Raphael Saadiq no centro do Sudoeste

Mais do que alinhar o pensamento e a ação pelas ocas generalidades de um festival com a dimensão trágica do Sudoeste, vale a pena focalizar um segmento significativo da nossa prática de consumo musical intergeracional em dois momentos do seu plano de festas que – coincidências e conveniências contratuais à parte – garantem praticamente sozinhos uma renovada credibilidade para o formato (sobretudo tal como é praticado por cá…). Pelo menos no percurso temporal da felicidade com que os evocamos e com que os planeamos viver…

Noite como a desta 5ª feira, 4 de agosto, não há na história da música tocada na Zambujeira do Mar ou de qualquer outro lugar deste Portugal: às 9.15, deixemo-nos dominar pela ginoide invertida e, alternadamente, pelo protótipo de humana biónica que coexistem em Janelle Monáe e na sua experiência mutante de r&b e pop, american songbook e hip hop, punk e breakbeat. Matriz intrinsecamente futurista e tão esclarecida nas suas raízes clássicas, de coração orquestral e alma digital, encravada numa sessão cinematográfica contínua que intercala utopias futuristas de Fritz Lang com delírios sentimentalistas de Rodgers & Hammerstein, o seu longa duração “The archandroid – Suites II & III” (Bad Boy Records, 2010) e, sobretudo, o EP “Metropolis, Suite I – The chase” (Wondaland, 2007) são entradas inevitáveis na galeria da mais exigente soul deste século.

Terminada esta viagem, e antes da incursão de Snoop Dogg no seu universo moral pedagogicamente interdito a menores de 18 (uma tardia estreia em terreno nacional marcada para começar 45 minutos depois da meia noite), a mais justa medida de um milagre musical passível de se dar num cenário como este acontecerá a partir das 10.55 sob a gestão de Raphael Saadiq, cantor e compositor de talento insuperável no recente contexto da soul de “condição” masculina. Ainda em altíssima rotação pelos gira-discos e pelos converte-códigos-binários que nos rodeiam, o recente “Stone rollin'” é – de um modo ainda mais irrefutável do que os outros três álbuns da sua imaculada discografia em nome próprio – uma rigorosa e exemplar lição de história da música negra que espoletou novos modos éticos e estéticos na metade final da década de 60. Mais – é toda uma escola, toda uma vida de aprendizagem e crescimento. Fundamental, portanto, para as crias dos pais que valorizam a inestimável e insubstituível energia nutritiva que é exclusiva deste grupo de alimentos para a nossa alma musical.


“Stone rollin'” começa por declarar-se em tom reverente a Sly & The Family Stone (parafraseando sobretudo “Dance to the music”, mas também “I want to take you higher”) e a tudo o que o coletivo de São Francisco aprendeu com Chuck Berry ou com Bo Diddley. E conclui-se – sintomaticamente com uma faixa não creditada, e não autónoma, mas que consegue o feito de se erguer ainda acima da já tão elevada fasquia das restantes – com a participação de Larry Graham, vocalista e sobretudo baixista seminal da Family Stone e, posteriormente, da sua Graham Central Station. Pelo caminho, ergue-se uma encenação dramática que incide sobre o paradigmático sincretismo de Saadiq enquanto herdeiro privilegiado dos códigos criativos de Stevie Wonder, Curtis Mayfield, Marvin Gaye, Bobby Womack, Ray Charles, Little Walter, Dr. John, dos Rolling Stones prepassados pela soul, das magias sonoras negras que se forjaram nestes períodos em Philladelphia, Memphis ou Detroit, em empreendimentos como a Chess, a Motown ou a Stax. Tudo como um dispositivo que regularmente dialoga com a narrativa contemporânea que, ainda assim, o sustenta. Raphael Saadiq reforça essa atemporalidade com uma ideia sábia de Isaac Hayes: “There’s no such thing as old school. Either you went to school or you didn’t”.

Mais ainda do que o anterior “The way I see it” (Columbia, 2008), este “Stone rollin'” é ritmicamente pragmático, mais uptempo, mais impuro e instintivo e físico, eclético mas coerente, como uma prodigiosa súmula do trajeto solista que o enquadra. Saadiq cunhou a sua obra prima como “Instant vintage” (Universal, 2002), mas esse é cada vez mais notoriamente um estatuto transversal da sua obra, extensível a todas estas canções e a tudo o que o norteamericano nos tem permitido aos ouvidos.

 

“Radio”:

 
“Stone rollin'”:

 

4 agosto
Raphael Saadiq, Janelle Monáe, etc.
Festival Sudoeste TMN ’11
Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar
[a partir dos 12 anos]

 

disco “Stone rollin’”, de Raphael Saadiq
Columbia / Sony, 2011
[a partir dos 12 anos]

 

 

Moreno Fieschi

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