Monthly Archives: August 2011

Tubantropo, Criatura #003

– Chega-te para lá, por favor.
– Hum!?
– Eu disse para te chegares para lá!
– Hã?
– Afasta-te, já disse!
– Não posso.
– Preciso de ar, de muito ar. Sou um Tubantropo, ou não?
– Sim, mas não posso.
– Não podes? Não podes como?
– Não posso, não podendo. Não vês?
– Não vejo o quê?
– Não tenho espaço.
– Claro que tens espaço. Não tens é vontade!
– E tu tens é vontades a mais…

(…)

 

 

– A tua barriga está a fazer barulhos esquisitos.
– Não ouço nada.
– Também não cheiras lá muito bem.
– És tu que me alimentas, não és? Então, és tu o responsável.
– Não tenho culpa que tenhas problemas de digestão.
– A minha digestão está ótima. Em compensação, estou com imenso calor. Chega-te para lá.
– Ah, agora és tu!
– Sou eu o quê?
– Quem precisa de espaço.
– Não preciso de espaço. Tenho calor. Está calor aqui dentro.
– Se tens calor, é porque precisas de espaço.
– Não. Posso ter calor e não precisar de espaço.
– Claro que precisas.
– Claro que não. Tenho calor porque é verão e está calor.
– Tens calor porque precisas de espaço! Fazes-me calor!
– Não.
– Sim.
– Não!
– Sim!
– NÃO!
– SIM!
Etc.

(duas horas depois…)
– Tenho calor…
– …
– Tenho mesmo muito calor…
– …
– Ai, ai… (suspiro)
– Tmbmmmmmrrllloorr…
– O que é que disseste?
– Tmbmtenhclllrrorr…
– O quê? Não percebo!
– EU DISSE: “TAM-BÉM TE-NHO CA-LOR!”
– Hã?
– “Hã” o quê? Estou com calor, pronto.
(silêncio)
– Queres que te abane?
– Não! Não sei. Bem…talvez só um bocadinho.
– …
– Melhor?
– Sim. E tu?
– Okay.
– Okay.
– Okay.

 

 

Paula Pina, com ilustração de Cesária Martins

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 11)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Considera ser mais difícil desenhar para crianças ou para adultos? Ou desenha sobretudo para si própria? Que conselho daria a uma criança que se lhe dirigisse exprimindo o desejo de se tornar ilustradora?

Marta Madureira: Para mim é mais difícil ilustrar para adultos. Penso que o meu estilo gráfico se enquadra num imaginário mais próximo do infantil, pela expressão do desenho, pelas formas, pelas cores e pelas ideias que sugiro. Acho que é por isso que me fui encaixando numa tendência de trabalhos mais direcionada para o público infantil. É-me mais fácil ilustrar para crianças porque firmo o meu trabalho não apenas em figuras, mas na relação que essas figuras têm umas com as outras e no significado que extraímos dessa relação. Ou seja, há sempre uma tentativa de recriar um contexto paralelo ao real. O público infantil entende melhor e mais rapidamente um mundo reproduzido do que um adulto. Dito assim parece uma ideia tirada de um livro de pedagogia barata, onde as crianças são a esperança e os adultos uns incapazes, cinzentos e sem imaginação. Não será assim. Até porque a leitura que fazemos das coisas têm o encanto de cada idade e, ainda que numa mesma faixa etária, serão heterogéneas. Mas falo da experiência que fui adquirindo, de forma intuitiva, com um e outro público. Essa experiência diz-me que a interpretação das crianças permite mais. Elas aceitam à partida um contexto irreal que lhes é dado, e de forma natural dão-lhe continuidade. Não sei porque será, mas acho que é porque estão habituadas a brincar, a fazer de conta. Os adultos estão menos abertos ao jogo e mais hesitantes em deixar a realidade. Estou, como é óbvio, a generalizar. Até porque há vários tipos de adulto, mais ou menos informados e interessados. E tudo depende, claro, dos enquadramentos.

Respondendo à segunda parte da pergunta, não desenho para mim. Desenho sempre para os outros. Encaro a ilustração como uma das muitas formas que tenho para comunicar. Receber uma reação é uma forma de completar esse ciclo de comunicação.

Em relação aos conselhos a dar, não os tenho. Sempre fui muito intuitiva neste assunto. Claro que há formas de estimular o “fazer” e o “saber ver” a ilustração. Mas isso faz parte das tarefas de qualquer pai dedicado: educar, mostrar, dar a conhecer, como formas de estimular um futuro adulto esclarecido.

 

ilustração originalmente publicada com o texto “Naked blues”, na revista Op. #9 (2002)

 

Marta Madureira: Como referi em cima, tudo depende dos enquadramentos. Há projetos para adultos muito aliciantes e permissivos, com um género de público motivado para outras interpretações. Não posso deixar de falar, com muito carinho e saudade, do projeto Op. – a revista Op. foi uma das primeiras (que me lembro) a dar espaço de destaque à ilustração. Foi, na minha opinião, um suporte que em muito contribuiu para o crescimento e consciencialização da ilustração em espaço editorial, pela forma como a imagem se integrava no texto e pela diversidade plástica que oferecia. Mais do que o uso da imagem fotográfica, os editores da Op. apostaram na ilustração e num conjunto de autores novos e inexperientes (nem todos, porque já dividíamos as páginas com os ilustres Rui Vitorino Santos, Manel Cruz, André Ruivo, Pedro Zamith e outros), oferecendo-lhe a liberdade suficiente para construírem algo de novo.

Ainda aluna do 2º ano de Belas Artes, a Op. surgiu-me como o espaço perfeito para a minha experimentação e alguma disciplina, pela necessidade de produzir periodicamente e com prazos rígidos. Enquanto escrevia este post, fui rever os números da revista que ainda guardo religiosamente. Olhando-os à distância, nem todas as minhas contribuições revelam maturidade. Mas mostram, sem dúvida, crescimento e muita inocência na forma como começava a tatear na ilustração.

Esta ilustração, para um texto do Rui Miguel Abreu, é sobre “a história de como, há 15 anos, conheci o Legendary Tiger Man, num bar à saída de New Orleans”. Recebi este texto, em 2002, quando estava a estudar em Roterdão. Quando revejo esta imagem vem-me à memória a minha obsessão dessa época por fita-cola. Longe de casa e com poucos recursos, lembro-me que usei um código de barras de uma das muitas caixas de stroopwafels que fomos acumulando lá em casa. Numa manhã de chuva, em cima da bicicleta e com a ilustração por baixo do casaco, lá me enfiei na sala do Borstlap. Digitalizei e mandei. Assim, meia despenteada, como era este texto e como eu era nessa altura.

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Obra infantil de Daniil Harms publicada pela Bruaá em setembro

 

Promete ser outro dos livros mais significativos do corrente ano, mas também mais um marco da inigualável Bruaá e da história da edição infantojuvenil em Portugal: chama-se… “Esqueci-me como se chama”… e é uma coleção de dez contos e poemas para crianças de um dos autores emblemáticos da literatura russa dos últimos 100 anos, Daniil Harms. Humor, delírio e nonsense por um dos seus expoentes máximos, num volume com ilustrações de Gonçalo Viana e tradução dos especialistas em matéria literária soviética Nina Guerra e Filipe Guerra. Agora mesmo anunciado, o livro estará disponível nas mais exigentes livrarias nacionais daqui a pouco mais de uma semana.

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“Obra uno”, de Helado Negro

Isolemos os fatores, sejamos justos: “Obra uno” vale como subtil apogeu de um álbum de elevadas intenções mas medianas concretizações (“Canta Lechuza”, da one man band Helado Negro, publicado há poucos meses na Asthmatic Kitty), mas vale eminentemente como espectral inspiração sonora para este precioso video da ilustradora americana Gala Bent (com direção de arte do seu marido Zack Bent).

 

 

Moreno Fieschi

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Uma odisseia espacial

Em 1968, um cineasta realizou um filme seminal para o infinito da ficção científica.

 

 

Motivado por isso, pouco mais de um ano depois, um músico compôs uma canção visionária para a eternidade da pop.

 

 

Alheado disso, pouco mais de uma semana depois, um astronauta deu um pulo gigante para a humanidade.

 

 

Estimulado por tudo isso, em 2011, um ilustrador criou um livro digital esplêndido para todas as crianças que gostam de se perder no espaço e no tempo.

 

 

Moreno Fieschi

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Agosto: férias, feiras, festas, festivais [2ª parte]

[ 1. ]

 

 

2.

