Três meninos no Lago Tanganyika

São três crianças negras. A mão de um quarto menino fica cortada, do lado esquerdo. Correm em direção à água, e nela entram, em tropel de movimentos, sombras e percussões de espaço. No seu ímpeto estático de corpos nus em liberdade, captado pelo fotógrafo, atravessam o tempo. Amanhã, dia 23 de agosto, celebra-se o Dia Internacional em Memória do Comércio de Escravos e sua Abolição. Amanhecia na Ilha de Santo Domingo (Haiti e República Dominicana), nesse dia de 1791, quando se deu a sublevação de escravos que marcou o princípio do fim do seu comércio transatlântico.

 

 

Estas crianças que correm para a água são aves, bailarinos, anjos e deuses, na exata memória de séculos de penas, correntes, naufrágios e lágrimas em longes terras. A água é a do Lago Tanganyika, na Libéria. O ano, o de 1930. A fotografia: “Liberia, 1930”, publicada na revista de artes francesa Arts et Métiers Graphiques, no ano seguinte. O fotógrafo: Martin Munkácsi. De origem húngara, Munkácsi tinha 34 anos, e era já um dos fotógrafos mais bem pagos do mundo, trabalhando na Alemanha, para a Berliner Illustrirte Zeitung (BIZ). Nesse ano, viajou para África, tendo como missão documentar as mudanças na vida tradicional dos povos da Libéria.

São muitas as memórias, mistérios, segredos e perplexidades que envolvem a fotografia. Um desses mistérios, nunca resolvido, aparentemente, é este: como veio o fotógrafo parar ao Lago Tanganyika, algures entre o Congo, o Burundi, a Tanzânia e a Zâmbia, a milhares de quilómetros da Libéria e do centro da sua missão? O Lago Tanganyika, pertencendo atualmente à Tanzânia e ao Congo, é um dos mais longos e profundos do mundo. Pela sua importância estratégica, esteve sob o domínio alemão e foi palco de algumas das batalhas navais mais duras de África, opondo a Alemanha à Bélgica e aliados em 1915/1916, no decorrer da Primeira Guerra Mundial.

Uma outra dúvida, que ainda hoje incomoda os especialistas em história da fotografia: trata-se de um trabalho de estúdio? “Liberia, 1930”, ou “Néger fiúk a Tanganyika tavon. Libéria, 1930 körül” (ou “Boys running into the surf at Lake Tanganyika, Liberia about 1930”), terá sido tirada recorrendo a uma das novas máquinas fotográficas de 35mm, também usada por Cartier-Bresson e por muitos outros fotojornalistas, mas que Munkácsi ainda recusava. Por outro lado, alguns fotógrafos consideram-na trabalho de estúdio, de que o autor também não era apologista. Em algumas versões-pirata e pseudo-edições da fotografia, o braço do quarto menino não aparece, em ignóbil tentativa de aprimoramento.

 

 

Munkácsi, que começara a sua carreira como fotógrafo desportivo e fotojornalista, emigrou para os Estados Unidos em 1934 e tornou-se uma das referências da fotografia de moda, trabalhando para a Harper’s Bazaar e para a Life. A originalidade dos ambientes escolhidos, os ângulos desconcertantes e a fria racionalidade do seu olhar sobre a atmosfera glamorosa e as grandes estrelas do cinema da época, obrigam-nos a refletir sobre as inovações técnicas (como o aparecimento da Leica, em 1925, ou as emulsões de película mais eficazes) e sobre as novas abordagens estilísticas que despontavam nos anos 20/30. Graças a Munkácsi, abandona-se gradualmente o ponto de vista estático, pictorialista, para se privilegiar o momento e o movimento, a rapidez e a energia, a surpresa e o inusitado.

Foi também esta fotografia, ícone de um ícone, portanto, que contagiou irremediavelmente um Henri Cartier-Bresson pintor, levando-o a decidir-se por uma carreira como fotógrafo: “Em 1932, vi uma fotografia de Martin Munkácsi, de três crianças negras correndo para o mar e, devo dizer, que foi essa mesma fotografia que, para mim, produziu a faísca que ateou o fogo-de-artifício… e me fez subitamente perceber que a fotografia podia alcançar a eternidade através do momento. Não conseguia acreditar que uma coisa dessas podia ser captada pela câmara. E, ‘diabos me levem’, disse eu, agarrei na máquina fotográfica e fui para a rua.”

Conta-se que Robert Capa, também ele judeu e exilado, terá dito que “para se ser um bom fotógrafo não é preciso ter só talento. Também é necessário ser-se húngaro.” Na Royal Academy of Arts, em Londres, podemos ver, até dia 2 de outubro, a exposição “Eyewitness – Hungarian photography in the 20th century”. São 200 fotografias, abrangendo um período entre 1914 e 1989, da autoria de artistas como Brassaï, Capa, Kertész, Moholy-Nagy e Munkácsi, entre outros, e que nos levam a acreditar que a afirmação de Capa tem tanto de ironia como de verdade. Todos estes fotógrafos sentiram na pele a humilhação, a dor, a perseguição. Todos eles passaram pelo drama do exílio, pelo recomeço difícil numa terra distante. Todos eles, sem exceção, nos deixaram legados artísticos valiosíssimos. Mas, mais do que tudo o resto, ensinam a olhar e não nos deixam esquecer.

 

Paula Pina

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