“A crocodila mandona” e “O país das pessoas de pernas para o ar”, da Tcharan

 

Dois livros inauguram uma nova editora, a Tcharan, da ilustradora Marta Madureira e da escritora Adélia Carvalho. “A crocodila mandona”, primeiro trabalho da dupla neste contexto (depois de se terem cruzado no “Livro dos medos”, publicado pela Trampolim em 2009), mereceu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração 2010, da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas. Percebe-se por que razão. O texto em verso encaixa-se no âmbito das lengalengas e histórias acumulativas rimadas, típicas do universo popular de tradição oral, ou, se quisermos, pode ser uma espécie de jogo atualizado do “Bom barqueiro” (“Linda falua”, para outros), em que a teatralidade dos diálogos curtos e incisivos entre as diversas personagens que vão surgindo ecoam outras histórias, como “O coelhinho branco e a formiga rabiga”, por exemplo. Se este texto, enquanto reescrita da tradição, funciona como exercício de memorização ou jogo de expressão dramática, oferece-se, nas páginas finais, também como proposta didática, convidando à criação de novas personagens e novas rimas, nas modalidades escrita e desenho.

Quanto a “O país das pessoas de pernas para o ar”, é uma reedição de um texto de 1973, de um autor consagrado, Manuel António Pina. É delicioso reler este Manuel António Pina, que aqui, descarado, nos alimenta com colheradas cheias de doce humor, roçando o nonsense, brincando com as palavras, com as personificações, com as escolhas dos nomes das personagens, com o excesso de copulativas, com as repetições, com as frases, em sintáticos desarranjos, construindo “childlike styled narratives”.

 

“Uma vez a Sara tinha um passarinho. O passarinho chamava-se Fausto. Era branco e amarelo e chamava-se Fausto. O nome dele era Fausto.”

 

São quatro as histórias: “O país das pessoas de pernas para o ar”, a primeira, seguindo-se “A vida de um peixinho vermelho”. Depois, duas pequenas narrativas tendo o menino Jesus como protagonista: “O menino Jesus não quer ser Deus” e “O bolo do Menino Jesus”. Quem conhece as histórias que as crianças inventam e escrevem, não consegue evitar um sorriso. E, pensando no que se escrevia e se publicava para crianças no início dos anos 70, compreendem-se melhor as ousadias de Manuel António Pina:

 

“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:

– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.

Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste.”

 

Ousadias também as da ilustradora, que recorrendo a técnicas mistas nos surpreende com o seu sentido de equilíbrio gráfico entre texto e imagem, nos encanta com o cuidado nos detalhes, com a subtileza do seu humor e plena compreensão do texto.

Uma entrada “tcharan!” para a Tcharan.

 

livro “A crocodila mandona”, de Adélia Carvalho com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2010

[a partir dos 4 anos]

 

 

livro “O país das pessoas de pernas para o ar”, de Manuel António Pina com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2011

[a partir dos 5 anos]

 

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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