria de “especial”. Ou mesmo… “exótica”…

Quem o concebeu foi a nossa parideira de todas as imagens – cuja imparável fertilidade criativa já se prepara para deitar para este mundo mais uma ninhada de criaturas que vão precisar de tanto ou mais afeto do que esta -, mas os pais somos todos nós que lhe dedicamos tempo e carinho infinito.

Considerámos a hipótese de o batizar apenas como Tipo (ou, como também foi equacionado, Tipo Um), mas uma epifania de contornos algo shakespearianos soprou-nos ao ouvido que abençoado seria se se desse a conhecer como Logo Tipo – e assim ficou, e assim seja…

Logo Tipo tem sete dias de vida, já mudou de cor pelo menos por três vezes, tem umas bizarras manchas brancas estrategicamente espalhadas pelo corpo, patas da frente que insistem em ficar permanentemente encolhidas, focinho subtilmente achatado e, pelo que nos apercebemos, ainda não deixou de nos fitar por um segundo que fosse com aqueles olhos tão simetricamente perfeitinhos que deus lhe deu (apenas não garantimos que tal não tenha acontecido porque – confessamos – desde o seu nascimento já ousámos adormecer meia dúzia de vezes por uns quantos minutos…).

Diversas outras crias que por ele passaram nesta sua intensa semana de vida trataram-no como um reles gato ou como um mero rato ou como um vulgar tatu ou como uma miríade de outros mundanos delírios animalescos. Coisas de crianças… Mas ele sabe que não é nada disso, ele sabe que é singular e que não há no universo outra criatura que se lhe compare. Apesar dessas ofensas, lida de forma igualmente feliz com gatos, ratos, tatus e todos os outros animais que o rodeiam no seu agitado quotidiano. Prova disso é que até já tem uma lenga lenga (aliás, uma parlenda, uma vez que é de origem brasileira) predileta, relativamente à qual se refere ironicamente como sendo “a minha cara”:

“Gato escondido com rabo de fora
tá mais escondido que rabo escondido com gato de fora.”

 

 

Moreno Fieschi

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“Praia mar”, de Bernardo Carvalho

 

“Um livro de imagens [como este] pode ser um objeto estranho” e um desafio tamanho. Aceitámos esse desafio e o resultado foi o que se segue: uma leitura-escrita alheia de textos e poemas de outros-feitos-nossos juntam-se às belíssimas imagens de Bernardo Carvalho que selecionámos. De facto, no álbum “Praia mar”, “as palavras não estão à vista nas páginas”, mas a elas se podem colar, no topo, nas margens, como post-it-legenda, como notas de viagem pela imagem.

 

Alguns poemas, seguros, agarram-se às páginas como lapas, resistindo a cada investida da maré; outros, arriscam um lamber das margens, em impalpáveis carícias de espuma; outros ainda, atravessam a página em corridinhas esquivas e tolas de caranguejo. Poemas há que enterram os pés na página enquanto outros parecem boiar, hesitantes, em vai-e-vem de onda. Também os destinatários desta obra podem ser apenas leitores-ledores-escritores: crianças, jovens, adultos, não importa. São-no, em balançar de marés.

 

 

“Era uma praia muito grande e quase deserta onde havia rochedos maravilhosos. Mas durante a maré alta os rochedos estavam cobertos de água. Só se viam as ondas que vinham crescendo do longe até quebrarem na areia com um barulho de palmas. Mas na maré vazia as rochas apareciam cobertas de limo, de búzios, de anémonas, de lapas, de algas e de ouriços. Havia poças de água, rios, caminhos, grutas, arcos, cascatas. Havia pedras de todas as cores e feitios, pequeninas e macias, polidas pelas ondas. E a água do mar era transparente e fria. Às vezes passava um peixe, mas tão rápido que mal se via. Dizia-se ‘vai ali um peixe’ e já não se via nada.”

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “A menina do mar”

 

 

Sentaram-se na areia e descalçaram os sapatos.
Puseram-se a contar pelos dedos os barcos
que faltariam para chegar o verão.

