“Isto é…”, de M. Sasek

Lembram-se da vossa primeira grande viagem? Lembram-se daquela sensação de deslumbramento misturado com um nervoso miudinho, que vos acelerava ligeiramente o coração e acentuava o discreto bater de asas de borboleta nas paredes do estômago? Lembram-se da primeira vez que percorreram a plataforma de uma gare internacional? E da primeira vez que estenderam o vosso passaporte de avião, novinho em folha, a um funcionário ensonado da alfândega do aeroporto? Quem guarda ainda o primeiro bilhete de metro de uma grande cidade?

Nascido em Praga em 1916, e falecido na Suíça em 1980, Miroslav Sasek é o autor e ilustrador premiado da série “Isto é…”, em que regista as suas impressões sobre algumas cidades, regiões e países do mundo. O sucesso obtido com o primeiro volume da série, “Isto é Paris”, publicado em 1959, leva o autor a encetar um percurso que resultará na edição de diversos outros livros: Londres, Roma, Nova Iorque, Veneza, Edimburgo, Israel, São Francisco, Hong Kong, Grécia, Bretanha, Irlanda, Austrália, Cabo Kennedy, Washington D.C. ou Munique.

 

 

Sobre a criação de alguns destes livros, o autor recorda (em “Books are by people – Interviews with 104 authors and illustrators of books for young people”, de Lee Bennett Hopkins, Citation Press, 1969): “Hong Kong foi um livro muito difícil de fazer por causa do problema da língua. Demorei horas e horas a desenhar os carateres do alfabeto. Tentei usar a máquina fotográfica, mas não resultou. Ás vezes apetecia-me gritar! Três vezes, dez vezes, doze vezes, levei eu até conseguir aperfeiçoar uma só imagem!” (…) “Para fazer ‘Isto é Texas’ tive de viajar 3000 milhas de autocarro para ver tudo o que precisava de ver! E quando fiz ‘Isto é Israel’ (1962), as pessoas riam-se durante horas do modo como eu pintava os sinais. Elas não conseguiam perceber como é que eu desenhava da esquerda para a direita quando elas liam e escreviam as letras da direita para a esquerda!”. Traduzidos em muitas línguas, a editora Civilização publicou há pouco tempo estes quatro volumes e promete-nos mais alguns vertidos para a língua portuguesa no decurso do próximo ano.

 

 

Afirma ainda Sasek: “O pormenor é muito importante para as crianças. Se eu pinto 53 janelas em vez de 54 num edifício, recebo logo uma avalancha de cartas. As crianças de hoje sabem tudo – o mundo é muito mais pequeno. Eu recordo-me de regressar a minha casa, em Munique, depois de terminar ‘Isto é Cabo Kennedy’ (1964). O meu filho olhou para os meus livros de esboços e, sem uma única palavra minha, começou logo a dizer ‘isto é o foguetão Apolo e esta é a rampa de lançamento e isto é…’. Eu não conseguia acreditar! Às vezes nem acredito no que sabem as crianças hoje em dia. Quando eu era novo, ninguém viajava. E é por isto que o mais simples detalhe é tão importante.”

 

 
Bilhetes, recibos, convites, excertos de guias, folhetos, selos, postais, sinais de trânsito, símbolos, cores, trajes, fotografias e retratos pintados de curiosidades, hábitos, rituais, pormenores, bizarrias que tornam cada cidade única, cada país especial, é isso tudo que encontramos nos livros de Miroslav Sasek. As cidades e os países, os seus monumentos, os seus habitantes (humanos e animais!), são pintados ao ritmo de um diário com impressões detalhadas de viagem, no passo infantil de quem vem para desvendar o máximo no mínimo que cada esquina, que cada recanto tem para oferecer.

 

 
“Isto é”, “aqui está”, “este é”, os deíticos de Sasek, tão típicos da linguagem infantil, cumprem aqui também uma função outra, para além da enumeração ou conexão frásica: colam-nos à imagem, nós, leitores, juntamente com o “tu” informal que o narrador usa para se nos dirigir. Sem a preocupação extenuante de ser pedagógico, sem arrastar o lastro de ser informativo, sem o vazio lúdico do humor emprestado, o olhar é sempre o de quem vem visitar para descobrir, o olhar de quem regressa diferente.

Sobre a génese da obra, pensada depois de umas férias em Paris, diz-nos Sasek: “Originalmente, queria fazer uma série de três livros: Paris, Roma e Londres. Nunca pensei que pudesse continuar para além disso.” Nós desejávamos que tivesse continuado e continuado e continuado… Quem precisa de guias de viagem? Nós levamos os exemplares da obra de Sasek.

 
livros “Isto é Paris”, “Isto é Roma”, “Isto é Londres” e “Isto é Nova Iorque”,  de M. Sasek

todos Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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