Chegava-se de madrugada, antes do nascer do sol, que é quando a água está “benta”, para a Alvorada e “Banho santo”. No largo, uma confusão de gentes, animais, turistas e “serrenhos”, burgueses da cidade e desportistas do Futebol Clube local. Havia os Caldas de Almeida, os Vilarinho, os Vasconcelos, os Figueiredo de Mascarenhas, os Leite, os Horta Correia, os Oliva e Grade. Havia os Gregório, os Baptista, os Anselmo, os Neves, os Bento, os Figueira, os Machado Guerreiro, os Netto, os Pereira Caldas. Havia os Negrão, os Grave, os Pessanha, os Sequeira, os Palma, os Santos, os Mourinho, os Vicente, os Ventura, os Nogueira, os Domingos, os Viola, os Rosa e os Mealha. Cada grupo parecia saber exatamente qual o seu lugar. Descarregava-se a merenda. Os banhistas despiam-se com o maior recato possível e entravam na água em jejum. “Cada banho vale por nove e cura os reumatismos”. Eram sobretudo jovens, mulheres e crianças. Para o desjejum, meio copinho de aguardente de medronho e umas fatias de pão com chouriço ou uma fatia de bolo e fruta. Os mais velhos agarravam nas canas de pesca e afastavam-se, para irem “pescar ali um pexinho”. Alguns iam ajudar a varar os barcos acabados de chegar e assistir à lota. As mulheres, ou ficavam vestidas e entravam na água só até aos joelhos, perseguindo as crianças, ou usavam uns imensos fatos de banho, que as cobriam quase até aos joelhos. As mais jovens e ousadas, arriscavam um biquini, mas com uma toalha pelos ombros e um grande chapéu, sempre sob a atenta vigilância das mães. Havia lutas e mergulhos impiedosos, lábios roxos e lágrimas, mas pronto, ficávamos abençoados e livres de muitos males. De vez em quando, no meio de grande chinfrineira, arrastava-se até a um rochedo um animal, ou um pequeno rebanho de cabras e ovelhas, e os bichos eram relutantemente aspergidos com a água do mar, tirada de dentro de um balde.

Depois abriam-se os cestos e merendava-se na praia. Bebíamos “pirolitos”  (bebida gaseificada, fechada pela pressão de um berlinde, que comprávamos com orgulhosas notas de 20 escudos e cujo troco nos duraria para o resto do ano). Comíamos batata doce. Quando tínhamos sede, bebíamos à vez, por um único “cucharro” de cortiça, a água ainda fresca do cântaro. Os mais literatos partilhavam o Jornal do Algarve. Os mais artísticos, faziam esboços do Castelinho, dos chalês, dos Caldas e Vasconcelos, e do Mascarenhas Gregório. Alguns dormiam “a folga” à tarde. Toldos? Só uma vintena deles, armados de manhã pelo Sr. Bento, que lhes  mudava a inclinação à tarde, os armava na vertical nos dias de vento forte, e amorosamente os fechava ao entardecer. Proteção solar? Camadas grossas de creme Nivea, embalagem redonda e azul, e só nas zonas mais expostas.

Mais tarde, depois de lavagem ligeira obrigatória, mas muito amuada, num alguidar, mudava-se de roupa e os mais devotos iam à missa. O ponto alto era a procissão, por terra e por mar. Pelas ruas, seguíamos o andor com a Nossa Senhora, todo enfeitado de flores e chita, e folhas de palmeira, vindas dos chalés da terra. Abrindo o cortejo, três gaiatos “mascarados” de monges, como dizíamos, não sem alguma inveja, para gáudio de uns e despeito de outros. Os pescadores, com as suas embarcações engalanadas (lanchas, traineiras, canoas de vela árabe e botes de espicha), apinhadas com dezenas de famílias, seguiam-nos por mar. O percurso acabava na Fortaleza, onde o senhor prior, depois do sermão, rezava o terço. Pagavam-se promessas, com velas e azeite, e havia a quermesse, sempre muito concorrida.

O arraial começava com a atuação da banda filarmónica, num coreto montado no areal. Na feira, vendia-se de tudo: louças de barro, azulejos, pucarinhas de metal, miniaturas de casas, utensílios agrícolas, mantas e almofadas de retalhos, colchas e rendas de bilros, cestaria, roupas e joias. Cheirava a polvo assado. Comia-se: caldeirada de marisco, caracóis, sardinhas albardadas, carapaus alimados, moreia frita, papas de milho e fatias do Barrocal. Bailava-se ao som do acordeão e da concertina, das guitarras e da harmónica, eles um pouco tontos, elas muito tímidas. À medida que as crianças iam, uma a uma, tombando de sono, de novo alguém as embrulhava e acumulava numa das carroças. Só no final, o fogo de artifício, lançado do areal e dos barcos, as fazia levantar, pestanas salgadas, pesadas de sono, marcas de baba nos cantinhos dos lábios, vincos nas bochechas, penteados desfeitos. Nas suas pupilas, os reflexos das luzes multicolores subindo bem alto e desfazendo-se na noite.

Assim era, como nos lembramos, a festa em honra de Nossa Senhora, amparo dos marinheiros e pescadores, protegendo-os das tempestades, naufrágios, monstros e piratas, nos rios e no mar.

 

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 10)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Qual foi a coisa mais interessante que aprendeu com a ilustração até hoje? Com quem? Quem é o seu ilustrador favorito? Por que razão? Quem é que imita mais? Sente-se de alguma forma frustrada ou irritada com isso?

Marta Madureira: Aprendo muitas coisas. Todas são tão importantes que é impossível escolher uma. Aprendo coisas técnicas com a experimentação e coisas emocionais com a vivência. Aprendo com a ilustração mas também com as coisas externas à ilustração. Sou um conjunto de recortes do que gosto e do que não gosto, de tudo o que vejo e absorvo. Mas também aprendo, claro,  com muita gente, nomeadamente com os autores da área. Não há só um ilustrador favorito. Há, felizmente, muitos. Alguns deles já fui referindo aqui no Cria Cria. A folha é curta para a minha lista. É normal gostarmos das coisas que os outros fazem (e há tanta gente a fazer coisas boas). Mas há que ter cuidado para não deixar que esse fascínio se torne numa coisa má. A questão da imitação é perigosa. A imitação, no sentido de tentar fazer igual, não me parece nada bem. O deslumbramento que sentimos por um autor ou trabalho deve ser transformado em inspiração, num bom pretexto para querermos fazer, também, coisas únicas. Todos nós temos referências. É até muito saudável porque estarmos atualizados e vermos coisas de qualidade é uma boa maneira de aprender. Mas em todo este processo de observação de autores o que se torna importante é tentar perceber o que é que nos faz gostar de determinado trabalho. A consciencialização do que está bem feito faz-nos focar no essencial, não copiando, mas reciclando essa referência para uma linguagem nossa, nova e singular. Nem sempre é fácil. Às vezes, as coisas de que gostamos entranham-se e inconscientemente acabamos por usá-las. É preciso estar atento e ter a capacidade de o reconhecer. Esta questão é preocupante e é com alguma tristeza que vejo muita gente (alunos inclusive) a confundirem ideias e a tomarem como deles referências, acomodando-se no que já existe, baralhando o próprio trabalho com os seus autores de eleição. É verdade que as nossas ideias crescem porque são construídas em cima de conhecimentos pré-adquiridos. Mas para crescerem verdadeiramente têm que ser originais. E, para mim, a autoria é fundamental.

 

ilustração originalmente publicada no livro “A máquina de fazer palavras” (Porto Editora, 2007)

 

Marta Madureira: Já não é a primeira vez que aqui refiro o meu pai, porque é, efetivamente, uma figura essencial no meu percurso. Se hoje temos atitudes gráficas distintas, houve alturas, no início, em que sentia uma dependência, nunca imposta, mas criada por mim e pela admiração que sempre lhe dediquei. O crescimento para uma maturidade individual não foi fácil, pois a presença diária do seu trabalho tinha sobre mim um grande peso. Hoje, ultrapassadas as agitações, relembro essa época como uma fase necessária para o meu crescimento.