Nenhum deles falava. Tinham passado juntos
algumas noites; num quarto sem vista. E, embora
julgassem o contrário, não conheciam um do outro
muito mais do que isso.

Estavam ali sentados para ver se acontecia alguma coisa.

No verão
alguém viria forçosamente buscá-los.

 

Maria do Rosário Pedreira, in “A casa e o cheiro dos livros”

 

 

À volta de um búzio

 

Dizem que o búzio nos traz
ao ouvido o som do mar.
Mas eu acho que é mentira:
se encosto o búzio ao ouvido
só ouço as ondas do ar.

As ondas do ar me trazem
forte cheiro a maresia.
Mas eu acho que é mentira:
o mar não mora nas nuvens,
nunca em nuvens viveria.

Descem as nuvens no mar
se acaso a chuva acontece.
Mas eu acho que é mentira:
se encosto o búzio ao ouvido,
ouvir o mar me parece.

 

Maria Alberta Menéres, in “Conto estrelas em ti”

 


Os peixes

 

Dormem numa cama de algas
entre rochas e corais
só não podem bronzear-se
na extensão dos areais

Porque peixes fora de água
não conseguem respirar
mexem as guelras depressa
e voltam logo ao mar

Os peixes de muitas cores
das águas fundas dos mares
sabem por ovos fresquinhos
com peixes aos milhares
(…)

 

José Jorge Letria, letra de uma canção escrita para o programa de televisão “A arca de Noé”

 


Mar

 

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

 

Sophia Mello Breyner Andresen, in “Signo”

 


Sereia

 

A sereia nunca mente
quando, cantando, se mexe.
Pra cá da cintura é gente
pra lá da cintura é peixe.

Se alá da cintura é peixe
e acá da cintura é gente,
canta, e se ao cantar se mexe,
a sereia nunca mente.

Nem eu cuido que haja guerra
nessa maneira de estar
com a voz lançada à terra
pelos caminhos do mar.

Os caminhos são do mar
sim, mas a voz é da terra
e nessa forma de estar
tudo haverá menos guerra
nem aberta, nem secreta,
por ter sido ou por achar

é tudo a voz do poeta
quando se põe a cantar.

 

Mário Castrim, in “Conto estrelas em ti”

 

 

Espuma

 

Mais leve que a pluma
Que no ar balança,
Pela praia dança
A ligeira espuma.
Dançando se afaga
No alado bailar!
Pétalas de vaga, poeiras do mar…

E na dança etérea,
Que imparável ronda!
Bafo de matéria,
Penugem da onda.

 

Afonso Lopes Vieira, in “Poesia portuguesa para crianças”

 

 
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

 

Carlos Drummond de Andrade, in “Amar se aprende amando”

 


Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves – só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.

 

Eugénio de Andrade, in “Mar de setembro”

 


Liberdade

 

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

livro “Praia mar”, de Bernardo Carvalho
Planeta Tangerina, 2011
[a partir dos 18 meses]

 

 

Paula Pina

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“Um livro”, de Hervé Tullet

Carrega, clica,… vira, esfrega suavemente com o dedo, clica cinco vezes, sacode, inclina… Não, não é um iPhone, não é um iPad, não é um Kindle, não é um Wii. Não, não é mais uma daquelas obras “interativas”, “cognitivas”, mensuradas e testadas por especialistas em desenvolvimento infantil, com botões e buzinas, sons e vozinhas, pop-ups e cortinas. É… “Um livro”, mais uma obra-prima de Hervé Tullet.

Desenganem-se todos aqueles a quem se explicou que os livros se leem com os olhos, em movimentos da esquerda para a direita e de cima para baixo, silenciosa e reverentemente, folheando dignamente cada página (se possível com o mínimo de dedos, de preferência não gordurosos). Desenganem-se aqueles que acham que os livros têm de ter lindas histórias e primorosas moralidades, para serem lidas em voz alta (habitualmente oscilando entre monocórdica e estridente), entre bocejos e suspiros, acerca das quais se irá elaborar a inevitável “fichazinha”, ou, na melhor das hipóteses, o “reconto”, para assim os meninos se tornarem bem comportados, bons estudantes e respeitosos futuros cidadãos.

