Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 9)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: É ilustradora a tempo inteiro, 24 horas por dia? Desenha mentalmente tudo o que vê, estando acordada ou a dormir? E toma notas ou faz esquissos sobre essas visões? O que é que tem de ter sempre consigo para o poder fazer?

Marta Madureira: Não sou ilustradora a tempo inteiro, mas quase tudo o que faço profissionalmente passa pela ilustração. Se por um lado é bom, porque canalizo todo o esforço num só sentido, por outro, corro o risco de me encerrar num único assunto. Tento, por isso, estender o meu interesse a outras áreas vizinhas, como é, por exemplo, o design gráfico, disciplina base da minha formação, que entendo como uma área vasta e multidisciplinar, onde coexiste a ilustração.

Não dependo financeiramente do trabalho de ilustração. O meu trabalho base, ao qual dedico a maior parte do tempo e esforço, é dar aulas. Sou professora no IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), onde dou aulas de desenho e ilustração, na licenciatura de Design Gráfico e no mestrado de Ilustração e Animação. Tendo em conta a natureza das aulas que dou, tenho a sorte e a vantagem de fazer o que gosto e de me sentir plenamente preenchida: primeiro, porque a relação com os alunos traz sempre alguma frescura e as aulas são, por norma, uma partilha; depois, porque o trabalho de docência me ajuda a tornar o processo de trabalho criativo mais consciente, e não meramente intuitivo. Quando temos alunos para orientar somos obrigados a pensar no “porquê” das coisas, porque temos, efetivamente, de verbalizar os problemas e as soluções. Isso ajudou-me a construir um vocabulário mais sólido e a tornar-me mais consciente do que faço; e ainda porque a preparação das aulas me obriga a estar permanentemente atualizada e a investigar cada vez mais as vias da ilustração.

Respondendo à segunda parte da questão, o meu desenho é, numa primeira fase, essencialmente mental. Não ando com nenhum caderno de folhas especiais, apenas o suficiente para registar, em palavras, uma ou outra ideia. Tudo acontece no cérebro e no encaixe das ideias. Quando recebo um texto, mesmo que tenha muito tempo para o ilustrar, começo logo por lê-lo. Assim que estabeleço o primeiro contacto, o texto começa a sedimentar-se na minha cabeça e aos poucos, ainda que de forma inconsciente, vai-se agrupando em ideias e montando por si só um imaginário. Só numa segunda fase é que essas ideias passam para o papel. Primeiro em esquissos rápidos de distribuição de mancha e pesos visuais (storyboard, no caso de ser um livro). Só depois em pranchas, mais próximas do que será a ilustração final. Depois da ideia, vem a formalização da mesma. Essa forma vai sendo moldada pela experimentação e quase nunca acaba da maneira que primeiramente idealizei.

 

ilustração originalmente concebida para packaging para conservas José Gourmet (2010)

 

Marta Madureira: As relações afetivas que criamos em ambiente académico são fundamentais. Enquanto alunos, com os colegas e professores. E enquanto docentes, com os alunos que ano após ano vamos conhecendo. Essas relações, quando bem afinadas, proporcionam futuras relações de amizade e de trabalho. E não há nada melhor do que partilhar projetos com pessoas de quem gostamos. Do meu tempo de faculdade, guardo muitos colegas que são hoje amigos. E muitos professores com quem mantenho, até hoje, relações próximas de estima e amizade.

Esta ilustração foi um (dos muitos) convite feito por um professor e amigo, o Gémeo Luís (Luís Mendonça). Faz parte de um conjunto de embalagens desenvolvidas para uma marca inovadora de produtos gourmet, o José Gourmet. O design é da responsabilidade do Luís Mendonça, que entregou cada uma das embalagens de conserva (num total de 12) a um ilustrador. A mim, calhou ilustrar a sardinha em tomate. Este tipo de encomenda tem contornos diferentes do que os que normalmente associamos a um trabalho “tradicional” de ilustração. Mas a contextualização de imagens em ambientes diversos é cada vez mais uma realidade e um potencial futuro para a ilustração. A diversidade de suportes e as diferentes aplicações da ilustração a meios distintos confirma que a área não é estanque e valoriza-a enquanto objecto de comunicação.

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