Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 5)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Como é que faz para se lembrar de coisas que ainda não existem? Como é que trabalha a imaginação?

Marta Madureira: A definição de ilustração é ainda hoje pouco esclarecida, porque ao longo dos tempos foi tendo diferentes funções. Num primeiro estado, a ilustração cumpria a função de cópia do real. O aparecimento da fotografia, que oferece de forma mais eficaz o que a primeira tentava fazer até aí, proporciona à ilustração novas perspetivas, direcionando-a para abordagens menos realistas e progressivamente simbólicas. A ilustração distingue-se de outras manifestações visuais pelo facto de estar associada à interpretação de um tema, na maior parte dos casos, de um texto. Essa relação com o texto, mais do que física é semântica: a ilustração descodifica o texto através de artefactos visuais, mas, mais do que isso, redimensiona-o. Assim, a prática da ilustração não é a mera transposição do texto para um suporte imagético, mas uma forma de tradução do mesmo. A ilustração, como eu a entendo, parte do real, mas trabalha sobretudo com o irreal. Acho até que é esse o ponto essencial que me faz gostar tanto de ilustrar. Enquanto professora (dou aulas de ilustração a alunos de licenciatura e mestrado no IPCA – Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), o maior desafio das primeiras aulas é fazer com que os alunos percebam a ilustração como uma libertação visual e não como submissão ao que já existe. É tentar estimulá-los para a vasta possibilidade de criarmos o nosso próprio imaginário. E a experiência diz-me que só quando um aluno entende esta perspetiva é que começa a gostar, a empenhar-se e a descobrir a verdadeira expressividade da ilustração.

A imaginação existe em cada um de nós de forma muito particular. Mas torna-se mais visível quando estimulada pelo trabalho, pelo esforço que fazemos em entrar no universo para o qual estamos a ilustrar. É preciso entranhar esse envolvente ao ponto de começarmos a falar a mesma linguagem e nos deixarmos contaminar. No meu processo de trabalho há uma espécie de sinergia entre o que o texto me dá e a forma como lhe respondo. Essa resposta é dada segundo o meu ponto de vista, que surge, exatamente, da minha imaginação, da forma particular como penso e descodifico as coisas. É nessa minha conversa com o texto que vou ao mais fundo de mim encontrar as respostas. O segredo está em não reprimir essa lufada de imaginação e resistirmos às vias mais fáceis, que são as ideias pré-concebidas. Há ainda uma grande vantagem: neste imaginário, quem manda sou eu. Uma perna pode ser maior do que a outra, os braços podem arrastar pelo chão, um olho pode ser quadrado e a cabeça ter o tamanho de um alfinete. Por que não? Quem proíbe?

Não posso deixar de referir uma das minhas autoras favoritas, a Sara Fanelli, mestre nesta arte de transformar o mundo, por imagens, num imaginário singular.

 


ilustração originalmente concebida para a série de animação “As máquinas de Maria” (Pedro e o Gato, 2008)

 

Marta Madureira: Este projeto, “As máquinas de Maria” é um objeto de animação que começou por ser uma ilustração. Depois, evoluiu para uma curta metragem de animação e posteriormente, no seu formato atual, é uma série de animação infantil, para televisão, com 26 episódios (um projeto conjunto com o meu bom amigo e colega Pedro Mota Teixeira). Esta série de animação conta o dia a dia da Maria, uma menina que tem como passatempo preferido inventar máquinas para resolver os problemas mais simples que a rodeiam. Em torno deste conceito, fui criando um imaginário correspondente, alicerçado nas características psicológicas da personagem principal e na sua obsessão pelas máquinas. A própria Maria é o reflexo físico dos seus traços psicológicos: os olhos são roldanas e as articulações do corpo são feitas com parafusos. Esta estética estende-se ao resto das personagens, como é o caso do Tex, o cão, onde as patas são substituídas por rodinhas. Ele próprio pode ser visto como uma das invenções da Maria. É a partir deste imaginário que surgem a “máquina de afastar nuvens”, a “máquina de envelhecer sapatos”, a “máquina centopeia”, a “máquina de fazer crescer” e “a máquina de viajar sem sair do sítio”, entre outras.

Este projeto tem ainda a característica de os textos (argumentos) terem sido escritos por mim, o que faz com que muitas vezes a imagem e o texto surjam em simultâneo. Creio que é um dos meus maiores exercícios de imaginação, talvez porque seja o que dura há mais tempo (é um projeto que existe desde 2008) e essa continuidade permite-me uma intimidade reforçada e sedimentada com o objeto. Cada vez que tenho que trabalhar em mais um episódio, bato à porta:

– Ora se faz favor, menina Maria, vou entrar!

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