Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 8)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

 

Cria Cria: Por que é que acha que as pessoas desenham? E por que é que a Marta desenha? Ainda sente a mesma motivação que tinha quando começou a ilustrar?

Marta Madureira: Há diferentes formas de abordar o desenho. Desenho artístico, desenho como conhecimento, desenho técnico, desenho ilustrativo, etc. São inúmeras e muito diversas as configurações e as motivações do desenho. No caso particular da ilustração, penso que o que nos leva a desenhar é a vontade de criar imaginários paralelos. Algo que só existe em palavras e que nós, ilustradores, formalizamos em imagens, tendo em conta a nossa interpretação e as nossas vivências. Porque neste tipo de abordagem ao desenho, não há como negar, há muito de pessoal. Não se trata apenas de executar um desenho (com toda a criatividade que essa tarefa exige), mas também de idealizar o seu contexto. Assim, através de referências quase sempre literárias, os ilustradores fabricam imagens. Numa perspetiva pessoal, acho (porque não é assim tão claro racionalizar o que fazemos) que o que me leva a ilustrar é exatamente esse poder momentâneo de construir imagens. Estas imagens têm uma forte apetência para comunicar com os outros. O leitor fará uma interpretação do texto através das imagens que o ilustrador criou. Este tipo de abordagem ao desenho ilustrativo pode ser visto como uma tradução onde o ilustrador é o intermediário e uma mais valia num processo de comunicação que se torna assim mais rico pelas sugestões da imagem.

Ao longo destes ainda curtos anos de trabalho tento que o tipo de desenho que faço evolua. Há uma vontade incondicional de crescer de trabalho para trabalho e de não estagnar naquilo que já foi feito. E, paralelamente, as motivações que me levam a ilustrar ganham também novas perspetivas. Tenho sentido que o trabalho não é só o que fazemos mas também as relações pessoais e profissionais que esse trabalho nos proporciona. Fundado nestas relações, surgiu a necessidade de evoluir, não apenas no trabalho focado na ilustração, mas também na configuração global do processo, desde a escolha do texto à finalização do livro. É dessa vontade que surge a Tcharan, uma editora que criei com a Adélia Carvalho no final de 2010, direcionada para a literatura infantojuvenil. Percebemos que as duas juntas, a Adélia enquanto escritora e dona de uma livraria, a Papa-Livros, e eu, enquanto ilustradora e designer, conseguiríamos as ferramentas necessárias para nos arriscarmos na edição. Depois de um ano de experiência, dois livros editados e três a serem lançados até final do ano, o balanço é muito positivo e faz cada vez mais sentido. O projecto Tcharan permitiu criar um espaço onde nos aproximamos mais dos nós próprias, com a liberdade necessária para as escolhas que consideramos melhores. Trouxe ainda uma nova e boa sensação. Como editora, passei para o outro lado, o de observar a ilustração. Temos o privilégio de poder convidar para trabalhar connosco as pessoas que sempre admirámos. Ao gosto de ilustrar junta-se agora o gosto de fazer bons livros com bons amigos. E gostar, genuinamente, de ilustração.

 

ilustração originalmente publicada no livro “A crocodila mandona” (Tcharan, 2010)

 

Marta Madureira: “A crocodila mandona” é o primeiro livro da Tcharan. Neste primeiro objeto, quisemos materializar o ponto de partida da editora enquanto projeto meu e da Adélia Carvalho. Assim, as ilustrações são minhas e o texto é da Adélia. É normal que o início de um novo projeto de ilustração demore. Mas nunca um livro me custou tanto a começar como este. A responsabilidade de ser o nosso primeiro, estava a ser demasiado pesada. Comentários de amigos, como “o primeiro tem que ser especial”, “o primeiro é o vosso cartão de visita” e “o primeiro vai ser sempre lembrado”, ainda que de entusiasmo e força, acabaram por contribuir, de forma involuntária, para um início de trabalho angustiante, mais ainda do que o normal. Depois de uns dias à deriva, forcei-me a focar no essencial. Não há livros melhores ou mais importantes. Cada trabalho é único. E, como em todos os livros, consegui finalmente parar, fechar os olhos e sentir-lhe o pulso.

O texto da Adélia sugere um jogo tradicional. Lembrei-me, desde a primeira vez que o li, de um jogo que jogava em pequena, o “minha mãe dá licença”, onde o jogador vai avançando ou recuando, dependendo da vontade da “mãe”. Também no texto de “A crocodila mandona”, a crocodila Dalila permite, ou não, a passagem para o outro lado do rio, dependendo da prenda que lhe é oferecida, numa repetição constante da frase “Senhora crocodila, posso passar? / E o que trazes no bolso para me dar?” Construí, então, o conceito do livro à volta da ideia de um Jogo da Glória. O corpo da crocodila estende-se ao longo das páginas do livro como se fosse o tabuleiro do jogo que o leitor vai percorrendo, atento aos obstáculos (picos, buracos, escadas, etc.) que a crocodila vai colocando no caminho. Esse corpo/caminho da crocodila vai sendo metamorfoseado de acordo com o que o texto vai sugerindo: ora é um caminho de folhas e uma possível armadilha para o leitor; ora é um menino fantasiado de leão; ora é uma perna vitoriana com sapatinho de verniz; ora é, como na imagem, um cachecol de penas macias.

Tcharan! Não posso deixar de referir com alguma vaidade que o livro foi Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2010, um bom presságio para a estreia da nossa Tcharan.

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