Em 1991, o meu pai ilustrou um livro do escritor José Vaz chamado “A máquina de fazer palavras”. Em 2007, aconteceu uma coincidência engraçada: fui convidada pela Porto Editora, através do professor António Modesto, para (re)ilustrar esse mesmo livro. Embora nessa altura o meu percurso na ilustração já fosse bem distinto do do meu pai, não consegui evitar uma certa insegurança. O livro que o meu pai ilustrara em 1991 foi sempre um dos meus preferidos. Faz parte das minhas memórias. Era, até ao momento, impensável outra versão do livro que não aquela. Principalmente, minha. Como me separar de uma linguagem que sempre dei como absoluta? Como reinventar algo que sempre esteve lá? Como fugir à imitação? Nesta luta tive uma grande ajuda: o meu pai tem, desde sempre, a escola da pintura num registo forte da mancha e da tinta; eu, ainda que mantenha uma costela da pintura, segui a via do design e uma técnica mais ligada ao recorte e à colagem. A partir do momento em que as técnicas são diferentes, as soluções passam a ser desenvolvidas em sentidos distintos. A experiência adquirida até aí permitiu-me ser firme na escolha da técnica, distinta da do meu pai. A minha versão do livro, uma geração depois, saiu completamente diferente. O que lá está é meu. Ainda que, e ainda bem, com restos de 1991.

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Três meninos no Lago Tanganyika

São três crianças negras. A mão de um quarto menino fica cortada, do lado esquerdo. Correm em direção à água, e nela entram, em tropel de movimentos, sombras e percussões de espaço. No seu ímpeto estático de corpos nus em liberdade, captado pelo fotógrafo, atravessam o tempo. Amanhã, dia 23 de agosto, celebra-se o Dia Internacional em Memória do Comércio de Escravos e sua Abolição. Amanhecia na Ilha de Santo Domingo (Haiti e República Dominicana), nesse dia de 1791, quando se deu a sublevação de escravos que marcou o princípio do fim do seu comércio transatlântico.

 

 

Estas crianças que correm para a água são aves, bailarinos, anjos e deuses, na exata memória de séculos de penas, correntes, naufrágios e lágrimas em longes terras. A água é a do Lago Tanganyika, na Libéria. O ano, o de 1930. A fotografia: “Liberia, 1930”, publicada na revista de artes francesa Arts et Métiers Graphiques, no ano seguinte. O fotógrafo: Martin Munkácsi. De origem húngara, Munkácsi tinha 34 anos, e era já um dos fotógrafos mais bem pagos do mundo, trabalhando na Alemanha, para a Berliner Illustrirte Zeitung (BIZ). Nesse ano, viajou para África, tendo como missão documentar as mudanças na vida tradicional dos povos da Libéria.

São muitas as memórias, mistérios, segredos e perplexidades que envolvem a fotografia. Um desses mistérios, nunca resolvido, aparentemente, é este: como veio o fotógrafo parar ao Lago Tanganyika, algures entre o Congo, o Burundi, a Tanzânia e a Zâmbia, a milhares de quilómetros da Libéria e do centro da sua missão? O Lago Tanganyika, pertencendo atualmente à Tanzânia e ao Congo, é um dos mais longos e profundos do mundo. Pela sua importância estratégica, esteve sob o domínio alemão e foi palco de algumas das batalhas navais mais duras de África, opondo a Alemanha à Bélgica e aliados em 1915/1916, no decorrer da Primeira Guerra Mundial.

Uma outra dúvida, que ainda hoje incomoda os especialistas em história da fotografia: trata-se de um trabalho de estúdio? “Liberia, 1930”, ou “Néger fiúk a Tanganyika tavon. Libéria, 1930 körül” (ou “Boys running into the surf at Lake Tanganyika, Liberia about 1930”), terá sido tirada recorrendo a uma das novas máquinas fotográficas de 35mm, também usada por Cartier-Bresson e por muitos outros fotojornalistas, mas que Munkácsi ainda recusava. Por outro lado, alguns fotógrafos consideram-na trabalho de estúdio, de que o autor também não era apologista. Em algumas versões-pirata e pseudo-edições da fotografia, o braço do quarto menino não aparece, em ignóbil tentativa de aprimoramento.

 

 

Munkácsi, que começara a sua carreira como fotógrafo desportivo e fotojornalista, emigrou para os Estados Unidos em 1934 e tornou-se uma das referências da fotografia de moda, trabalhando para a Harper’s Bazaar e para a Life. A originalidade dos ambientes escolhidos, os ângulos desconcertantes e a fria racionalidade do seu olhar sobre a atmosfera glamorosa e as grandes estrelas do cinema da época, obrigam-nos a refletir sobre as inovações técnicas (como o aparecimento da Leica, em 1925, ou as emulsões de película mais eficazes) e sobre as novas abordagens estilísticas que despontavam nos anos 20/30. Graças a Munkácsi, abandona-se gradualmente o ponto de vista estático, pictorialista, para se privilegiar o momento e o movimento, a rapidez e a energia, a surpresa e o inusitado.

Foi também esta fotografia, ícone de um ícone, portanto, que contagiou irremediavelmente um Henri Cartier-Bresson pintor, levando-o a decidir-se por uma carreira como fotógrafo: “Em 1932, vi uma fotografia de Martin Munkácsi, de três crianças negras correndo para o mar e, devo dizer, que foi essa mesma fotografia que, para mim, produziu a faísca que ateou o fogo-de-artifício… e me fez subitamente perceber que a fotografia podia alcançar a eternidade através do momento. Não conseguia acreditar que uma coisa dessas podia ser captada pela câmara. E, ‘diabos me levem’, disse eu, agarrei na máquina fotográfica e fui para a rua.”

Conta-se que Robert Capa, também ele judeu e exilado, terá dito que “para se ser um bom fotógrafo não é preciso ter só talento. Também é necessário ser-se húngaro.” Na Royal Academy of Arts, em Londres, podemos ver, até dia 2 de outubro, a exposição “Eyewitness – Hungarian photography in the 20th century”. São 200 fotografias, abrangendo um período entre 1914 e 1989, da autoria de artistas como Brassaï, Capa, Kertész, Moholy-Nagy e Munkácsi, entre outros, e que nos levam a acreditar que a afirmação de Capa tem tanto de ironia como de verdade. Todos estes fotógrafos sentiram na pele a humilhação, a dor, a perseguição. Todos eles passaram pelo drama do exílio, pelo recomeço difícil numa terra distante. Todos eles, sem exceção, nos deixaram legados artísticos valiosíssimos. Mas, mais do que tudo o resto, ensinam a olhar e não nos deixam esquecer.

 

Paula Pina

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Agosto: férias, feiras, festas, festivais [1ª parte]

Agosto é tempo de férias. Agosto é tempo das festas: dos festivais da moda às romarias ancestrais, das celebrações anuais, sazonais, patronais, às feiras mais ou menos medievais. Das bandas da rádio aos duos de karaoke, dos artistas da televisão aos que têm muito sucesso lá fora. Um pouco por todo o lado, das aldeias esquecidas nos mapas mais atualizados (sobretudo nesses e nos GPS), às recentemente promovidas vilas e cidades, das sociedades, associações filarmónicas, recreativas, grupos desportivos, culturais e religiosos, há-as para todas as bolsas e para todos os gostos, com ou sem fogo de artifício (geralmente com).

 

1.

Os preparativos começavam alguns dias antes. As mulheres amassavam e coziam o pão nos fornos de lenha. Matavam umas galinhas, que assavam no final, aproveitando as últimas brasas. Faziam as filhoses e os bolos tradicionais – bolo de mel e erva doce, bolo de figo, bolo de alfarroba, bolo de amêndoa e gila. Os morgados, as lesmas, os folhados e os dom rodrigos eram feitos exclusivamente pelas mulheres mais velhas, seguindo secretas receitas ancestrais. De vez em quando, uma das jovens casadoiras era convidada a participar no ritual da confeção. As outras, invejosas, espreitavam pelo postigo de madeira da cozinha e tentavam decorar os movimentos, dançantes, firmes, ritmados das mãos preparando as massas e recheios delicados. Os miúdos, depressa enfastiados dos jogos habituais, dos livros lidos e relidos (Patinhas, Mónica e Cebolinha com fartura, “Os cinco”, “A aventura”, um ou outro “Astérix” e “Tintin”) e ressentidos pela falta de atenção, arriscavam, de quando em vez, uma corrida rápida até à cozinha, metendo os dedos sujos de terra na massa das formas, e encolhendo-se à esperada palmada e à coadjuvante exclamação: “- Ai, miúdo d’um raio!”. As meninas, mas só as mais bem comportadas, teriam o direito de lamber as colheres de pau e de raspar os restos da massa dos tabuleiros, antes de voltarem a investir nas fatiotas de crochê para as bonecas  (as “matrafonas”), nos modelitos de papel  para as bonecas de cartão, ou nas leituras da “Anita” ou de volumes da Condessa de Ségur integrados na coleção azul ou cor de rosa.

