Agosto: férias, feiras, festas, festivais [2ª parte]

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Chegava-se de madrugada, antes do nascer do sol, que é quando a água está “benta”, para a Alvorada e “Banho santo”. No largo, uma confusão de gentes, animais, turistas e “serrenhos”, burgueses da cidade e desportistas do Futebol Clube local. Havia os Caldas de Almeida, os Vilarinho, os Vasconcelos, os Figueiredo de Mascarenhas, os Leite, os Horta Correia, os Oliva e Grade. Havia os Gregório, os Baptista, os Anselmo, os Neves, os Bento, os Figueira, os Machado Guerreiro, os Netto, os Pereira Caldas. Havia os Negrão, os Grave, os Pessanha, os Sequeira, os Palma, os Santos, os Mourinho, os Vicente, os Ventura, os Nogueira, os Domingos, os Viola, os Rosa e os Mealha. Cada grupo parecia saber exatamente qual o seu lugar. Descarregava-se a merenda. Os banhistas despiam-se com o maior recato possível e entravam na água em jejum. “Cada banho vale por nove e cura os reumatismos”. Eram sobretudo jovens, mulheres e crianças. Para o desjejum, meio copinho de aguardente de medronho e umas fatias de pão com chouriço ou uma fatia de bolo e fruta. Os mais velhos agarravam nas canas de pesca e afastavam-se, para irem “pescar ali um pexinho”. Alguns iam ajudar a varar os barcos acabados de chegar e assistir à lota. As mulheres, ou ficavam vestidas e entravam na água só até aos joelhos, perseguindo as crianças, ou usavam uns imensos fatos de banho, que as cobriam quase até aos joelhos. As mais jovens e ousadas, arriscavam um biquini, mas com uma toalha pelos ombros e um grande chapéu, sempre sob a atenta vigilância das mães. Havia lutas e mergulhos impiedosos, lábios roxos e lágrimas, mas pronto, ficávamos abençoados e livres de muitos males. De vez em quando, no meio de grande chinfrineira, arrastava-se até a um rochedo um animal, ou um pequeno rebanho de cabras e ovelhas, e os bichos eram relutantemente aspergidos com a água do mar, tirada de dentro de um balde.

Depois abriam-se os cestos e merendava-se na praia. Bebíamos “pirolitos”  (bebida gaseificada, fechada pela pressão de um berlinde, que comprávamos com orgulhosas notas de 20 escudos e cujo troco nos duraria para o resto do ano). Comíamos batata doce. Quando tínhamos sede, bebíamos à vez, por um único “cucharro” de cortiça, a água ainda fresca do cântaro. Os mais literatos partilhavam o Jornal do Algarve. Os mais artísticos, faziam esboços do Castelinho, dos chalês, dos Caldas e Vasconcelos, e do Mascarenhas Gregório. Alguns dormiam “a folga” à tarde. Toldos? Só uma vintena deles, armados de manhã pelo Sr. Bento, que lhes  mudava a inclinação à tarde, os armava na vertical nos dias de vento forte, e amorosamente os fechava ao entardecer. Proteção solar? Camadas grossas de creme Nivea, embalagem redonda e azul, e só nas zonas mais expostas.

Mais tarde, depois de lavagem ligeira obrigatória, mas muito amuada, num alguidar, mudava-se de roupa e os mais devotos iam à missa. O ponto alto era a procissão, por terra e por mar. Pelas ruas, seguíamos o andor com a Nossa Senhora, todo enfeitado de flores e chita, e folhas de palmeira, vindas dos chalés da terra. Abrindo o cortejo, três gaiatos “mascarados” de monges, como dizíamos, não sem alguma inveja, para gáudio de uns e despeito de outros. Os pescadores, com as suas embarcações engalanadas (lanchas, traineiras, canoas de vela árabe e botes de espicha), apinhadas com dezenas de famílias, seguiam-nos por mar. O percurso acabava na Fortaleza, onde o senhor prior, depois do sermão, rezava o terço. Pagavam-se promessas, com velas e azeite, e havia a quermesse, sempre muito concorrida.

O arraial começava com a atuação da banda filarmónica, num coreto montado no areal. Na feira, vendia-se de tudo: louças de barro, azulejos, pucarinhas de metal, miniaturas de casas, utensílios agrícolas, mantas e almofadas de retalhos, colchas e rendas de bilros, cestaria, roupas e joias. Cheirava a polvo assado. Comia-se: caldeirada de marisco, caracóis, sardinhas albardadas, carapaus alimados, moreia frita, papas de milho e fatias do Barrocal. Bailava-se ao som do acordeão e da concertina, das guitarras e da harmónica, eles um pouco tontos, elas muito tímidas. À medida que as crianças iam, uma a uma, tombando de sono, de novo alguém as embrulhava e acumulava numa das carroças. Só no final, o fogo de artifício, lançado do areal e dos barcos, as fazia levantar, pestanas salgadas, pesadas de sono, marcas de baba nos cantinhos dos lábios, vincos nas bochechas, penteados desfeitos. Nas suas pupilas, os reflexos das luzes multicolores subindo bem alto e desfazendo-se na noite.

Assim era, como nos lembramos, a festa em honra de Nossa Senhora, amparo dos marinheiros e pescadores, protegendo-os das tempestades, naufrágios, monstros e piratas, nos rios e no mar.

 

Paula Pina

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