 

Aqui toca-se na página e temos um “ecrã”, e em cada círculo um “botão”. Instrução, gesto, resultado. Em leitura partilhada, lado a lado, adulto e crias, ora lendo, ora obedecendo às instruções do texto, deixando-se fascinar, rindo com o resultado surpresa na página seguinte. Não temos só verbos imperativos, temos também advérbios, exclamações de incentivo e aplauso, pedidos delicados e ordens diretas. Nestas linhas de texto-legenda-ordem, tecem-se também comentários em que o narrador/autor que faz as propostas, apesar de dirigidas ao leitor, não se distancia, pelo contrário, parece partilhar genuinamente do prazer de estar a manipular o livro, em jogo de descoberta, connosco.

 

Pois este é sobretudo “Um livro” de partilha e redescoberta do prazer de descobrir o prazer de ler com o corpo todo. Soprando, sacudindo, carregando com força, esfregando suavemente, inclinando, batendo palmas, endireitando… Nunca os círculos mais básicos se tornaram tão divertidos. Pintados a amarelo, azul e vermelho, em fundo branco ou negro (quem apagou a luz?) são círculos planos, bidimensionais, mas são também tridimensionais, escorregando como berlindes, crescendo como balões.

 

Todo o conceito tradicional de interatividade é aqui serena, inteligente e magicamente desmontado. Um livro não precisa de botões para ser estimulante e interativo, não precisa de ter uma história para ser interessante, não precisa de moralidade ou do selo do didatismo para promover aprendizagens. Basta-nos a imaginação nesta dialética de faz de conta, entre gesto obediente à instrução e a consequência inesperada.

 

Gostamos de tecnologia e touch screens. Mas o que adoramos mesmo é… “Um livro”. Voltamos ao princípio? Carrega, clica, vira…

 

 

livro “Um livro”, de Hervé Tullet

Edicare, 2010

[a partir dos 2 anos]

 

Paula Pina

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Os “jogos” de Hervé Tullet estão a chegar a Portugal

Maravilhosa novidade editorial para iluminar ainda mais estes momentos iniciais da Cria (que) Cria: a editora e distribuidora portuguesa Edicare – que, depois da loja assumida em nome próprio na Avenida de Roma, inaugurou recentemente um outro espaço comercial no n.º 17 da Rua da Trindade (junto ao Teatro da Trindade), no Chiado, Lisboa – garantiu hoje a publicação de mais três livros do fundamental ilustrador francês Hervé Tullet, de quem já havia disponibilizado “Um livro” – não qualquer livro, um livro singular, um livro “mágico”. As pérolas em questão são “The game of let’s go!”, “The game of light” e “The game of mix and match”, espantosas páginas para todos os públicos acima dos seis meses de idade (fatia de mercado que, a nível de obras merecedoras da nossa atenção, é praticamente inexistente em Portugal…). Publicados originalmente no início deste ano pela Phaidon, estes volumes, metade da coleção “Let’s play games!” da editora britânica, deverão chegar às mais seletivas livrarias portuguesas no início do outono. Na calha estarão igualmente os outros títulos desta série, os não menos brilhantes “The game of patterns”, “The game of finger worms” e “The game of mix-up art” – um projeto para alegrar 2012, suspeitamos…

 

Contagiantemente primário nas cores e nas formas, Tullet (que nasceu em 1958 e dedica a sua obra com especial ênfase às crianças desde há 16 anos) é dotado de um génio raro, entre outros motivos por falar a linguagem gráfica das crianças com uma naturalidade e fluidez que muito poucos autores dominam. O minimalismo, o humor, a assertividade cromática e a permanente reinvenção formal das suas premissas criativas de base são nutrientes com uma riqueza infinita para a imaginação e o desenvolvimento intelectual e sensorial das crias que com estes livros têm a felicidade de se cruzar.

