A abertura de “Guillaume Tell”, de Gioachino Rossini

Quando Rossini compôs a abertura de “Guillaume Tell”, estreada a 3 de agosto de 1829, em Paris, não pensou certamente no destino que a esperava. Baseada numa lenda suíça, esta ópera, com libreto de Étienne de Jouy e de Hippolyte-Louis-Florent Bis (a partir de um texto de Friedrich Schiller), e em particular a sua abertura, evoca hoje outras heranças. Muitos associam ainda Wilhelm Tell ao episódio do herói caçador que, em ato de rebelião contra um tirano, acaba por ser obrigado a acertar numa maçã pousada na cabeça do filho com o seu arco e flecha. Todavia, a popularidade com que a obra é recorrentemente citada, como é o caso da sinfonia n.º 5 de Shostakovich, acabou por transformá-la num marco parodístico. Por outro lado, a utilização no cinema de animação, precisamente pela sua dimensão impressionista e carga imagética, torna-a na banda sonora ideal para tempestades, auroras e cavalgadas.

Para os fãs de Walt Disney, recordemos o Mickey maestro, em 1935, dirigindo a abertura em “The band concert”. Num concerto ao ar livre, encontramos um esforçado regente que tenta conferir seriedade e rigor interpretativo a uma performance que acaba por resultar numa deliciosa mistura de estilos e ritmos, num jogo em que o cómico de situação e de personagem é adjuvado pelas múltiplas e divertidas incongruências técnicas (como por exemplo os posicionamentos incorretos e/ou impossíveis dos instrumentos), e pelas citações e transições musicais inesperadas. Um dos momentos altos do filme sublinha as semelhanças pontuais entre uma secção da melodia de Rossini e uma canção popular americana, “Turkey in a straw”, usada por músicos ambulantes e vendedores de gelados desde meados de 1820-30. Na verdade, quando o vendedor de gelados Pato Donald, com coerência e hercúlea determinação, toca “Turkey in a straw” no seu pífaro (melhor, nos seus pífaros em permanente reprodução), toda a orquestra o segue sem hesitação. Uns minutos mais tarde, os movimentos corporais do rato Mickey, tentando livrar-se do incómodo que será ter uma bola de gelado a escorrer pelas costas abaixo, suscitam, por parte da orquestra, a transição imediata para um estilo dança do ventre.

Diz-se que o maestro Arturo Toscanini, quando viu o filme pela primeira vez, gostou tanto que saltou de rompante para a zona técnica, pedindo a um projecionista perplexo que o voltasse a passar.

 

 
E para os fãs da banda desenhada, que vibram ainda com as memórias da cavalgada de “The lone ranger”, o Mascarilha, no seu cavalo branco, Silver, no genérico das séries, em filme e em desenhos animados que passaram na RTP, aqui temos novamente Rossini:

 

 

 

Aguardamos agora que, na senda de “Os piratas das Caraíbas”, e também com realização de Gore Verbinsky, Johnny Depp encarne Tonto, o índio amigo e companheiro de Lone Ranger, no combate à injustiça e aos fora da lei. Com um pouco de sorte, talvez o nome de Rossini continue a figurar na ficha técnica.

 

Paula Pina

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Filed under Cinema, Música, Ram Ram, Televisão

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