Os homens iam à adega e das pipas deixavam jorrar o vinho, da cooperativa, para dentro de garrafões envoltos em vime, que rolhavam rápida e eficazmente com as rolhas da fábrica de cortiça local. Limpavam e alimentavam os animais, demorando-se a escovar e a entrançar as crinas dos cavalos e da mula. Lembro-me de uma velha égua branca e cinzenta (a Centenária), a espinha excessivamente curvada, que se enchia de ar sempre que a selavam. E lembro-me da mula, que era a Mula, e de um burrico cinzento, o Bom Remédio, que carregava as infusas (cântaros de barro) e as caixas da fruta.

As primas adolescentes, de mini saia e longas tranças, guardavam nas malinhas os rosários, os véus e as velas para a missa e procissão. Entre cochichos, troca de revistas femininas (Cláudia, Crónica   Feminina, Modes et Travaux), bordados e conselhos de estética, de vez em quando, uma carta com selos exóticos ou uma pequena Foto Custódio era retirada de entre as páginas de um romance para raparigas (geralmente da série “Brigitte” ou um qualquer título de Odette de Saint-Maurice) e comentada pelas outras. Depois, pressurosas, vinham ajudar as crianças a recortar as flores de papel com que iríamos enfeitar as carroças. Ou melhor, como sempre me fizeram questão de explicar, as carretas (para a lenha, para o  vinho e para o “bicho”, que nunca percebemos bem o que seria…), as carroças (para as famílias e crianças) e a caleche (certamente porque tinha toldo, para as grávidas, bebés e para a bisavó).

Ao entardecer, as mulheres embrulhavam o pão, os chouriços, o presunto, os bolos, em panos axadrezados, de cornucópias ou com galos de Barcelos meio desbotados. Empilhavam panelas, copos, tigelas, pratos e travessas de esmalte pintado dentro de grandes cestos de verga. Os homens traziam das hortas os melões e as melancias, e enchiam uns cabazes com laranjas, tangeras, tangerinas e clementinas, figos, pêssegos e uvas. Sentavam-se depois em roda, nos alpendres ou à porta da rua, amolando as facas, faquinhas e canivetes, uns; enrolando tabaco, outros: os mais pequeninos tiravam as suaves folhinhas de papel, à vez, e também à vez lambiam os bordos. Os mais crescidos eram autorizados a cortar os cigarros. De vez em quando, um dos primos mais velhos fazia desaparecer uma rosquinha de vício, que fumava às escondidas, com a anuência do avô, que se distraía de propósito, não reparando no desaparecimento. Um dos tios, fingia que afinava a viola e o bandolim, e ensaiava só para si as modinhas, apanhadas de ouvido da rádio, orelha inclinada para a caixa e dedos calejados amaciando as cordas. Os que se diziam pescadores preparavam cientificamente o equipamento.

Assim que a noite caía, e os mais pequenos adormeciam, eram agasalhados e deitados, meio embrulhados em mantas feitas de retalhos, no fundo das carroças. Uma das carroças era maravilhosa: rodas e raios amarelos, e depois dividia-se em contrastes de azul, vermelho e verde de madeira pintada. Tinha assentos corridos dispostos dos dois lados. Famílias inteiras metiam-se à estrada, as candeias de petróleo alumiando os caminhos ladeados de valados de pedras instáveis. De vez em quando, coelhos e zorras (raposas) atravessavam-se à nossa frente. Contavam-se anedotas (algumas bastante impróprias), adivinhas e histórias, como a do Esconderijo do Remexido, e lendas de mouros. A noite cheirava a alecrim, a rosmaninho, a orégão. Outras vezes, a bela-luisa, a urze e erva-azeda. As rodas esmagavam o solo xistoso, em algumas zonas coberto de seixos rebolados, num chiar oleoso. As grandes copas das alfarrobeiras pareciam castelos e, nas suas dramáticas ondulações dos ramos e folhas, as figueiras pareciam monstros prestes a levantar-se do chão. O casario branco, caiado e brilhante do dia, tornava-se fantasmagórico. Ao passarmos por portões, alguns cães saíam-nos ao caminho, cumpridores, todos rosnadelas e dentuças fluorescentes. Por vezes, passávamos por um tanque de rega, onde se banhava a mais gloriosa lua do sul.

 

[continua na próxima 6ª feira, 26 de agosto]

 

Paula Pina

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“Juro que vi um dinossauro!”, de Jeanne Willis com ilustrações de Adrian Reynolds

A recentemente publicada obra de  Jeanne Willis e Adrian Reynolds, “Juro que vi um dinossauro!”, junta-se aos dois outros volumes dos mesmos autores editados pela Civilização em 2010: “Quem está na casa de banho?” e o divertido “Não tem graça!”. O ilustrador Adrian Reynolds é mais conhecido em Portugal através da série de animação “Harry e o balde de dinossauros”. O seu talento para a criação de sequências cinematográficas é visível neste livro.

Trata-se de uma história, narrada em verso, na linha tradicional das lengalengas e dos contos acumulativos, tal como nas obras anteriores. Neste caso, brincando com o conceito-chave do boato, a obra acaba por oferecer uma reflexão sobre o próprio processo de criação de notícias e uma lição sobre estratégias de marketing. Partindo da afirmação categórica que dá nome ao livro, aquela que seria naturalmente considerada uma frase exclamativa puramente infantil e imaginativa, descartada por qualquer adulto razoável com um simples encolher de ombros e um “sim, sim, pois” condescendente, somos empurrados para uma verdadeira aventura, com um ritmo alucinante, imparável até nas respirações de uma leitura em voz alta. O narrador, de primeira pessoa, dá a notícia (ou conta a história, revela uma descoberta) em primeira mão ao leitor. O juramento que acompanha a notícia parece conferir-lhe toda a seriedade: quem jura que vê, viu mesmo, e, portanto, será credível. Esta credibilidade funciona aqui com um efeito bola de neve, levando tudo e todos pelo caminho, não importa a hierarquia, profissão, estatuto, crença ou relação, humano ou animal, do padeiro à veterinária, do padre aos cientistas, aos jornalistas e à Marinha, à Força Aérea e Exército. O autor da façanha junta-se ao leitor/espetador, ao longo das páginas, observando e comentando, com distanciamento e ironia, os efeitos da sua iniciativa. Um dos momentos mais cómicos surge quando um grupo de crianças (protagonista incluído), lambuzadas de gelado, vê as notícias na televisão. Ao lado, um avô placidamente adormecido na poltrona. Em cima do aparelho, um gato siamês espreita pela janela os mesmos navios de guerra e helicópteros que surgem no ecrã. Segue-se o momento climático da obra (pelo menos para os mais pequenos), quando a silhueta escura de um dinossauro enche as páginas.

No final, o narrador celebra, imodestamente, o sucesso do plano: “Mas haverá mesmo algum dinossauro em carne e osso? / Ou não passou tudo de um dos planos por mim engendrados / que criou todo este alvoroço / Para o meu pai vender mais gelados?” A resposta a esta questão aparece só na última linha da última página, ou melhor, na ilustração que a acompanha. Nós nunca vimos dinossauros em carne e osso, mas, inspirados pelas guardas do livro, ficámos com vontade de os desenhar. Antes disso, contudo, vamos ali num instantinho comprar um gelado. Sim, um gelado, não fiquem de boca aberta. Entretanto, podem ficar aí, entretidos a tentar descobrir onde se esconde o discreto dinossauro nas páginas coloridas do livro.

 

livro “Juro que vi um dinossauro!”, de Jeanne Willis com ilustrações de Adrian Reynolds
Civilização, 2011
[a partir dos 4 anos]

 
Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 9)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: É ilustradora a tempo inteiro, 24 horas por dia? Desenha mentalmente tudo o que vê, estando acordada ou a dormir? E toma notas ou faz esquissos sobre essas visões? O que é que tem de ter sempre consigo para o poder fazer?

Marta Madureira: Não sou ilustradora a tempo inteiro, mas quase tudo o que faço profissionalmente passa pela ilustração. Se por um lado é bom, porque canalizo todo o esforço num só sentido, por outro, corro o risco de me encerrar num único assunto. Tento, por isso, estender o meu interesse a outras áreas vizinhas, como é, por exemplo, o design gráfico, disciplina base da minha formação, que entendo como uma área vasta e multidisciplinar, onde coexiste a ilustração.