 

Outras obras radiantes que Hervé Tullet compôs ao longo dos últimos anos são a dupla “Blue & square” e “Yellow & round”, “The book with a hole”, The coloring book”, “Turlututu, histoires magiques” ou a série “Jeu” (que abriu caminho para estas edições da Phaidon), com títulos como “Jeu de voyages”, “Jeu de formes”, “Jeu de construction” ou “Jeu d’ombres”. Saiba o mercado nacional tratar condignamente destes três “jogos” que agora se anunciam, para que a hipótese de uma edição integral da sua obra seja, daqui a uns meses, uma realidade consideravelmente menos utópica do que o é hoje.


Tudo e muito mais para espreitar prolongadamente em tullet.free.fr – também aqui com uma surpresa e uma vibrante emoção visual a cada nova página…

 

Bruno Bènard-Guedes

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Presente perfeito (pelo Dia Mundial da Criança)

Opções, hipóteses, ideias, possibilidades, sugestões, mas essencialmente – assumidamente – as nossas escolhas de eleição do recente mercado das profundas crises, para que eles possam acrescentar um pouco de memória particular a este seu Dia Mundial que hoje se impõe. Presentes perfeitos, ou quase, como prenúncio de um futuro mais-que-perfeito, com tanta ou mais criatividade e amor do que as que em seguida se inventariam. As idades aqui associadas são, para que não sobrem dúvidas, meramente referenciais – sem erguer muros intransponíveis, celebrando a experiência e a liberdade pedagógica acima de qualquer dogma.

 

roca Pássaro Vermelho com som

Käthe Kruse / import. Cristina Siopa

[a partir dos 0 meses]

 

roca Porquinho Tricot com som

Käthe Kruse / import. Cristina Siopa

[a partir dos 0 meses]

 

roca Haba em madeira de faia

Haba

[a partir dos 6 meses]

 

bonecos Ugly Dolls

Ugly Dolls / import. Sig Toys

[a partir dos 10 meses]

 

Carro de corrida tronco

Treeblocks / import. Cristina Siopa

[a partir dos 18 meses]

 

livro “Praia mar”, de Bernardo Carvalho

Planeta Tangerina, 2011

[a partir dos 18 meses]

 

livro “Um livro”, de Hervé Tullet

Edicare, 2010

[a partir dos 2 anos]

 

livro “De caras”, de André Letria e José Jorge Letria

Pato Lógico, 2011

[a partir dos 2 anos]

 

livro “Estrambólicos”, de André Letria e José Jorge Letria

Pato Lógico, 2011

[a partir dos 2 anos]

 

mini-puzzle “Matchbox puzzle – 12 piece puzzle”

Crocodile Creek / import. Sig Toys

[a partir dos 3 anos]

 

livro “Popville”, de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud

Bruaá, 2010

[a partir dos 3 anos]

 

livro “Isto ou aquilo?”, de Dobroslav Foll

Bruaá, 2011

[a partir dos 3 anos]

 

livro “Panoramas do mundo”, de Géraldine Cosneau

Edicare, 2010

[a partir dos 3 anos]

 

livro “Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert com ilustrações de Mordicai Gerstein

Faktoria de Livros, 2011

[a partir dos 4 anos]

 

disco “Sunny day”, de Elizabeth Mitchell

Smithsonian Folkways / Mundo da Canção, 2010

[a partir dos 5 anos]

 

livro “Bichos, bichinhos e bicharocos”, de Sidónio Muralha, Júlio Pomar e Francine Benoit

Althum / Centauro, 2010

[a partir dos 5 anos]

 

disco “B Fachada é pra meninos”, de B Fachada

Mbari, 2010

[a partir dos 6 anos]

