“É um livro”, de Lane Smith

VX-909 entrou no espaço virtual de transmissão de conhecimentos. Trazia um recetáculo de metal e acrílico nas suas mãos mecânicas. Pousou a caixa e retirou do seu interior um pequeno objeto, retangular, de aspeto frágil, que ficou a pairar no ar durante alguns segundos:

– Quem sabe o que é isto? – perguntou VX-909.

Vários flashes dispararam quase em simultâneo, oriundos de diversas zonas semi-iluminadas do compartimento. Ouviu-se então o som de uma voz humana, masculina, jovem:

– Eu! Eu sei.

– Muito bem! Foi bastante mais rápido do que da última vez, TCW-87650. Gastou apenas três segundos e 14 milésimos. Vou ampliá-lo. Estamos com interferências. Que me sabe dizer?

– Bom, este objeto parece-me um conjunto de folhas de papel impressas, cosidas de um dos lados, e cobertas por uma capa de material rijo… E descobri uma sequência.

– Bem observado. E alguém sabe para que serve?

Uma rapariguinha loira entrou no compartimento com um ligeiro zumbido. A sua imagem oscilava ligeiramente, provavelmente devido a uma transmissão deficiente, mas isso não parecia perturbá-la minimamente. Parecia segura de si. O seu olho direito estava coberto por um mecanismo articulado, de que se servia como um braço extra. A rapariga rodou o pescoço e desviou o olhar de um único olho para um dos ecrãs do seu lado direito. Carregou rapidamente em alguns símbolos e respondeu:

– É claramente um objeto utilizado para uma atividade humana. Aparentemente, e segundo os registos mais antigos que descobri, terá sido criado por um tal Gutenberg no século XV e prevaleceu até meados do século XXI. Consegui recuperar alguns ficheiros de imagens com objetos idênticos… Os seus últimos utilizadores terão sido pais de crianças que usavam estes objetos como facilitadores da passagem do estado de vigília ao sono.

– Chama-se livro. – interrompeu-a TCW-87650, com voz vitoriosa – É um livro!…

(…)

 

 
É ficção. Nossa. Mas poderia não ser. Mas poderá não o ser. E dentro de muito pouco tempo.

 

Nas últimas décadas tornaram-se óbvias as mudanças nos processos tradicionais de circulação de livros, graças à internet e ao ciberespaço. Temos amigos das velhinhas feiras do livro que transportam agora leitores de e-books com ecrãs de tecnologias avançadas, em ostentosa demonstração dos resultados da concorrência entre livro digital e livro impresso. Prevê-se, inclusivamente, que em 2018 as vendas de conteúdos digitais sejam superiores às dos conteúdos impressos, pois os leitores de e-books são já dezenas de milhões. E, em tantos milhões, incluem-se muitos milhões de amantes incondicionais da leitura e do livro tradicional. Dentro de muito pouco tempo, as mais importantes obras no domínio público estarão serenamente disponíveis na internet, ao alcance de um qualquer computador, telemóvel ou iPhone. O suporte impresso em cheiroso papel deixou de ser sinónimo de cultura e de tempo. Por isso, para entendermos melhor o futuro do livro, teremos de ser capazes de o relacionar com os suportes digitais e meios de comunicação, com a fragmentação discursiva das novas gerações e seus processos cognitivos e neurológicos em reestruturação, com os novíssimos hábitos de leitura (com ou sem Plano Nacional de Leitura). As vantagens palpáveis, sensoriais, testemunhais e amorosas do livro impresso são igualmente as suas fragilidades. Custos ecológicos, problemas de armazenamento, distribuição e venda, interesses de editores e autores, tornam o livro vulnerável. E daí, talvez não.

 

“É um livro” é uma bem humorada fábula de Lane Smith sobre esta suposta rivalidade entre livro impresso e livro digital. “Um dia acordei e percebi que o mundo tinha mudado”, afirma Lane Smith, de 51 anos, ilustrador e autor premiado de livros para crianças.

 

Um burro, de computador ao colo, nunca viu um livro: “O que é que tens aí?”, pergunta ele ao macaco, leitor de livro na mão, “Onde tens o rato?”, “O livro envia mensagens?” “E tuíta?”, “Tem wi-fi?”. As respostas pacientemente repetitivas do macaco e a sua disponibilidade resmungona, acabam por deixar o burro literal e irremediavelmente apaixonado por esse novo objeto. E há paixões que duram para sempre. Desde que haja autores talentosos e leitores dedicados. Nós conhecemos alguns. E vocês?

 

 

livro “É um livro”, de Lane Smith
Presença, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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