“Todos fazemos tudo”, de Madalena Matoso

 

“Todos fazemos tudo” é o título escolhido para a edição portuguesa de “Et pourquoi pas toi?”, a última obra de Madalena Matoso, agora publicada pela Planeta Tangerina. Projeto original das Éditions Notari, o livro nasce de um concurso de criatividade promovido pelo município de Genebra, a cidade capital dos Direitos Humanos. Graças a este concurso, milhares de crianças de instituições do ensino pré-escolar, creches e jardins de infância, receberam exemplares gratuitos da obra.

Mais do que um livro, “Todos fazemos tudo” é um álbum puro e um jogo. Recorrendo à técnica tradicional do méli-melo, as páginas são cortadas ao meio: na parte superior surge a identidade, o rosto e tronco das personagens, e um cenário básico; na parte inferior, a ação que a personagem desempenha, a atividade profissional, de lazer ou doméstica, acompanhada por alguns elementos identificativos. A ilustração deixa de ilustrar, de acompanhar, de complementar, de acrescentar algo ao texto. Nesta obra, a ilustração é a narrativa que, sem palavras, nos permite refletir sobre os estereótipos sociais e sobre a igualdade de direitos e deveres, com uma eficácia mil vezes superior a quaisquer sermões ou moralismos, projetos ou preleções.

 

 

Para além de oferecer aos mais pequenos um valioso contacto gráfico inicial com as representações do mundo e com a variedade de papéis e tarefas possíveis para cada ser humano, “Todos fazemos tudo” retrata situações do quotidiano, facilita o reconhecimento de objetos e cenários, nomeia-os, e até conta uma, várias, muitas histórias. A leitura visual propicia a compreensão das relações possíveis entre cada página (ou pedacinhos de página). É um livro-jogo para o leitor, mas terá sido igualmente um jogo-quebra-cabeças para a autora. Para além de talento artístico, gráfico e concetual, a ilustração exigiu um raciocínio lógico de construção matemática para que todas as possibilidades de conjugação batessem certo, quais peças de um puzzle. Algumas páginas serão, decerto, mais bem conseguidas do que outras, mas as pequenas incongruências dão ainda mais encanto à obra. Procurar sentidos, formular hipóteses, criar percursos e mini-narrativas a cada mudança de página inesperada, identificar indícios que nos conduzam à decifração das atividades em causa (algumas mais convencionais, outras mais intrigantes), dialogar com a possibilidade de continuação do processo de construção de outras imagens, quer individual quer coletivo – “Todos fazemos tudo” poderá tornar-se uma presença significativa em qualquer contexto pedagógico, graças às possibilidades criativas que, quase sem esforço (aparente), sugere.

 

 

Embora claramente centrado num convencional modelo europeu de vida, e talvez precisamente por isso, pode constituir uma base de trabalho interessante, lançando novos desafios: como seria este livro se tivesse sido criado tendo em conta uma realidade geográfica diferente? E se tivesse surgido noutra época, mais ou menos distante? Como imaginamos que poderia ser esta obra dentro de cem anos?

O leitor é cocriador da obra, decidindo o rumo que deseja dar à narrativa visual: sou uma avó babada, mas posso ser campeã de surf; sou um cientista importante, mas não me posso esquecer de pendurar a roupa; sou mulher, mas conduzo um trator potente; sou homem, mas escovo com esmero o cabelo da minha filha; sou de raça caucasiana, mas os meus filhos são de raça negra… Se “Todos fazemos tudo”, “porque não tu”?

 

livro “Todos fazemos tudo”, de Madalena Matoso
Planeta Tangerina, 2011
[a partir dos 12 meses]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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