 

livro “Isto é Nova Iorque”, de M. Sasek

Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

livro “Isto é Londres”, de M. Sasek

Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

livro “Isto é Paris”, de M. Sasek

Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

livro “Isto é Roma”, de M. Sasek

Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

livro “Desenhar, rabiscar e colorir”, de Erica Harrison e Katie Lovell

Edicare, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

disco “Fala mansa”, de Norberto Lobo

Mbari, 2011

[a partir dos 7 anos]

 

livro “O livro do buraco”, de Peter Newell

Libri Impressi / Gradiva, 2011

[a partir dos 7 anos]

 

livro “O livro das caras”, de Claire Didier e Beppe Giacobbe

Edicare, 2010

[a partir dos 7 anos]

 

livro “Ginástica animalástica”, de Isabel Minhós Martins com ilustrações de João Fazenda

APCC, 2010

[a partir dos 8 anos]

 

disco “The magic place”, de Julianna Barwick

Asthmatic Kitty, 2011

[a partir dos 8 anos]

 

dvd “Gru, o maldisposto”, de Pierre Coffin e Chris Renaud

Universal, 2011

[a partir dos 9 anos]

 

 

livro “Charlie e a fábrica de chocolate”, de Roald Dahl com ilustrações de Quentin Blake

Civilização, 2011

[a partir dos 10 anos]

 

livro “Na noite escura”, de Bruno Munari

Bruaá, 2011

[a partir dos 11 anos]

 

disco “Stone rollin'”, de Raphael Saadiq

Columbia / Sony, 2011

[a partir dos 12 anos]

 

disco “Hot sauce committee, part two”, dos Beastie Boys

Capitol / EMI, 2011

[a partir dos 13 anos]

 

livro “My monster notebook”, de John Harris e Mark Todd

Thames & Hudson, 2011

[a partir dos 14 anos]

 

 

 

Bruno Bènard-Guedes

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Dia Mundial da Criança

Uma das descobertas mais admiráveis da humanidade é o direito à felicidade. Neste Dia Mundial da Criança, invenção recente de 61 anos, o aniversário empurra-nos para a consciência do tempo que passou. Em 1946, período pós 2.ª guerra mundial, numa Europa devastada, milhões de crianças ficaram órfãs, sofrendo terrivelmente com a fome, com as doenças, com o abandono e a discriminação. Cientes que sem uma sensibilização global seria muito mais difícil ultrapassar estas dificuldades, a Federação Democrática Internacional das Mulheres (Women International Democratic Federation) propôs então à O.N.U. a criação de um dia especial, dedicado às crianças do mundo inteiro. Esse dia foi o 1.º de junho de 1950. Mas só em 1959, a 20 de novembro, a O.N.U. aprovou a Declaração Universal dos Direitos da Criança.

ilustração de Susy Lee, in "Onda"

Nunca antes na história do mundo se pensara o bem-estar da criança desta maneira. Os estados-membros das Nações Unidas reconheceram finalmente às crianças, independentemente da raça, cor, sexo, religião e origem nacional ou social o direito ao afeto, ao amor e à compreensão; a uma alimentação adequada e a cuidados médicos; a uma educação gratuita; à proteção contra toda e qualquer forma de exploração; e o direito a crescer em clima de paz e fraternidade universais. São dez princípios sintéticos, que, se cumpridos, assegurariam a todas as crianças do mundo uma vida feliz. Só em 1989, passados 30 anos, é que a O.N.U. aprovou a “Convenção sobre os Direitos da Criança”, longo documento constituído por 54 artigos que servirá de base à criação, em 1990, da lei internacional dos direitos da criança. Quanto à Women International Democratic Federation, continua hoje ainda em atividade, contando com 660 filiais e representantes de 160 países.

Paula Pina

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Vale a pena crescer? Vale a pena crescer hoje?

