Alexander Calder

Os olhos do bebé movimentam-se, seguindo as formas coloridas suspensas, que se agitam em leves desordens de brisa, tranquilamente, brincando com reflexos e sombras. Magia, decerto. Engenharia, sem dúvida. Uma agitação de pernas e braços e o berço mexe-se, as formas suspensas reagem, interagem. Peso e leveza equilibram-se, mistério e vibração.

Os mobiles e stabiles inspirados na obra de Alexander Calder, cujos princípios nos deslumbram e estimulam visualmente o pequenito deitado no berço, são exemplos de experiências de sucesso na dinamização da plástica. O equilíbrio, base do seu trabalho criativo, é, ao mesmo tempo, estático e dinâmico. Estruturas e corpos de metal, de madeira, de plástico, lâminas e arames grosseiros, bizarras engenhocas, surgem, animados, literalmente, ganhando vida, vitalidade, alma.

 

 

Filho de pai escultor e mãe pintora, o americano Alexander Calder (que nasceu há 113 anos, a 22 de julho de 1898, e viria a falecer no dia 11 de dezembro de 1976), cresceu rodeado de obras de arte, teve o seu próprio estúdio desde criança, onde construía os seus brinquedos, e tornou-se engenheiro: “Acho que esta era a única profissão da qual tinha ouvido falar, para além da profissão de ‘artista’, claro, e eu gosto de mecânica”, escreveria Calder mais tarde. Por exemplo, a prenda que o pequeno Alexander ofereceu aos pais no Natal de 1909 foi um cão e um pato moldados em folha de metal. O pato movimentava-se, diligente, balançando para a frente e para trás quando empurrado. Por outro lado, os seus registos académicos revelam-no um estudante brilhante em desenho mecânico, geometria descritiva, práticas laboratoriais de engenharia mecânica, e cinética aplicada.

 

 

Física e cinética, hidráulica e mecânica, dominaram a formação inicial de Calder. Aliás, uma amiga, Elizabeth Hawes, afirmou, em 1928: “Calder teve de passar muito tempo a descobrir que não era um engenheiro”. Trabalhou como engenheiro hidráulico, mecânico de automóveis, vigilante, e bombeiro na sala da caldeira de um navio. E foi durante esta viagem, ao largo da costa da Guatemala, a bordo de um navio de passageiros que fazia a ligação entre Nova Iorque e São Francisco via Canal do Panamá, numa manhã de mar calmo, que Calder viu o princípio de um “nascer do sol vibrante de um lado e, do outro, a lua, parecendo uma moeda de prata”. “Sempre senti que não havia melhor modelo para mim do que o Universo”, escreveu Calder em 1951, no Museum of Modern Art Bulletin.

 

 

Calder foi capaz de combinar, numa visão artística original, os conhecimentos como engenheiro com os dotes de criador, aliando uma formação para as artes precoce e familiar, com a sua curiosidade acerca da vanguarda cultural do seu tempo. Um dos seus trabalhos mais famosos, exposto em 1927 em Paris, no Salão dos Humoristas, foi o “Cirque Calder”, um circo miniatura desmontável, com bonecos animados, artistas, animais, e objetos, feitos de arame, pele, tecido e outros materiais de desperdício, pensado para ser manipulado pelo próprio artista nas suas digressões performativas.

 

 

Os interesses alargados levam-no a criar joias, mobiles para arquitetura, esculturas ao ar livre, cenários para teatro e bailado (para Martha Graham e Eric Satie, por exemplo), personagens de estuque, pinturas esquemáticas. Os contactos com o meio artístico parisiense, em particular com Marcel Duchamp, Joan Miró, Fernand Léger e Piet Mondrian, serão decisivos. “Um choque, que fez despoletar as coisas”, para usar as palavras de Calder, foi uma visita ao ateliê de Piet Mondrian, mais especificamente, a visão de uma imensa parede branca, coberta de retângulos de cartão colorido, que Mondrian usava para estudar as suas composições.

 

 

No âmbito da arte cinética, redimensionada por Calder, continuam a surgir trabalhos maravilhosos, que nos interessam muitíssimo porque conferem seriedade estética a investigações neuroestéticas e psicocognitivistas, e aos estudos sobre perceção dinâmica infantil, aos quais se juntam elementos tecnológicos.

 

 

E voltamos ao mobile suspenso sobre o berço. Pura delícia visual. Cálculo. Intuição. Metafísica. Descrição analítica. Imagética cósmica. Domínio dos princípios da física. Variação, vetor, forma, densidade, espaço, temperatura, volume, ângulo, massa, movimento, tempo, reação, toque, direção, velocidade, aceleração, energia, tamanho, cor, pintura,… Diálogo vivo com o ambiente, reagindo, interagindo, meio matéria, meio vida, mecânica e humanamente. Perpétuo recomeço.

 

Paula Pina

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