Não dependo financeiramente do trabalho de ilustração. O meu trabalho base, ao qual dedico a maior parte do tempo e esforço, é dar aulas. Sou professora no IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), onde dou aulas de desenho e ilustração, na licenciatura de Design Gráfico e no mestrado de Ilustração e Animação. Tendo em conta a natureza das aulas que dou, tenho a sorte e a vantagem de fazer o que gosto e de me sentir plenamente preenchida: primeiro, porque a relação com os alunos traz sempre alguma frescura e as aulas são, por norma, uma partilha; depois, porque o trabalho de docência me ajuda a tornar o processo de trabalho criativo mais consciente, e não meramente intuitivo. Quando temos alunos para orientar somos obrigados a pensar no “porquê” das coisas, porque temos, efetivamente, de verbalizar os problemas e as soluções. Isso ajudou-me a construir um vocabulário mais sólido e a tornar-me mais consciente do que faço; e ainda porque a preparação das aulas me obriga a estar permanentemente atualizada e a investigar cada vez mais as vias da ilustração.

Respondendo à segunda parte da questão, o meu desenho é, numa primeira fase, essencialmente mental. Não ando com nenhum caderno de folhas especiais, apenas o suficiente para registar, em palavras, uma ou outra ideia. Tudo acontece no cérebro e no encaixe das ideias. Quando recebo um texto, mesmo que tenha muito tempo para o ilustrar, começo logo por lê-lo. Assim que estabeleço o primeiro contacto, o texto começa a sedimentar-se na minha cabeça e aos poucos, ainda que de forma inconsciente, vai-se agrupando em ideias e montando por si só um imaginário. Só numa segunda fase é que essas ideias passam para o papel. Primeiro em esquissos rápidos de distribuição de mancha e pesos visuais (storyboard, no caso de ser um livro). Só depois em pranchas, mais próximas do que será a ilustração final. Depois da ideia, vem a formalização da mesma. Essa forma vai sendo moldada pela experimentação e quase nunca acaba da maneira que primeiramente idealizei.

 

ilustração originalmente concebida para packaging para conservas José Gourmet (2010)

 

Marta Madureira: As relações afetivas que criamos em ambiente académico são fundamentais. Enquanto alunos, com os colegas e professores. E enquanto docentes, com os alunos que ano após ano vamos conhecendo. Essas relações, quando bem afinadas, proporcionam futuras relações de amizade e de trabalho. E não há nada melhor do que partilhar projetos com pessoas de quem gostamos. Do meu tempo de faculdade, guardo muitos colegas que são hoje amigos. E muitos professores com quem mantenho, até hoje, relações próximas de estima e amizade.

Esta ilustração foi um (dos muitos) convite feito por um professor e amigo, o Gémeo Luís (Luís Mendonça). Faz parte de um conjunto de embalagens desenvolvidas para uma marca inovadora de produtos gourmet, o José Gourmet. O design é da responsabilidade do Luís Mendonça, que entregou cada uma das embalagens de conserva (num total de 12) a um ilustrador. A mim, calhou ilustrar a sardinha em tomate. Este tipo de encomenda tem contornos diferentes do que os que normalmente associamos a um trabalho “tradicional” de ilustração. Mas a contextualização de imagens em ambientes diversos é cada vez mais uma realidade e um potencial futuro para a ilustração. A diversidade de suportes e as diferentes aplicações da ilustração a meios distintos confirma que a área não é estanque e valoriza-a enquanto objecto de comunicação.

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Robert Breer [1926 / 2011]

 

Morreu Robert Breer. Era professor na Cooper Union, uma das mundialmente mais prestigiadas escolas de cinema americanas. Chegava todos os dias, com o seu inconfundível perfil grisalho, um discreto sorriso e os inevitáveis cartõezinhos de 4X6. Os alunos adoravam nele a imensa generosidade, o espírito alegre, o humor irónico. Explicava com uma singeleza cativante, partilhava os segredos que revolucionaram a criação cinematográfica com a mágica simplicidade de quem conta uma história. Nos seus olhos, escondidos atrás das lentes de uns óculos de massa, passavam incessantemente filmes. Em todos eles se lia uma palavra: paixão.

 

 

Apaixonou-se por um BMW de 1935, descapotável, e por piruetas de voo em bimotor. Estudou engenharia (herança paterna, certamente), mas foi na pureza das pinturas abstratas de Mondrian que encontrou o seu caminho. Só que, e ao contrário de Mondrian, as suas formas em breve se enchem de desassossegos, tornam-se implicativas, digladiando-se em recintos de arestas e irregularidades. Metamorfoses, instabilidade de formas, de linhas, de cores, os opostos atraindo-se, complementando-se e anulando-se.

 

 

Foi membro fundador da vanguarda americana, pioneiro desafiador da animação experimental, influenciado pela pintura e pelos processos mecânicos do cinema de animação. Conviveu com artistas de referência, tanto na Europa como nos Estados Unidos, do dadaísmo à Bauhaus, passando pelo construtivismo russo, pela estética beat e pela pop art. Do seu interesse pelo cinema “cubista”, ou melhor, pela utilização de formas geométricas em movimento no espaço e no tempo, resultaria o nascimento de uma nova estética fílmica. O seu gosto pela experimentação, pela arte cinética, pela abstração geométrica, e pelas manualidades com cartões e flip-books, tornaram o estilo de Breer absolutamente único. Nas suas obras não é difícil descortinar a influência de Paul Klee, por exemplo, mas nele encontramos igualmente a rapidez e estilo “cartoon-like” dos desenhos animados e das tiras de BD, incorporando objetos do quotidiano, tintas em spray e lápis. Recorre ainda a técnicas e mecanismos dos primórdios do cinema, e talvez resida aqui outra das originalidades de Breer: criar o novo no velho, o velho no novo, misturando a curiosidade científica e apego arqueológico, com novas visualidades e tecnologias.

 

 

O artista que criou “floats”, nos anos 60, e os recriou nos anos 90, e que definia estas “esculturas animadas” como “moluscos motorizados”, soube reduzir a poeira a sólida solenidade das esculturas convencionais. Movimento contra movimento, metamorfoses de formas e cores, de imobilidade e de velocidade, de representatividade focalizando a  abstração. Revejam-se os fluxos e colisões destes “gastrópodes”, que, libertos dos seus pedestais, provocam o riso, mas sem nunca tombarem na escadaria do excesso, sem nunca escorregarem para a mediana caricatura. Personagens de verdadeiras comédias escultóricas, parece que nos obrigam, sem comentários, a refletir sobre as bases teóricas e críticas do minimalismo.

 

 

Quem conseguir, que voe, com ou sem crias, até Gateshead, no Reino Unido, e vá ao Baltic Centre for Contemporary Art. São dois pisos com criações de Breer, até 25 de setembro.

 

 

Paula Pina

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Maratona e juventude

Hoje, dia 12 de agosto, comemora-se o Dia Internacional da Juventude, uma proposta nascida na Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude, realizada em Lisboa, precisamente de 8 a 12 de agosto de 1998, ano da Expo.

No Dicionário da Academia das Ciências, “juventude” é a última entrada na letra J. Aí podemos ler, entre outras, esta definição: “Juventude: conjunto de atributos próprios dos jovens, que podem manter-se nos adultos.”

Também num dia 12 de agosto, desta vez de 1984, um atleta português, Carlos Lopes, conquistou, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a primeira medalha de ouro para Portugal. Coladas ao pequeno ecrã do televisor, ainda a preto a branco, e um dos poucos na aldeia da serra algarvia, gerações inteiras de famílias em férias ou em pausa de trabalho no campo, ouviam o relato entusiástico do locutor. As imagens, essas, ficaram gravadas numa cassete beta, de dois lados, e já em muito mau estado, que foi passando de casa em casa, de mão em mão, desde os primos emigrantes ao tio-avô semi-adormecido no quarto dos fundos.

Foi uma maratona rapidíssima, recorde mundial, sob o sol abrasador da Califórnia. A camisola, com o número 723, parecia grande demais para o corpo magro de Carlos Lopes. Tinha quase 40 anos.

 


 

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 8)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

 

Cria Cria: Por que é que acha que as pessoas desenham? E por que é que a Marta desenha? Ainda sente a mesma motivação que tinha quando começou a ilustrar?

