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“Um livro”, de Hervé Tullet

Carrega, clica,… vira, esfrega suavemente com o dedo, clica cinco vezes, sacode, inclina… Não, não é um iPhone, não é um iPad, não é um Kindle, não é um Wii. Não, não é mais uma daquelas obras “interativas”, “cognitivas”, mensuradas e testadas por especialistas em desenvolvimento infantil, com botões e buzinas, sons e vozinhas, pop-ups e cortinas. É… “Um livro”, mais uma obra-prima de Hervé Tullet.

Desenganem-se todos aqueles a quem se explicou que os livros se leem com os olhos, em movimentos da esquerda para a direita e de cima para baixo, silenciosa e reverentemente, folheando dignamente cada página (se possível com o mínimo de dedos, de preferência não gordurosos). Desenganem-se aqueles que acham que os livros têm de ter lindas histórias e primorosas moralidades, para serem lidas em voz alta (habitualmente oscilando entre monocórdica e estridente), entre bocejos e suspiros, acerca das quais se irá elaborar a inevitável “fichazinha”, ou, na melhor das hipóteses, o “reconto”, para assim os meninos se tornarem bem comportados, bons estudantes e respeitosos futuros cidadãos.

 

Aqui toca-se na página e temos um “ecrã”, e em cada círculo um “botão”. Instrução, gesto, resultado. Em leitura partilhada, lado a lado, adulto e crias, ora lendo, ora obedecendo às instruções do texto, deixando-se fascinar, rindo com o resultado surpresa na página seguinte. Não temos só verbos imperativos, temos também advérbios, exclamações de incentivo e aplauso, pedidos delicados e ordens diretas. Nestas linhas de texto-legenda-ordem, tecem-se também comentários em que o narrador/autor que faz as propostas, apesar de dirigidas ao leitor, não se distancia, pelo contrário, parece partilhar genuinamente do prazer de estar a manipular o livro, em jogo de descoberta, connosco.

 

Pois este é sobretudo “Um livro” de partilha e redescoberta do prazer de descobrir o prazer de ler com o corpo todo. Soprando, sacudindo, carregando com força, esfregando suavemente, inclinando, batendo palmas, endireitando… Nunca os círculos mais básicos se tornaram tão divertidos. Pintados a amarelo, azul e vermelho, em fundo branco ou negro (quem apagou a luz?) são círculos planos, bidimensionais, mas são também tridimensionais, escorregando como berlindes, crescendo como balões.

 

Todo o conceito tradicional de interatividade é aqui serena, inteligente e magicamente desmontado. Um livro não precisa de botões para ser estimulante e interativo, não precisa de ter uma história para ser interessante, não precisa de moralidade ou do selo do didatismo para promover aprendizagens. Basta-nos a imaginação nesta dialética de faz de conta, entre gesto obediente à instrução e a consequência inesperada.

 

Gostamos de tecnologia e touch screens. Mas o que adoramos mesmo é… “Um livro”. Voltamos ao princípio? Carrega, clica, vira…

 

 

livro “Um livro”, de Hervé Tullet

Edicare, 2010

[a partir dos 2 anos]

 

Paula Pina

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