Sim, crescer dói porque a cada momento deixamos para trás um pedacinho de nós. Às vezes, damos conta e tentamos voltar atrás, vasculhando entre os nossos cacos e os dos outros, ou procurando nas tabuletas as indicações “Perdidos e achados de nós”. Ora encolhidos, ora altivos, ora refilando e revolucionando, ora simplesmente fungando nossas lágrimas-leite derramado. Às vezes, nem nos apercebemos. Outras ainda, colocamos aos ombros a nossa sacudida capa-do-ora-ainda-bem-teve-de-ser e seguimos. Às vezes fazemos bem, outras, nem por isso. E aqui estamos, só medos e coragens.

Homenageamos a coragem dos (das! Mulheres!) que lutaram pela “legalização da felicidade” das crianças do mundo em 1950, instituindo o Dia Mundial da Criança. Homenageamos a coragem das crianças que hoje (e ontem e de ontem, que somos nós também) nos falam dos obstáculos a essa mesma felicidade. Lado a lado. Que neste dia 1 de junho de 2011, Dia Mundial da Criança, dia de nascimento do blogue Cria Cria, nos curemos um bocadinho de nós. Crescendo e criando um bocadinho de nós. Sendo a “cria” que cria, e por essa criação deve ser amada e respeitada, aqui colocamos o que elas, pequenas, dizem, sem comentários, sem conflitos, sem omissões:

a) sobre elas, crianças, o que nos dizem elas, crianças:

“Quero ser criança quando for grande” (Daniel H., 4 anos, Bairro do Condado);
“Ser criança é ser brilho” (Inês N., 3 anos, Vila Real);
“Ser criança é quando uma pessoa porta-se mal [sic]” (Beatriz F., 3 anos, S. João da Talha);
“Vou ser criança todos os dias porque posso sujar as mãos” (Marta A., 3 anos, Vila Real);
“Eu não me lembro de ser pequenina…Quando vocês eram pequeninos, quem é que tomava conta de mim?” (Beatriz A., 3 anos, Atouguia da Baleia).

Frases retiradas do “Cancioneiro infanto-juvenil para a língua portuguesa” (volumes X e XI, “Silêncio é o barulho baixinho!…”, Instituto Piaget, 2000; e volume XIII, “A minha vida é uma memória”, Instituto Piaget, 2006).

b) e lá em casa também já se ouviram coisas como:

“Ser grande também é acordar ainda pequeminina [sic] todos os dias” (Mariana D., 4 anos, Lisboa)
“Quando for grande vou nascer pequenino outra vez” (David D., 4 anos, Lisboa)

c) sobre o que em nós, os “grandes”, não lhes agrada e que sabiamente sintetizam:

“Que estejam sempre a dizer mentiras, dizendo que sim e afinal é não”;
“Quando nos dão beijinhos com baton e cheiram mal da boca”;
“Que nos gozem quando temos medo do escuro e de outras coisas”;
“Que estejam sempre muito ocupados para brincar e depois passam horas a contar a vida toda ao telefone”;
“Que nos chamem nomes”;
“Que nos ponham de castigo e ao mesmo tempo nos deem abraços”;
“Que nos leiam as histórias a despachar”;
“Que digam que vamos fazer uma atividade muito gira e depois não tem graça nenhuma”;
“Que falem de nós à nossa frente como se não estivéssemos presentes”;
“Que nos deem sermões”;
“Que pensem logo que somos culpados”;
“Que estejam sempre atrasados e cheios de pressa”;
“Que nos digam que o Pai Natal não existe”;
“Que digam que os nossos desenhos são muito bonitos quando nós sabemos que são horríveis”;
“Que façam compras em hipermercados durante o dia todo”;
“Que não comprem as nossas bolachas mas comprem as cervejas”;
“Que nunca possam ir à minha escola”;
“Que me toquem quando eu não quero”;
“Que me batam porque não mudei a fralda à mana e não lhe dei o leite porque me distraí a ver os desenhos animados”;
“Que digam que ainda não tenho idade para fazer coisas ou que já não tenho idade para fazer outras coisas”;
“Que digam ‘que chatice, agora não é conveniente’ eu ficar doente”;
“Que digam que as pessoas que não veem e usam bengala ou andam de cadeira de rodas são coitadinhas”;
“Que me ignorem na fila do supermercado e me passem à frente”;
“Que digam mal dos meus amigos só porque são diferentes e vieram da China e da Rússia”;
“Que apontem para as pessoas que andam a pedir na rua e me perguntem se quero ser como elas porque me esqueci de fazer os trabalhos de casa”;
“Que digam que é por eu ter nascido que somos pobres”;
“Que digam que a minha música está muito alta e depois não baixem o volume da televisão quando está a dar futebol”;
“Que mandem sem dizer ‘por favor’”;
“Que não acreditem quando me dói a barriga”;
“Que me obriguem a tocar violino para as visitas”;
“Que se esqueçam de me ir buscar ao ATL”;
“Que digam que fiz de propósito quando foi sem querer”;
“Que eu goste tanto deles à mesma quando eles não gostam de mim”;
“Que façam listas que nunca mais acabam”.