Marta Madureira: Há diferentes formas de abordar o desenho. Desenho artístico, desenho como conhecimento, desenho técnico, desenho ilustrativo, etc. São inúmeras e muito diversas as configurações e as motivações do desenho. No caso particular da ilustração, penso que o que nos leva a desenhar é a vontade de criar imaginários paralelos. Algo que só existe em palavras e que nós, ilustradores, formalizamos em imagens, tendo em conta a nossa interpretação e as nossas vivências. Porque neste tipo de abordagem ao desenho, não há como negar, há muito de pessoal. Não se trata apenas de executar um desenho (com toda a criatividade que essa tarefa exige), mas também de idealizar o seu contexto. Assim, através de referências quase sempre literárias, os ilustradores fabricam imagens. Numa perspetiva pessoal, acho (porque não é assim tão claro racionalizar o que fazemos) que o que me leva a ilustrar é exatamente esse poder momentâneo de construir imagens. Estas imagens têm uma forte apetência para comunicar com os outros. O leitor fará uma interpretação do texto através das imagens que o ilustrador criou. Este tipo de abordagem ao desenho ilustrativo pode ser visto como uma tradução onde o ilustrador é o intermediário e uma mais valia num processo de comunicação que se torna assim mais rico pelas sugestões da imagem.

Ao longo destes ainda curtos anos de trabalho tento que o tipo de desenho que faço evolua. Há uma vontade incondicional de crescer de trabalho para trabalho e de não estagnar naquilo que já foi feito. E, paralelamente, as motivações que me levam a ilustrar ganham também novas perspetivas. Tenho sentido que o trabalho não é só o que fazemos mas também as relações pessoais e profissionais que esse trabalho nos proporciona. Fundado nestas relações, surgiu a necessidade de evoluir, não apenas no trabalho focado na ilustração, mas também na configuração global do processo, desde a escolha do texto à finalização do livro. É dessa vontade que surge a Tcharan, uma editora que criei com a Adélia Carvalho no final de 2010, direcionada para a literatura infantojuvenil. Percebemos que as duas juntas, a Adélia enquanto escritora e dona de uma livraria, a Papa-Livros, e eu, enquanto ilustradora e designer, conseguiríamos as ferramentas necessárias para nos arriscarmos na edição. Depois de um ano de experiência, dois livros editados e três a serem lançados até final do ano, o balanço é muito positivo e faz cada vez mais sentido. O projecto Tcharan permitiu criar um espaço onde nos aproximamos mais dos nós próprias, com a liberdade necessária para as escolhas que consideramos melhores. Trouxe ainda uma nova e boa sensação. Como editora, passei para o outro lado, o de observar a ilustração. Temos o privilégio de poder convidar para trabalhar connosco as pessoas que sempre admirámos. Ao gosto de ilustrar junta-se agora o gosto de fazer bons livros com bons amigos. E gostar, genuinamente, de ilustração.

 

ilustração originalmente publicada no livro “A crocodila mandona” (Tcharan, 2010)

 

Marta Madureira: “A crocodila mandona” é o primeiro livro da Tcharan. Neste primeiro objeto, quisemos materializar o ponto de partida da editora enquanto projeto meu e da Adélia Carvalho. Assim, as ilustrações são minhas e o texto é da Adélia. É normal que o início de um novo projeto de ilustração demore. Mas nunca um livro me custou tanto a começar como este. A responsabilidade de ser o nosso primeiro, estava a ser demasiado pesada. Comentários de amigos, como “o primeiro tem que ser especial”, “o primeiro é o vosso cartão de visita” e “o primeiro vai ser sempre lembrado”, ainda que de entusiasmo e força, acabaram por contribuir, de forma involuntária, para um início de trabalho angustiante, mais ainda do que o normal. Depois de uns dias à deriva, forcei-me a focar no essencial. Não há livros melhores ou mais importantes. Cada trabalho é único. E, como em todos os livros, consegui finalmente parar, fechar os olhos e sentir-lhe o pulso.

O texto da Adélia sugere um jogo tradicional. Lembrei-me, desde a primeira vez que o li, de um jogo que jogava em pequena, o “minha mãe dá licença”, onde o jogador vai avançando ou recuando, dependendo da vontade da “mãe”. Também no texto de “A crocodila mandona”, a crocodila Dalila permite, ou não, a passagem para o outro lado do rio, dependendo da prenda que lhe é oferecida, numa repetição constante da frase “Senhora crocodila, posso passar? / E o que trazes no bolso para me dar?” Construí, então, o conceito do livro à volta da ideia de um Jogo da Glória. O corpo da crocodila estende-se ao longo das páginas do livro como se fosse o tabuleiro do jogo que o leitor vai percorrendo, atento aos obstáculos (picos, buracos, escadas, etc.) que a crocodila vai colocando no caminho. Esse corpo/caminho da crocodila vai sendo metamorfoseado de acordo com o que o texto vai sugerindo: ora é um caminho de folhas e uma possível armadilha para o leitor; ora é um menino fantasiado de leão; ora é uma perna vitoriana com sapatinho de verniz; ora é, como na imagem, um cachecol de penas macias.

Tcharan! Não posso deixar de referir com alguma vaidade que o livro foi Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2010, um bom presságio para a estreia da nossa Tcharan.

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“Webcedário”, de Abc Dário

Eis um projeto de escrita, visual, gráfica, humorística, que teve a sua génese na blogosfera e que surge agora editado em livro pela Bizâncio. Nestes divertidos mini-cartoons a preto e branco (e vermelho), as letras, os números, os sinais gráficos e outros carateres ganham personalidade, novo corpo e voz. São personagens atuantes e críticas, que nos ensinam a olhar, a redescobrir as possibilidades que jazem, escondidas, por trás dos símbolos e sinais de que vivemos cercados, que para nós já não têm presença e que usamos sem pensar. São diálogos, sketches, observações, críticas, perguntas, ingenuidades e maledicências, misturando a sátira política e social, a história e a cultura, oferecendo-se deliciosos didatismos linguísticos. Do velho se faz novo em combinações inusitadas; formatos conhecidos reconfiguram-se em contextos originais; o quotidiano enfado ora se adoça, ora se agudiza, em pequenos detalhes surpreendentes, cómicos e irónicos, desde os números das páginas (que não são “apenas” paginação), até ao código de barras final, passando pela ilustração de expressões idiomáticas. Um exercício de criatividade a partir de fontes potencialmente inesgotáveis.

Alexandre O’Neill, nas suas “Poesias completas, 1951-1981”, havia já dado vida aos sinais gráficos, por exemplo, transcrevendo-lhes os pensamentos e a voz na primeira pessoa:

 

^

Se me puseres
Serás a mais bonita das mulheres.

 

ou

 

^

Dou guarida e afecto
A vogal que procure um tecto.

 

Em aberto, em suspenso
Fica tudo o que digo.
E também o que faço é reticente…

 

(   )

Quem nos dera bem juntos
Sem grandes apartes metidos entre nós!

 

.

Depois de mim: maiúscula
Ou o espaço em branco
Contra o qual defendo os textos.

 

São muitos os autores, sobretudo de literatura para crianças, que, armados de bem intencionados propósitos, tentaram já explorar estas dimensões, com resultados oscilando, geralmente, entre o sofrível e o desastroso, caindo muitas vezes no facilitismo dos versinhos insípidos, ou das historietas didáticas sem fulgor. Muitos professores, igualmente dedicados, mas bastante menos imaginativos e pressionados por angústias pedagógicas, socorrem-se de técnicas de escrita criativa, mais por obrigação e receituário salvífico, do que por verdadeiro prazer e convicção.

Há obras inspiradas pelas formas das letras, pelos sons, pelos grafismos, pela espacialização, de cunho marcadamente surrealista, por exemplo, mas poucos escritores e ilustradores de literatura infantil e juvenil ousam percorrer os novos caminhos que a poética visual contemporânea e artes plásticas e digitais já traçaram.

Mário Castrim em “Estas são as letras”:

 

Q

Dizem qualquer coisa e eu pergunto:
– Quê?
Pergunto sempre:
– Quê?
Não sei porquê
O meu amigo V
Zanga-se e diz:
– És surdo ou quê?
E eu respondo sinceramente:
– Sou quê.

 

José Carlos de Vasconcelos em “De águia a zebra”:

 

X

Encontraram-se dois traços
Numa larga estrada de vento.
Amor súbito, beijos e abraços
– um lindo cruzamento.

