Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, última semana)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu estilo ao verão de 2011, recebemos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho que ficámos a conhecer melhor aqui no blogue até hoje, momento que marca o fim desta “residência” estival.

Não queremos deixar de formalizar aqui o nosso mais profundo agradecimento à autora pela imensa beleza e inteligência do trabalho que connosco partilhou, bem como pela dedicação absoluta que, semana após semana, devotou ao nosso desafio.

 

Cria Cria: Com o excesso de oferta no campo da ilustração que aconteceu em Portugal (e um pouco por todo o mundo) nesta última década, acha que o mercado ainda consegue ser justo para quem faz os trabalhos de maior valor artístico? O crescimento exponencial da oferta tem sido devidamente acompanhado pelo crescimento da procura? Um ilustrador com talento como o seu pode viver apenas da ilustração? Tem alguns períodos de tempo sem trabalhos novos em mãos? Ou, por outro lado, recusa muitas propostas de trabalho?

Marta Madureira: Houve, de facto, nos últimos anos, uma projeção da ilustração, uma tomada de consciência e afirmação da ilustração como disciplina própria. E isso só pode ser positivo e um indício de que o futuro próximo pode ser animador. Este crescimento, que se reflete numa maior oferta, traz também maior variedade de resultados e estimula os mercados para as mais diversas áreas da ilustração. Eu, que acompanho de perto os futuros profissionais, sinto uma geração efervescente, muitas vezes sem grandes meios, mas com muita vontade de fazer ilustração. E isso repercute-se na procura, que começa a entender a ilustração como uma solução muito viável para os mais diversos suportes de comunicação. Lembro-me de, já há uns anos, os Boolab, produtora espanhola especializada em animação, numa das apresentações do OFFF (International Festival for the Post-Digital Creation Culture) congratularem os clientes por cada vez mais elegerem o recurso à ilustração e à animação como solução para a divulgação dos seus produtos.

A par desta consciencialização, há também a vantagem da ilustração estar cada vez mais associada a um ramo do design gráfico, e assim assumir um papel mais funcional e aplicável a objetos de comunicação. Muito se tem falado desta nova (que já não é nova) abordagem da ilustração e das novas oportunidades que assim se criam. Nos muitos artigos da Computer Arts sobre o assunto, destaco o “Illustration: New opportunities” e o “The illustration revival”, que focam exatamente esse novo estatuto da ilustração.

Paralelamente a isto, a internet veio permitir um alargamento do espaço, que é agora global. Permite que o ilustrador ultrapasse as fronteiras geográficas e alargue o seu leque de clientes e de trabalhos a todo o mundo. E isso é, já por si, um bom panorama. A internet tem servido ainda como grande motor para os novos ilustradores se manterem atualizados e com mais meios para a divulgação dos seus trabalhos.

Em resumo, acredito que sim, que a ilustração está numa boa fase e que há um lugar próprio para todas as suas formas. Aliás, não faria sentido de outra forma a minha dedicação ao ensino, se não acreditasse no seu futuro.

Quanto à segunda parte da questão, há respostas possíveis: não, não vivo financeiramente da ilustração; e sim, posso dizer que vivo da ilustração. A minha ocupação principal é dar aulas, e como tal não tenho a pretensão de fazer dinheiro com os trabalhos que vou tendo em mãos. Mas, ainda assim, tenho a vantagem de dar aulas dentro da área, pelo que posso entender que, sob este ponto de vista, é a ilustração que me sustenta.

Do que vejo e experiencio, penso que poucos ilustradores a tempo inteiro conseguirão viver confortavelmente da ilustração. Conheço poucos que o fazem. Mas esta é uma realidade que, em meu entender, tem tendência a mudar. Tenho tido cada vez mais oferta de trabalho e alguma margem de manobra para escolher os projetos de que gosto. Isso leva-me a acreditar que, num futuro próximo, a ilustração poderá ganhar o estatuto de profissão e permitir ao ilustrador a sua autonomia financeira, como é desejável.

 

Cria Cria: E se, para concluir da melhor forma possível esta estação como ilustradora convidada do Cria Cria, lhe pedíssemos para fazer o nosso retrato, i.e., para ilustrar a sua perceção gráfica do blogue, aceitaria?

Marta Madureira: Um Cria Cria que cria a dobrar. Com criaturas que nascem das conversas e crescem nas conversas sobre bons livros, boas ideias e boas pessoas. Bons voos, bons ventos e boas crias!

 

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