Esta lista é uma recolha nossa, de frases de crianças portuguesas, efetuada em escolas e jardins de infância das regiões de Lisboa e Setúbal, a que juntámos outras, dos nossos familiares e amigos. Muitas foram recolhidas entre dezembro de 2010 e maio de 2011; outras são “pérolas” da nossa coleção pessoal.

 

 

d) as frases que se seguem são de crianças de Bolonha, Carpi e Veneza, publicadas originalmente em 1987, por Francesco Tonucci, no livro “Criança se nasce”.

“O que não nos agrada nos grandes

Que quando andamos de bicicleta queiram sempre que eu esteja à frente deles;
Que me façam comer aquilo que não me agrada;
Que me obriguem a usar fatos que não me agradam mas que lhes agradam a eles;
Que quando nós, crianças, fazemos uma pergunta aos pais, não possamos saber a resposta ou porque somos muito pequenos ou porque são coisas demasiado difíceis de explicar;
Quando nos levam para sítios para onde não gostamos de ir;
Quando os grandes conversam sobre os seus problemas e nos excluem porque somos muito pequenos;
Quando jogamos juntos e ganhamos, eles dizem que fizemos batota;
Quando se zangam entre si;
Que o meu pai ou a minha mãe descarreguem a sua raiva sobre mim;
Que tomem decisões sem a nossa opinião;
Que nunca nos deem a conhecer os seus problemas e não se façam compreender;
Que nos mandem sempre calar;
Que me obriguem a comer legumes, prometendo-se que se os comer me farão batatas fritas;
Que os professores nos gozem;
Quando o meu pai goza comigo e me chama ‘orelhas de elefante’ porque tenho as orelhas grandes;
Que falem sempre de negócios em vez de assuntos que a nós, crianças, nos são agradáveis;
O nosso professor quando explica a lição, zanga-se e, para castigo, dá um exercício para toda a turma;
Quando a minha vizinha nos impede de brincar no nosso pátio;
Quando os professores se gabam dos seus alunos;
Quando o meu pai me obriga a desenhar, porque ele é muito bom e quer que eu seja como ele;
Que o meu pai, no café, compre sempre rebuçados ao seu sobrinho e não ao seu filho (a mim);
Que praguejem;
Que fumem;
Quando o meu pai vai ao café, leva-me sempre consigo e quando chegamos lá, vai ter com os seus amigos e eu para ali… sozinho;
Que não me deem atenção;
Que não me deixem andar de bicicleta, porque têm medo que eu fique debaixo de um carro;
Quando a minha mãe lava a roupa e deve estendê-la, chama-me sempre para lhe dar as molas;
Que nos batam, quando fazemos mal qualquer coisa;
Que digam muitos ‘palavrões’;
Quando era mais pequeno, a minha mãe mandava-me para a cama depois do almoço; depois soube que ela o fazia porque as suas amigas o faziam;
Quando brinco com os meus amigos, a minha mãe interrompe-me para eu ir despejar o lixo;
Que o meu pai esteja sempre a olhar para mim, quando faço o trabalho de casa para a escola;
Que batam nos cães, quando estes os irritam;
Que queiram que nós respeitemos os meninos mais pequenos e que os deixemos ir sempre à frente no carrocel [sic] ou noutros lugares;
Que não queiram o Bolinhas, o meu cão, no condomínio;
Que quando temos febre, devemos ficar na cama;
Quando o professor de natação, antes de nos deixar ir para a água, nos faça fazer meia hora de ginástica, e assim, quando entro na piscina, vou ao fundo, devido ao cansaço;
Não me agrada tornar-me como certos pais que se embebedam ao café;
Que queiram ter sempre razão;
Não me agrada, quando me proíbem de fazer algo que eles fazem logo de seguida;
Quando prometem uma coisa e depois não a fazem;
Quando não te ouvem;
Quando dizem ‘não comas isso, não comas aquilo’ e depois se empanturram”.

