Robert Breer [1926 / 2011]

 

Morreu Robert Breer. Era professor na Cooper Union, uma das mundialmente mais prestigiadas escolas de cinema americanas. Chegava todos os dias, com o seu inconfundível perfil grisalho, um discreto sorriso e os inevitáveis cartõezinhos de 4X6. Os alunos adoravam nele a imensa generosidade, o espírito alegre, o humor irónico. Explicava com uma singeleza cativante, partilhava os segredos que revolucionaram a criação cinematográfica com a mágica simplicidade de quem conta uma história. Nos seus olhos, escondidos atrás das lentes de uns óculos de massa, passavam incessantemente filmes. Em todos eles se lia uma palavra: paixão.

 

 

Apaixonou-se por um BMW de 1935, descapotável, e por piruetas de voo em bimotor. Estudou engenharia (herança paterna, certamente), mas foi na pureza das pinturas abstratas de Mondrian que encontrou o seu caminho. Só que, e ao contrário de Mondrian, as suas formas em breve se enchem de desassossegos, tornam-se implicativas, digladiando-se em recintos de arestas e irregularidades. Metamorfoses, instabilidade de formas, de linhas, de cores, os opostos atraindo-se, complementando-se e anulando-se.

 

 

Foi membro fundador da vanguarda americana, pioneiro desafiador da animação experimental, influenciado pela pintura e pelos processos mecânicos do cinema de animação. Conviveu com artistas de referência, tanto na Europa como nos Estados Unidos, do dadaísmo à Bauhaus, passando pelo construtivismo russo, pela estética beat e pela pop art. Do seu interesse pelo cinema “cubista”, ou melhor, pela utilização de formas geométricas em movimento no espaço e no tempo, resultaria o nascimento de uma nova estética fílmica. O seu gosto pela experimentação, pela arte cinética, pela abstração geométrica, e pelas manualidades com cartões e flip-books, tornaram o estilo de Breer absolutamente único. Nas suas obras não é difícil descortinar a influência de Paul Klee, por exemplo, mas nele encontramos igualmente a rapidez e estilo “cartoon-like” dos desenhos animados e das tiras de BD, incorporando objetos do quotidiano, tintas em spray e lápis. Recorre ainda a técnicas e mecanismos dos primórdios do cinema, e talvez resida aqui outra das originalidades de Breer: criar o novo no velho, o velho no novo, misturando a curiosidade científica e apego arqueológico, com novas visualidades e tecnologias.

 

 

O artista que criou “floats”, nos anos 60, e os recriou nos anos 90, e que definia estas “esculturas animadas” como “moluscos motorizados”, soube reduzir a poeira a sólida solenidade das esculturas convencionais. Movimento contra movimento, metamorfoses de formas e cores, de imobilidade e de velocidade, de representatividade focalizando a  abstração. Revejam-se os fluxos e colisões destes “gastrópodes”, que, libertos dos seus pedestais, provocam o riso, mas sem nunca tombarem na escadaria do excesso, sem nunca escorregarem para a mediana caricatura. Personagens de verdadeiras comédias escultóricas, parece que nos obrigam, sem comentários, a refletir sobre as bases teóricas e críticas do minimalismo.

 

 

Quem conseguir, que voe, com ou sem crias, até Gateshead, no Reino Unido, e vá ao Baltic Centre for Contemporary Art. São dois pisos com criações de Breer, até 25 de setembro.

 

 

Paula Pina

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Filed under Artes plásticas, Cinema

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