 

livro “Webcedário”, de Abc Dário
Bizâncio, 2011
[a partir dos 10 anos]

 
Paula Pina

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A abertura de “Guillaume Tell”, de Gioachino Rossini

Quando Rossini compôs a abertura de “Guillaume Tell”, estreada a 3 de agosto de 1829, em Paris, não pensou certamente no destino que a esperava. Baseada numa lenda suíça, esta ópera, com libreto de Étienne de Jouy e de Hippolyte-Louis-Florent Bis (a partir de um texto de Friedrich Schiller), e em particular a sua abertura, evoca hoje outras heranças. Muitos associam ainda Wilhelm Tell ao episódio do herói caçador que, em ato de rebelião contra um tirano, acaba por ser obrigado a acertar numa maçã pousada na cabeça do filho com o seu arco e flecha. Todavia, a popularidade com que a obra é recorrentemente citada, como é o caso da sinfonia n.º 5 de Shostakovich, acabou por transformá-la num marco parodístico. Por outro lado, a utilização no cinema de animação, precisamente pela sua dimensão impressionista e carga imagética, torna-a na banda sonora ideal para tempestades, auroras e cavalgadas.

Para os fãs de Walt Disney, recordemos o Mickey maestro, em 1935, dirigindo a abertura em “The band concert”. Num concerto ao ar livre, encontramos um esforçado regente que tenta conferir seriedade e rigor interpretativo a uma performance que acaba por resultar numa deliciosa mistura de estilos e ritmos, num jogo em que o cómico de situação e de personagem é adjuvado pelas múltiplas e divertidas incongruências técnicas (como por exemplo os posicionamentos incorretos e/ou impossíveis dos instrumentos), e pelas citações e transições musicais inesperadas. Um dos momentos altos do filme sublinha as semelhanças pontuais entre uma secção da melodia de Rossini e uma canção popular americana, “Turkey in a straw”, usada por músicos ambulantes e vendedores de gelados desde meados de 1820-30. Na verdade, quando o vendedor de gelados Pato Donald, com coerência e hercúlea determinação, toca “Turkey in a straw” no seu pífaro (melhor, nos seus pífaros em permanente reprodução), toda a orquestra o segue sem hesitação. Uns minutos mais tarde, os movimentos corporais do rato Mickey, tentando livrar-se do incómodo que será ter uma bola de gelado a escorrer pelas costas abaixo, suscitam, por parte da orquestra, a transição imediata para um estilo dança do ventre.

Diz-se que o maestro Arturo Toscanini, quando viu o filme pela primeira vez, gostou tanto que saltou de rompante para a zona técnica, pedindo a um projecionista perplexo que o voltasse a passar.

 

 
E para os fãs da banda desenhada, que vibram ainda com as memórias da cavalgada de “The lone ranger”, o Mascarilha, no seu cavalo branco, Silver, no genérico das séries, em filme e em desenhos animados que passaram na RTP, aqui temos novamente Rossini:

 

 

 

Aguardamos agora que, na senda de “Os piratas das Caraíbas”, e também com realização de Gore Verbinsky, Johnny Depp encarne Tonto, o índio amigo e companheiro de Lone Ranger, no combate à injustiça e aos fora da lei. Com um pouco de sorte, talvez o nome de Rossini continue a figurar na ficha técnica.

 

Paula Pina

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Mais “Magia!” de Madalena Matoso em breve

 

Entre a inocência e a candura, entre a singeleza e a profundidade, entre a razão e a emoção, entre o corpo e a alma, Madalena Matoso é cada vez mais também “Magia!”. Tudo em Madalena Matoso é comovente na cabal liberdade do gesto afetivo dedicado a personagens com um vigor e uma inclinação indomável para as supremas alegrias quotidianas. Das ilustrações e das nossas vidas como línguas gémeas, em permanente e inabalável entendimento. Tudo em Madalena Matoso é extasiante e esplendorosa transferência de empatia, cumplicidade, carinho, amor, destino, plenitude, vida. Uma “Magia!” que temporariamente é feliz exclusivo de um vizinho país distante, mas que em breve terá o merecido protagonismo eterno aqui no nosso apaixonado recanto.

 

 

Moreno Fieschi

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Marcelo Camelo em trânsito entre o Sudoeste e Lisboa

Cumprido o histórico festim que hoje à noite conduz ao palco maior do festival os distintos cambiantes r&b de Janelle Monáe, Raphael Saadiq e Snoop Dogg, e antecedendo em poucas horas uma sua extensão chamada Kanye West, o Sudoeste acolherá às 7.20 da tarde desta 6ª feira, dia 5 de agosto, a primeira de duas apresentações portuguesas do recente segundo álbum “solitário” do compositor brasileiro Marcelo Camelo – sendo a outra promessa para depois de amanhã, dia 6, na sala lisboeta TMN Ao Vivo.

“Toque dela” é um longa duração que sublinha e fortalece o modelo criativo do igualmente louvável “Sou nós” (Zé Pereira, 2008), e a confiante consolidação de uma assinatura – no domínio das composicões, dos arranjos, das interpretações, dos textos e dos subtextos que estes promovem, etc. – que o bom senso aconselha a manter em audição regular. E particularmente atenta… As leituras formais são imensas e desmultiplicam-se exponencialmente até a um lugar sonoro ainda por cartografar. Evitemos chamar-lhe rock, mesmo que no seu apaixonado âmago seja impossível não reconhecer o carinho que esta música devota aos arranjos educados no mais elegante pós-rock de Chicago – em grande medida viabilizados pelo auxílio luxuoso (ainda que, neste contexto, escasso em liberdade…) do guru Rob Mazurek e dos seus mais declarados embaixadores brasileiros, os Hurtmold. Evitemos igualmente ignorar a sua genealogia inequívoca: a modernidade intemporal da bossa nova, a erudição contemplativa do jazz, a disponível sabedoria da música contemporânea, a minúcia especulativa da eletrónica, etc… Trabalhando silêncios e respirações como raros estetas na pop atual, Marcelo Camelo é paradigmático no modo como concebe arranjos que parecem ter tempo e disponibilidade para tantas ideias e acontecimentos, inúmeras vezes em simultâneo: “vozes” distintas que dialogando se complementam e esclarecem, gerando fantasias inéditas a cada nova oportunidade dialética.

Apesar da crescente abstração e simbolismo dos poemas e das narrativas sónicas que os amparam, há toda uma respiração realista dial, subtraída às vivências do autor, hospedada em cada uma destas canções. Apologia do princípio da existência e da lógica ficcional que cria para cada um de nós, “Toque dela” é um documento que regista com saudável energia o momento presente do seu criador e, em certa perspetiva, da sociedade que nos assiste, onde quase tudo é impuro, imperfeito, desleixado, mas – honra lhe seja feita – razoavelmente genuíno. E rimando conceptualmente com as marcantes ilustrações recuperadas de obras de Biel Carpenter para o livrinho que acompanha o disco…

Haja fé para um Marcelo Camelo que, em recente entrevista ao Expresso (disponível na íntegra no blogue de João Santos, seu autor), resumiu a sua feliz vulnerabilidade digna de uma criança de 10 anos com um “Eu só tenho intuição. É a minha maior aliada, a minha bússola”.

Fechando o curto circuito musical que elegemos para as nossas crias e para nós nesta edição do Sudoeste, Kanye West deverá recolher o consenso de quem lhe testemunhar este regresso a Portugal (tanta música excecional depois da inesquecível estreia de Oeiras), previsto para as 11.40 da noite de amanhã, dia 5. Cada vez mais humano na sua ilusão divina, o produtor colherá na Zambujeira do Mar mais alguns frutos de um período assinalável da sua trajetória: na feliz ressaca de um ótimo álbum (“My beautiful dark twisted fantasy”, Roc-A-Fella, 2010) que sofreu de um hype no extremo oposto do anterior (e não menos notável) “808’s & heartbreaks” (Roc-A-Fella, 2008), e nos escassos dias que antecedem a publicação de “Watch the throne”, o revigorante álbum que o une a Jay-Z (disponível digitalmente no próximo dia 12 de agosto). Três dimensões paralelas de um dos raros estetas de que o universo pop de grande escala se pode verdadeiramente orgulhar. Pode ser que os públicos e as expetativas se encontrem no litoral alentejano…

 

5 agosto
Marcelo Camelo, Kanye West, etc.
Festival Sudoeste TMN ’11
Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar
[a partir dos 12 anos]

 
6 agosto, 10 pm
Marcelo Camelo
TMN ao vivo, Lisboa
[a partir dos 12 anos]

 

disco “Toque dela”, de Marcelo Camelo
Zé Pereira / Universal, 2011
[a partir dos 10 anos]

 

 
Moreno Fieschi

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Raphael Saadiq no centro do Sudoeste

Mais do que alinhar o pensamento e a ação pelas ocas generalidades de um festival com a dimensão trágica do Sudoeste, vale a pena focalizar um segmento significativo da nossa prática de consumo musical intergeracional em dois momentos do seu plano de festas que – coincidências e conveniências contratuais à parte – garantem praticamente sozinhos uma renovada credibilidade para o formato (sobretudo tal como é praticado por cá…). Pelo menos no percurso temporal da felicidade com que os evocamos e com que os planeamos viver…

Noite como a desta 5ª feira, 4 de agosto, não há na história da música tocada na Zambujeira do Mar ou de qualquer outro lugar deste Portugal: às 9.15, deixemo-nos dominar pela ginoide invertida e, alternadamente, pelo protótipo de humana biónica que coexistem em Janelle Monáe e na sua experiência mutante de r&b e pop, american songbook e hip hop, punk e breakbeat. Matriz intrinsecamente futurista e tão esclarecida nas suas raízes clássicas, de coração orquestral e alma digital, encravada numa sessão cinematográfica contínua que intercala utopias futuristas de Fritz Lang com delírios sentimentalistas de Rodgers & Hammerstein, o seu longa duração “The archandroid – Suites II & III” (Bad Boy Records, 2010) e, sobretudo, o EP “Metropolis, Suite I – The chase” (Wondaland, 2007) são entradas inevitáveis na galeria da mais exigente soul deste século.