Francesco Tonucci é um pedagogo, investigador e ilustrador italiano, nascido em 1941. Publica em diversas revistas pedagógicas italianas, sob o pseudónimo Frato. Concebido por Tonucci em 1968, por razões psico-pedagógicas, Frato rapidamente se torna num sucesso, tanto junto de adultos, professores e pais, como junto das crianças. O seu primeiro livro de banda desenhada foi “Com olhos de criança” e os seus desenhos, verdadeiras sínteses humorísticas, por vezes duramente satíricas, ora nos desconjuntam em gargalhadas, ora nos fazem mirar, impúdicos, as nossas vergonhas ao espelho.

 

 

Algumas obras publicadas em português:
“Criança se nasce” (Instituto Piaget, 1987)
“Com olhos de criança (Instituto Piaget, 1988)
“As novas aventuras do Pinóquio” (Instituto Piaget, 1989)

Paula Pina

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Proposta

O exercício inaugural deste blogue é uma reflexão sobre a felicidade e o bem-estar, conceitos tão recentes e mensuráveis. A felicidade e o bem-estar enquanto variáveis relacionais, enquanto direitos e metas, enquanto pontos de vista e ações.

Ouvimos então dois discos e selecionámos dois temas: a banda Pequeno Cidadão, de Arnaldo Antunes, com a canção que dá nome ao projeto (2009), e “Criança não trabalha” (1998), também composta em parceria por Arnaldo Antunes para o grupo Palavra Cantada. Que bom ouvi-los…

Pequeno cidadão

Agora pode tomar banho,
Agora pode sentar pra comer,
Agora pode escovar os dentes,
Agora pega o livro, pode ler.

Agora tem que jogar videogame,
Agora tem que assistir TV,
Agora tem que comer chocolate,
Agora tem que gritar pra valer.

Agora pode fazer a lição,
Agora pode arrumar o quarto,
Agora pega o que jogou no chão,
Agora pode amarrar o sapato.

Agora tem que jogar bola dentro de casa,
Agora tem que bagunçar,
Agora tem que se sujar de lama,
Agora tem que pular no sofá.

É sinal de educação
Fazer sua obrigação,
Para ter o seu direito
De pequeno cidadão.

(Arnaldo Antunes / Antônio Pinto)

Criança não trabalha

Lápis, caderno, chiclete, peão,
Sol, bicicleta, skate, calção,
Esconderijo, avião, correria,
Tambor, gritaria, jardim, confusão.

Bola, pelúcia, merenda, crayon,
Banho de rio, banho de mar,
Pula sela, bombom.
Tanque de areia, gnomo, sereia,
Pirata, baleia, manteiga no pão.

Giz, merthiolate, band aid, sabão,
Tênis, cadarço, almofada, colchão,
Quebra-cabeça, boneca, peteca,
Botão, pega-pega, papel, papelão.

Criança não trabalha,
Criança dá trabalho.
Criança não trabalha.

1, 2, feijão com arroz.
3, 4, feijão no prato.
5, 6, tudo outra vez.

(Arnaldo Antunes / Paulo Tatit)

Paula Pina

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