Filoclora, Criatura #002

Vivo em recantos de jardins, em pátios abandonados, em quintais desalinhados, em pracetas esquecidas pelos (vossos) senhores vereadores. Muitas vezes, precisamente porque há por aí muita gente (da vossa) que pensa que os jardins onde crescem ervas e arbustos em selvagem liberdade não merecem respeito, atiram para cima de mim toda a espécie de lixo. Por isso, sou obrigada a usar um chapéu. Na verdade, é um chapéu-estufa, que me protege e mantém regular a temperatura das ervas maravilhosas que crescem na minha cabeça, na minha cabelerva.


Já me criticaram pelo “naperon ridículo” que me ornamenta os lábios. Passo a explicar: a minha boca absorve tudo o que é inútil, tudo o que se deita fora. Por isso, é mais do que uma simples boca: é um verdadeiro sistema de limpeza. Não é maquilhagem, não é decoração, não é adereço. É um filtro. Tudo o que entra em mim transforma-se, e volta a sair, reciclado, em arbustos e erva, em oxigénio e vento. Aliás, uma das grandes vantagens da minha existência é a possibilidade de me incorporarem no vosso sistema diário de limpeza pessoal de maus sentimentos, de palavras feias, de atos desagradáveis.

Tenho também dois olhos-copo, com os quais vejo (na verdade, vejo sempre tudo), mas que utilizo sobretudo para fazer a recolha de água, ou melhor, daquela água que ninguém mais quer: das frescas gotas de orvalho matinal às gotículas de suor por cima do lábio superior dos meninos que jogam à bola, dos salpicos de lama dos automóveis aos esguichos dos repuxos mal direcionados, das pingas que escorrem das penas das asas dos passarinhos que se banham nas poças do passeio, às lágrimas da senhora idosa que viu partir a neta para o estrangeiro.

Perguntam-me muitas vezes por que é que tenho um olho negro. Na verdade, isso só significa que quem olha para mim não me olha realmente. Se repararem, à noite, quando está frio, quando o céu está escuro, aterrorizado de tempestades, quando acontecem coisas tristes ou coisas que não entendemos, quando alguém fica magoado, quando só vos apetece ficar encolhidos, sossegados, escondidos num buraco, o meu olho direito escurece logo. Pelo contrário, quando o sol brilha e pelo ar passam aragens repentinas e mágicas, e tudo se movimenta, quando esvoaçam aves e crianças, quando as nuvens passam ligeiras buscando outras nuvens ao longe, quando as pessoas assobiam e cheira a pão quentinho, quando o menino e o avô param para ver um carreiro de formigas, o meu olho direito ilumina-se. E em cada um dos meus olhos está o seu oposto, ciclicamente, branco e negro.

Sou rápida, voo para todo o lado, e em todo o lado fico bem. Podem chamar-me sempre que ficarem com o coração nas mãos, quando vos cair o coração aos pés, quando tiverem de fazer das tripas coração. Posso abanar-vos com o meu coração de leque, limpar-vos do susto ou desgosto, fazer-vos uma tisana reconfortante com as ervas que trago na cabeça. Peço-vos que me chamem, de preferência, antes de ficarem com um coração duro como pedra. Outra coisa muito importante: quem vê a minha cara, verá o meu coração.

O quê? Como? Ah, estão agora a dizer-me que há muitas pessoas que não sabem o meu nome… Sou uma filoclorokapelecefalo-hidrocriotermotaquinanofagoscópia, mas podem tratar-me por Filoclora.

 

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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