“Kinderszenen”, de Robert Schumann

Nasceu no dia 8 de julho. Compositor, amante das grandes formas e miniaturista. Pianista e leitor ávido, apaixonado, solitário. A reputação de Robert Schumann (1810-1856) como pioneiro na música de câmara e a sua profundíssima ligação à literatura é visível, por exemplo, nos seus lieder escritos a partir de poemas de Heine.

Jorge de Sena, na “Arte da música” (1968), escreveu:

 
Ouvindo poemas de Heine como “lieder” de Schuman

Nunca talvez tão grande poesia encontrou sua grande música
assim. Outros poemas grandes foram musicados para o canto,
e de outros não tão grandes se fizeram canções magníficas.
Mas raro assim aconteceu que a palavra fosse dita em música
como a pensada música que nela havia para lá dos sons da linguagem,
na amargura do sentido que do riso ganha uma doçura triste
que é delicada reticência em que as palavras soam
como a própria vida quando se desfaz em perdido sonho.
Não mais refinadamente se gritaram as maiores das mágoas,
sem nenhum grito, sem olhos pelo espaço, e o pranto
feito o som de um piano que acompanha a voz
impetuosa ou pensativa, mas que não chora
e apenas disserta musicalmente sobre as dores do poeta.
São pequeninos dramas líricos. Mas pouco drama em música
jamais teve esta concentrada solidão, tão severa e nua,
sem cenário e sem orquestra, e sem personagens sequer:
a vida inteira numa voz e num piano, que
são a poesia funda que não disse o homem
que brincou perseguido, exilado e traído,
com tudo o que perdia mas na voz ganhava.

27/4/1964

 
São treze e pequeninas as “cenas infantis” – “Kinderszenen”, op.15 (1838) – que Robert Schumann compôs. Ao contrário de outras peças para piano, como a coleção “Album für die jugend” (ou seja, “álbum para a juventude”), op. 68, não foram pensadas para serem tocadas por crianças. Na realidade, o próprio compositor terá afirmado que os títulos sugestivos que atribuiu posteriormente a cada uma das peças, ou, se quisermos, andamentos ou secções, deveriam funcionar sobretudo como indicações interpretativas, já que seria sua intenção expressar musicalmente “memórias de infância”.

Recordemos também Alban Berg e a sua análise extraordinária de “Träumerei”, uma das mais famosas “Kinderszenen”, com os seus fraseados assimétricos e surpresas harmónicas. E o “Träumerei” (“sonho”) de Vladimir Horowitz:

Simples? Básico? Infantil?

Veja-se o opus 1, “Vom fremden ländern und menschen” (“sobre terras e povos distantes”), por exemplo.

 

 

A peça, em forma ABA, é construída com base em duas frases contrastantes. Na primeira frase, nos dois primeiros compassos, a voz superior canta, em legato, o motivo principal. As tercinas, no alto, criam um contraste rítmico interessante. Uma sétima diminuta secundária é utilizada para preparar o acorde da dominante no segundo compasso. Os dois primeiros compassos são depois repetidos nos compassos 3 e 4. Uma variação dos compassos iniciais, seguida de mais dois compassos, terminam a frase com uma cadência imperfeita.

A segunda frase tem apenas seis compassos. O motivo principal passa agora para a voz grave. Um ciclo de quintas conduz-nos a mi menor nos compassos 9 a 12, mas não se mantém aí, já que a dominante é resolvida num acorde de sol maior no compasso 12. E voltamos seguidamente à secção A.

Enganadoramente simples, certo? Por outro lado, do ponto de vista performativo, só uma abordagem muito sistemática e estruturada camada a camada, voz a voz, desmontando e voltando a montar, permitirá ao pianista dominar a peça. É imprescindível fazer um mapeamento cuidadoso das vozes, isolando a melodia, no soprano da mão direita, associando-a à voz cantada em legato; depois, a atenção que é necessário dar à dedilhação, de modo a assegurar a fluidez entre soprano e alto, evitando força excessiva nos polegares e, ainda, o uso discreto do pedal, deitam definitivamente por terra qualquer tentativa de catalogação rápida destas peças como “infantis”. Ser “infantil” não é ser “fácil”, não é ser “simples”. Que o digam as crianças. Schumann já o fez, compondo “grandes” estas “pequenas” “cenas”.

 

Paula Pina

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