Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 7)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria:  Zanga-se com as suas ilustrações? E elas consigo? Tem uma relação saudável com todas as ilustrações que vai terminando e juntando ao seu portefólio? Fica sempre satisfeita com os resultados do seu trabalho?

Marta Madureira: Sim, zango-me continuamente com as minhas ilustrações. Especialmente quando estão em processo de crescimento, como referi no post anterior. Mesmo quando estou prestes a acabar um trabalho, a relação nem sempre é pacífica. No momento em que finalizo um livro, por exemplo, nunca o reconheço como bem acabado. E quando vai para impressão, vai ainda com uma mágoa de quem não fez tudo o que devia. Nos dias seguintes, depois de chegar da gráfica, há uma fase de reconhecimento e de habituação. O tempo e o iniciar de novos projetos trazem-me a distância suficiente para o avaliar como “espetadora”, ou seja, fora de mim enquanto autora. É um exercício de desprendimento que gosto sempre de fazer, olhar como se fosse a primeira vez: “o que acharia eu deste livro se o visse numa qualquer prateleira?” Já depois de acabados, impressos e arrumados, há trabalhos de que gosto e outros de que não gosto. Há os que me arreliam todos os dias por não ter sido capaz de lhes dar a volta. Mas também os que aprecio, onde reconheço um bom momento, impossível de repetir. Mas em todos vejo defeitos que, não dramatizando, considero normais. Especialmente em trabalhos de continuidade, como é o livro, onde em vez de uma só imagem se trabalham várias, ao mesmo tempo, e a relação entre as páginas. Este processo de construção do livro é mais complexo do que uma ilustração isolada e exige um controle maior sobre o todo. Nestes casos, é sabido, ficam sempre coisas por resolver. Algumas de que tenho consciência no momento de ilustração, outras de que só me apercebo posteriormente, depois do trabalho impresso. Acontece ainda, mais vezes do que o desejável, o prazo apertar. Este tipo de pressão em nada ajuda na clareza necessária ao fecho do trabalho, e acaba por precipitar alguns erros. Especialmente nas questões formais que vou adiando durante a realização do trabalho, para depois corrigir, e que a falta de tempo faz esquecer. Na maioria das vezes são coisas que só eu vejo. Um traço repetido, uma cor não calibrada, uma textura estourada… Mas a verdade é que estão lá e ficarão a moer para sempre.

Acontece também uma coisa muito curiosa, que tenho vindo a constatar: o meu gosto, em relação às ilustrações que faço, é diferente do gosto da maioria das pessoas que as vê. Normalmente as imagens que elejo como as melhores não são as escolhidas pelos outros. Chamo-lhes os meus “patinhos feios”. São imagens que não estão em sintonia com o mundo, mas que compenso com a minha estranha relação de empatia.


ilustração originalmente publicada no livro “A aldeia encantada” (Ambar, 2007)

 

Marta Madureira: Este não é, com certeza, o meu melhor livro. Pelo menos para mim. “A aldeia encantada” é um livro de 2007 que quase não reconheço como meu. Poderia dizer que foi por ter sido feito há já algum tempo, mas o mesmo não acontece com “A boca no trombone”, um outro livro ilustrado nesse mesmo ano. É um livro que tem recebido boas críticas. A Cristina Valadas, pintora e ilustradora que muito admiro, disse-me, há uns dias, que tinha descoberto este meu trabalho recentemente e que o considerava um dos meus melhores. Não posso deixar de me sentir orgulhosa, mas preferia que tivesse sido com um outro qualquer livro, com o qual me identificasse mais. Creio que é um bom exemplo do meu desfasamento de gosto que mencionava no início da resposta. Não me reconheço em grande parte da linguagem e considero um livro de transição, sem grande peso no meu portefólio. Que me perdoe o José Vaz (acho que nunca lhe fiz esta confissão), autor deste texto tão poético. A culpa é, sem dúvida, minha, por não ter conseguido fazer justiça a um texto tão inspirador. Felizmente, temos outros livros em conjunto, mais merecedores do seu talento.

A ilustração que escolhi deste livro é um dos meus “patinhos feios”. Apresento-vos a Celestina e a Abu, bruxa e coruja mimadas, concentradas na grande missão de destruir o Pai Natal.

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