Terminada esta viagem, e antes da incursão de Snoop Dogg no seu universo moral pedagogicamente interdito a menores de 18 (uma tardia estreia em terreno nacional marcada para começar 45 minutos depois da meia noite), a mais justa medida de um milagre musical passível de se dar num cenário como este acontecerá a partir das 10.55 sob a gestão de Raphael Saadiq, cantor e compositor de talento insuperável no recente contexto da soul de “condição” masculina. Ainda em altíssima rotação pelos gira-discos e pelos converte-códigos-binários que nos rodeiam, o recente “Stone rollin'” é – de um modo ainda mais irrefutável do que os outros três álbuns da sua imaculada discografia em nome próprio – uma rigorosa e exemplar lição de história da música negra que espoletou novos modos éticos e estéticos na metade final da década de 60. Mais – é toda uma escola, toda uma vida de aprendizagem e crescimento. Fundamental, portanto, para as crias dos pais que valorizam a inestimável e insubstituível energia nutritiva que é exclusiva deste grupo de alimentos para a nossa alma musical.


“Stone rollin'” começa por declarar-se em tom reverente a Sly & The Family Stone (parafraseando sobretudo “Dance to the music”, mas também “I want to take you higher”) e a tudo o que o coletivo de São Francisco aprendeu com Chuck Berry ou com Bo Diddley. E conclui-se – sintomaticamente com uma faixa não creditada, e não autónoma, mas que consegue o feito de se erguer ainda acima da já tão elevada fasquia das restantes – com a participação de Larry Graham, vocalista e sobretudo baixista seminal da Family Stone e, posteriormente, da sua Graham Central Station. Pelo caminho, ergue-se uma encenação dramática que incide sobre o paradigmático sincretismo de Saadiq enquanto herdeiro privilegiado dos códigos criativos de Stevie Wonder, Curtis Mayfield, Marvin Gaye, Bobby Womack, Ray Charles, Little Walter, Dr. John, dos Rolling Stones prepassados pela soul, das magias sonoras negras que se forjaram nestes períodos em Philladelphia, Memphis ou Detroit, em empreendimentos como a Chess, a Motown ou a Stax. Tudo como um dispositivo que regularmente dialoga com a narrativa contemporânea que, ainda assim, o sustenta. Raphael Saadiq reforça essa atemporalidade com uma ideia sábia de Isaac Hayes: “There’s no such thing as old school. Either you went to school or you didn’t”.

Mais ainda do que o anterior “The way I see it” (Columbia, 2008), este “Stone rollin'” é ritmicamente pragmático, mais uptempo, mais impuro e instintivo e físico, eclético mas coerente, como uma prodigiosa súmula do trajeto solista que o enquadra. Saadiq cunhou a sua obra prima como “Instant vintage” (Universal, 2002), mas esse é cada vez mais notoriamente um estatuto transversal da sua obra, extensível a todas estas canções e a tudo o que o norteamericano nos tem permitido aos ouvidos.

 

“Radio”:

 
“Stone rollin'”:

 

4 agosto
Raphael Saadiq, Janelle Monáe, etc.
Festival Sudoeste TMN ’11
Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar
[a partir dos 12 anos]

 

disco “Stone rollin’”, de Raphael Saadiq
Columbia / Sony, 2011
[a partir dos 12 anos]

 

 

Moreno Fieschi

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 7)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria:  Zanga-se com as suas ilustrações? E elas consigo? Tem uma relação saudável com todas as ilustrações que vai terminando e juntando ao seu portefólio? Fica sempre satisfeita com os resultados do seu trabalho?

Marta Madureira: Sim, zango-me continuamente com as minhas ilustrações. Especialmente quando estão em processo de crescimento, como referi no post anterior. Mesmo quando estou prestes a acabar um trabalho, a relação nem sempre é pacífica. No momento em que finalizo um livro, por exemplo, nunca o reconheço como bem acabado. E quando vai para impressão, vai ainda com uma mágoa de quem não fez tudo o que devia. Nos dias seguintes, depois de chegar da gráfica, há uma fase de reconhecimento e de habituação. O tempo e o iniciar de novos projetos trazem-me a distância suficiente para o avaliar como “espetadora”, ou seja, fora de mim enquanto autora. É um exercício de desprendimento que gosto sempre de fazer, olhar como se fosse a primeira vez: “o que acharia eu deste livro se o visse numa qualquer prateleira?” Já depois de acabados, impressos e arrumados, há trabalhos de que gosto e outros de que não gosto. Há os que me arreliam todos os dias por não ter sido capaz de lhes dar a volta. Mas também os que aprecio, onde reconheço um bom momento, impossível de repetir. Mas em todos vejo defeitos que, não dramatizando, considero normais. Especialmente em trabalhos de continuidade, como é o livro, onde em vez de uma só imagem se trabalham várias, ao mesmo tempo, e a relação entre as páginas. Este processo de construção do livro é mais complexo do que uma ilustração isolada e exige um controle maior sobre o todo. Nestes casos, é sabido, ficam sempre coisas por resolver. Algumas de que tenho consciência no momento de ilustração, outras de que só me apercebo posteriormente, depois do trabalho impresso. Acontece ainda, mais vezes do que o desejável, o prazo apertar. Este tipo de pressão em nada ajuda na clareza necessária ao fecho do trabalho, e acaba por precipitar alguns erros. Especialmente nas questões formais que vou adiando durante a realização do trabalho, para depois corrigir, e que a falta de tempo faz esquecer. Na maioria das vezes são coisas que só eu vejo. Um traço repetido, uma cor não calibrada, uma textura estourada… Mas a verdade é que estão lá e ficarão a moer para sempre.

Acontece também uma coisa muito curiosa, que tenho vindo a constatar: o meu gosto, em relação às ilustrações que faço, é diferente do gosto da maioria das pessoas que as vê. Normalmente as imagens que elejo como as melhores não são as escolhidas pelos outros. Chamo-lhes os meus “patinhos feios”. São imagens que não estão em sintonia com o mundo, mas que compenso com a minha estranha relação de empatia.


ilustração originalmente publicada no livro “A aldeia encantada” (Ambar, 2007)

 

Marta Madureira: Este não é, com certeza, o meu melhor livro. Pelo menos para mim. “A aldeia encantada” é um livro de 2007 que quase não reconheço como meu. Poderia dizer que foi por ter sido feito há já algum tempo, mas o mesmo não acontece com “A boca no trombone”, um outro livro ilustrado nesse mesmo ano. É um livro que tem recebido boas críticas. A Cristina Valadas, pintora e ilustradora que muito admiro, disse-me, há uns dias, que tinha descoberto este meu trabalho recentemente e que o considerava um dos meus melhores. Não posso deixar de me sentir orgulhosa, mas preferia que tivesse sido com um outro qualquer livro, com o qual me identificasse mais. Creio que é um bom exemplo do meu desfasamento de gosto que mencionava no início da resposta. Não me reconheço em grande parte da linguagem e considero um livro de transição, sem grande peso no meu portefólio. Que me perdoe o José Vaz (acho que nunca lhe fiz esta confissão), autor deste texto tão poético. A culpa é, sem dúvida, minha, por não ter conseguido fazer justiça a um texto tão inspirador. Felizmente, temos outros livros em conjunto, mais merecedores do seu talento.

A ilustração que escolhi deste livro é um dos meus “patinhos feios”. Apresento-vos a Celestina e a Abu, bruxa e coruja mimadas, concentradas na grande missão de destruir o Pai Natal.

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