Agosto: férias, feiras, festas, festivais [1ª parte]

Agosto é tempo de férias. Agosto é tempo das festas: dos festivais da moda às romarias ancestrais, das celebrações anuais, sazonais, patronais, às feiras mais ou menos medievais. Das bandas da rádio aos duos de karaoke, dos artistas da televisão aos que têm muito sucesso lá fora. Um pouco por todo o lado, das aldeias esquecidas nos mapas mais atualizados (sobretudo nesses e nos GPS), às recentemente promovidas vilas e cidades, das sociedades, associações filarmónicas, recreativas, grupos desportivos, culturais e religiosos, há-as para todas as bolsas e para todos os gostos, com ou sem fogo de artifício (geralmente com).

 

1.

Os preparativos começavam alguns dias antes. As mulheres amassavam e coziam o pão nos fornos de lenha. Matavam umas galinhas, que assavam no final, aproveitando as últimas brasas. Faziam as filhoses e os bolos tradicionais – bolo de mel e erva doce, bolo de figo, bolo de alfarroba, bolo de amêndoa e gila. Os morgados, as lesmas, os folhados e os dom rodrigos eram feitos exclusivamente pelas mulheres mais velhas, seguindo secretas receitas ancestrais. De vez em quando, uma das jovens casadoiras era convidada a participar no ritual da confeção. As outras, invejosas, espreitavam pelo postigo de madeira da cozinha e tentavam decorar os movimentos, dançantes, firmes, ritmados das mãos preparando as massas e recheios delicados. Os miúdos, depressa enfastiados dos jogos habituais, dos livros lidos e relidos (Patinhas, Mónica e Cebolinha com fartura, “Os cinco”, “A aventura”, um ou outro “Astérix” e “Tintin”) e ressentidos pela falta de atenção, arriscavam, de quando em vez, uma corrida rápida até à cozinha, metendo os dedos sujos de terra na massa das formas, e encolhendo-se à esperada palmada e à coadjuvante exclamação: “- Ai, miúdo d’um raio!”. As meninas, mas só as mais bem comportadas, teriam o direito de lamber as colheres de pau e de raspar os restos da massa dos tabuleiros, antes de voltarem a investir nas fatiotas de crochê para as bonecas  (as “matrafonas”), nos modelitos de papel  para as bonecas de cartão, ou nas leituras da “Anita” ou de volumes da Condessa de Ségur integrados na coleção azul ou cor de rosa.

Os homens iam à adega e das pipas deixavam jorrar o vinho, da cooperativa, para dentro de garrafões envoltos em vime, que rolhavam rápida e eficazmente com as rolhas da fábrica de cortiça local. Limpavam e alimentavam os animais, demorando-se a escovar e a entrançar as crinas dos cavalos e da mula. Lembro-me de uma velha égua branca e cinzenta (a Centenária), a espinha excessivamente curvada, que se enchia de ar sempre que a selavam. E lembro-me da mula, que era a Mula, e de um burrico cinzento, o Bom Remédio, que carregava as infusas (cântaros de barro) e as caixas da fruta.

As primas adolescentes, de mini saia e longas tranças, guardavam nas malinhas os rosários, os véus e as velas para a missa e procissão. Entre cochichos, troca de revistas femininas (Cláudia, Crónica   Feminina, Modes et Travaux), bordados e conselhos de estética, de vez em quando, uma carta com selos exóticos ou uma pequena Foto Custódio era retirada de entre as páginas de um romance para raparigas (geralmente da série “Brigitte” ou um qualquer título de Odette de Saint-Maurice) e comentada pelas outras. Depois, pressurosas, vinham ajudar as crianças a recortar as flores de papel com que iríamos enfeitar as carroças. Ou melhor, como sempre me fizeram questão de explicar, as carretas (para a lenha, para o  vinho e para o “bicho”, que nunca percebemos bem o que seria…), as carroças (para as famílias e crianças) e a caleche (certamente porque tinha toldo, para as grávidas, bebés e para a bisavó).

Ao entardecer, as mulheres embrulhavam o pão, os chouriços, o presunto, os bolos, em panos axadrezados, de cornucópias ou com galos de Barcelos meio desbotados. Empilhavam panelas, copos, tigelas, pratos e travessas de esmalte pintado dentro de grandes cestos de verga. Os homens traziam das hortas os melões e as melancias, e enchiam uns cabazes com laranjas, tangeras, tangerinas e clementinas, figos, pêssegos e uvas. Sentavam-se depois em roda, nos alpendres ou à porta da rua, amolando as facas, faquinhas e canivetes, uns; enrolando tabaco, outros: os mais pequeninos tiravam as suaves folhinhas de papel, à vez, e também à vez lambiam os bordos. Os mais crescidos eram autorizados a cortar os cigarros. De vez em quando, um dos primos mais velhos fazia desaparecer uma rosquinha de vício, que fumava às escondidas, com a anuência do avô, que se distraía de propósito, não reparando no desaparecimento. Um dos tios, fingia que afinava a viola e o bandolim, e ensaiava só para si as modinhas, apanhadas de ouvido da rádio, orelha inclinada para a caixa e dedos calejados amaciando as cordas. Os que se diziam pescadores preparavam cientificamente o equipamento.

Assim que a noite caía, e os mais pequenos adormeciam, eram agasalhados e deitados, meio embrulhados em mantas feitas de retalhos, no fundo das carroças. Uma das carroças era maravilhosa: rodas e raios amarelos, e depois dividia-se em contrastes de azul, vermelho e verde de madeira pintada. Tinha assentos corridos dispostos dos dois lados. Famílias inteiras metiam-se à estrada, as candeias de petróleo alumiando os caminhos ladeados de valados de pedras instáveis. De vez em quando, coelhos e zorras (raposas) atravessavam-se à nossa frente. Contavam-se anedotas (algumas bastante impróprias), adivinhas e histórias, como a do Esconderijo do Remexido, e lendas de mouros. A noite cheirava a alecrim, a rosmaninho, a orégão. Outras vezes, a bela-luisa, a urze e erva-azeda. As rodas esmagavam o solo xistoso, em algumas zonas coberto de seixos rebolados, num chiar oleoso. As grandes copas das alfarrobeiras pareciam castelos e, nas suas dramáticas ondulações dos ramos e folhas, as figueiras pareciam monstros prestes a levantar-se do chão. O casario branco, caiado e brilhante do dia, tornava-se fantasmagórico. Ao passarmos por portões, alguns cães saíam-nos ao caminho, cumpridores, todos rosnadelas e dentuças fluorescentes. Por vezes, passávamos por um tanque de rega, onde se banhava a mais gloriosa lua do sul.

 

[continua na próxima 6ª feira, 26 de agosto]

 

Paula Pina

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