Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 4)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Tem segredos ou técnicas especiais no seu método de trabalho que nos possam ajudar a desenhar melhor?

Marta Madureira: Cada um tem uma forma particular de desenhar. O que torna esse desenho especial é o facto de explorarmos, dentro do nosso registo, uma solução original. Por exemplo, há muita gente a trabalhar com papel, mas ninguém a desenhar com papel como a Yulia Brodskaya. Embora utilize um material comum, percebe-se uma expressão pessoal conseguida pelo conhecimento das caraterísticas físicas do papel, a fim de tirar o máximo partido do mesmo. E o resultado final é um trabalho autoral. Quer isto dizer que, na minha opinião, o desenho passa pela destreza técnica mas também, em grande parte, pela forma como cada qual explora o material. Até porque, no trabalho de ilustração, tão importante como um desenho bem executado são a composição, as formas, os pesos visuais, a ideia, etc. Existem desenhos muito bons tecnicamente que não são boas ilustrações. E há excelentes ilustrações que têm abordagens ao desenho menos convencionais, como é o caso do trabalho de Christian Voltz, que desenha com objectos e arame. Mas o contrário também acontece, ilustrações com abordagens mais tradicionais ao desenho, como são os trabalhos da Lisbeth Zwerger e da Joanna Concejo (em duas gerações distintas), onde a destreza técnica e o uso de figuras mais realistas em nada direciona para uma ilustração literal. Bem pelo contrário, são histórias muito bem contadas, tal é a destreza das autoras para a construção de imagens simbólicas.

Independentemente do tipo de desenho, importa adequar a técnica ao conteúdo a ilustrar. A escolha do material deve ter em conta o tema. Quando assim acontece, o resultado sai fortalecido. Como é o caso, por exemplo, da ilustração “Boxer” de Herr Mueller, onde o uso do material amassado sugere uma sensação mais real.

Mas respondendo de forma mais objetiva à pergunta, no meu caso em concreto, não tenho segredos bem guardados. O desenho vem da experiência e da perícia com que se manipulam os materiais. No primeiro post referi que por desenho entendo tudo aquilo que é passível de registo. Dentro da minha linguagem plástica, que passa em grande parte pelo desenho de tesoura, tento sempre encontrar formas diferentes de desenhar, numa procura contínua de materiais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina” (Trinta Por Uma Linha, 2010)

 

Marta Madureira: Esta ilustração pertence ao livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina”. Foi um trabalho que me deu prazer em muitos sentidos. Porque me juntou pela segunda vez (e assim fortaleceu a minha relação) com a autora do texto, a Adélia Carvalho. Porque é uma homenagem sentida à Matilde Rosa Araújo, escritora da minha infância, que graças a este livro reencontrei, na pessoa e nas personagens que voltei a ler. E porque, enquanto trabalho de ilustração, me permitiu experimentar sem limites. Uma experimentação proporcional às sensações que me chegavam do texto. Tentem lá encontrar: este livro é feito de tangerinas da terra dos meus avós, cascas e sumo de laranja; tem flores frescas e flores secas; tem café em forma de terra; tem tinta nos dedos; tem água, azeite e vinagre numa nuvem e numa onda; e tem arroz no meio das árvores. Ainda hoje lhes sinto o cheiro.

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