O mistério do detetive do olho de vidro

 

Foi, sem dúvida, o detetive menos carismático, o menos charmoso e, definitivamente, o mais mal vestido de sempre. Usava uma gabardine velha e deformada, de uma cor perigosamente indigna. Conduzia um Peugeot descapotável, modelo 403, de 1954 (um carro raro, já que só se fabricaram 504 exemplares), mas em péssimo estado de conservação. Fumava com evidente prazer uns charutos deploráveis e parecia sempre ter passado a noite a vasculhar em caixotes de lixo.

Os episódios da série televisiva, apesar de formulaicos, eram quase sempre brilhantes; os assassinos, eram invariavelmente espertos, o que constituía sempre um desafio; os enredos, eram interessantes, no seu estilo “open-book”, com o crime a desenrolar-se à nossa frente, expondo o culpado logo de início. Gostava particularmente daquele momento em que, parecendo desistir da investigação, o detetive voltava atrás subitamente, e, com o seu peculiar jeito atrapalhado e inconveniente, dizia: “just one more thing”. Com essa “one more thing” resolvia geralmente o mistério e apanhava o criminoso.

 

 

Sabemos também muito pouco acerca da vida familiar deste tenente da polícia de Los Angeles, brigada de homicídios, excetuando talvez as referências esporádicas à mulher (que conduz o carro novo) e a um cão. Igualmente deliciosa, a curiosidade bizarra e inesperada relativamente a pequenas coisas sem importância, o que costumava deixar os interlocutores desconcertados. Depois de um interrogatório duro, por exemplo, era capaz de perguntar subitamente: “Quanto pagou por aquela mala? Gostava de oferecer uma à minha mulher…”.

 

 

Não era forte, nem alto, nem musculado, nem atlético. Não era destemido, nem corajoso. Detestava violência e barulho de disparos. Não era jovem e enérgico, nem velho e sábio. Não tinha sequer um ar inteligente, nem um discurso arguto, nem uma voz melíflua, nem uns olhos perscrutadores. Na verdade, o seu olhar enviesado sempre foi fonte de fascínio, assim como a voz rouca e os maneirismos verbais e gestuais.

O olhar enviesado, percebi mais tarde, não era estilo. Aos três anos, uma doença maligna obrigara à remoção cirúrgica de um olho. Passou depois a usar um olho feito de vidro. Esse facto não o impediu de se tornar num líder de turma muito popular e num desportista de sucesso no basquetebol e no beisebol. Estudou literatura e ciência política, tirou um mestrado em administração pública e candidatou-se a um lugar na CIA. Foi esse olho de vidro que impediu o seu recrutamento, já no final da 2ª Guerra Mundial, quando se decidiu alistar. A recusa não o demoveu – alistou-se na marinha mercante, como cozinheiro e copeiro: “Lá eles não se importam se és cego ou não. O único que tem de ver bem no navio é o capitão. E no caso do Titanic, ele também não conseguiu ver lá muito bem…”. Há, aliás, uma história deliciosa, acerca da chegada do jovem copeiro ao camarote, que iria ter de partilhar com um matulão de ar ameaçador. Parece que, quando confrontado com a pergunta acerca de qual o problema físico que lhe impedira o recrutamento, ele se sentou e, calmamente, começou por tirar a ponte dentária que usava, colocando-a sobre a mesinha. Depois, extraiu o olho. Quando começou a fingir que desenroscava uma das pernas, o marinheiro com ar de poucos amigos teve uma súbita necessidade de ir até ao convés apanhar ar…

Tornou-se ator. Devido à sua deficiência física, atribuíam-lhe geralmente papéis menores, mas foi essa mesma deficiência física que o tornou especial, pois é o seu olhar de vidro que recordamos até hoje. A voz também. Vale a pena ouvi-lo como avô narrador, no filme de 1987 “The Princess Bride”. O presente que traz para o neto doente é um livro, o mesmo livro que o seu pai lhe lia quando estava doente, e que antes dele o avô lia ao seu pai, no tempo em que a televisão era feita de… livros.

 

 

Vale a pena revê-lo, o detetive do olho de vidro, ar de vagabundo e astúcia de Sherlock Holmes, a assobiar ou a cantarolar a velha melodia de uma lengalenga infantil inglesa:

This old man, he played one
He played knick-knack on my thumb
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played two
He played knick-knack on my shoe
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played three
He played knick-knack on my knee
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played four
He played knick-knack on my door
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played five
He played knick-knack on my hive
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played six
He played knick-knack on my sticks
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played seven
He played knick-knack up in heaven
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played eight
He played knick-knack on my gate
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played nine
He played knick-knack on my spine
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

This old man, he played ten
He played knick-knack once again
Knick-knack paddywhack, give your dog a bone
This old man came rolling home

 

 

Morreu neste verão, em junho. O ator chamava-se Peter Falk. Nasceu a 16 de setembro de 1927. O detetive chamava-se Columbo.

 

 

Paula Pina

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Filed under Ram Ram, Televisão

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