“O Senhor Cavalo-Marinho”, de Eric Carle

 

“Toda a gente sabe que são as mães que trazem os filhos dentro da barriga. Os bebés formam-se no ventre das mães, crescem, e depois saltam cá para fora – para a luz. Por isso dizemos que as mulheres dão à luz.

O que pouca gente sabe é que há uma exceção. Existe uma espécie de animal em que é o pai que cria os filhos dentro da barriga e é ele que os entrega à luz: o cavalo-marinho. Como é que isto aconteceu? É essa a história que hoje vos quero contar: uma incrível história de amor.”

Não, não é assim que começa a narrativa de “O Senhor Cavalo-Marinho”, escrita e ilustrada por Eric Carle. Mas é exatamente assim que José Eduardo Agualusa (belissimamente acompanhado por Henrique Cayatte, na ilustração e design) dá início à sua história “O pai que se tornou mãe”, um dos contos integrados no livro “Estranhões e bizarrocos”, publicado em 2000 pela Dom Quixote. Na verdade, o que Agualusa nos propõe é uma explicação maravilhosa sobre a origem de um fenómeno original na natureza, tão ao jeito dos ancestrais contos etiológicos que forneciam mágicas e míticas razões para muitos enigmas e interrogações. Por que é que as girafas têm o pescoço comprido? Por que é que a água do mar é salgada? Por que é que existem animais venenosos? Por que é que o leopardo tem o pelo malhado?

 

 

Eric Carle tornou-se mais conhecido em Portugal graças ao clássico “A lagartinha muito comilona” (1969), reeditado pela Kalandraka em 2007 – depois da estreia, pelo Círculo de Leitores, em 1990 -, com o título “A lagartinha comilona”. Mestre da colagem, do recorte, da transparência e da aguarela, perito no uso de diferentes texturas e materiais, Carle oferece-nos em “O Senhor Cavalo-Marinho” um livro etéreo, que brinca às escondidas com o leitor: aos peixes multicolores em fundo branco pontuado por ligeiras ondulações de pincel molhado em aguarela diluída, juntam-se os efeitos translúcidos das folhas de acetato, que criam a ilusão de um verdadeiro cenário aquático.

A nota da contracapa, dirigida aos leitores, explicita o objetivo didático: a vontade de partilhar o conhecimento sobre um aspeto invulgar da natureza, patente aliás ao longo de todo o percurso artístico do autor. Mas se a base de construção do livro é científica, oferecendo uma lição sobre a natureza, nunca se perde o prazer do jogo, graças à introdução do gadget da camuflagem em acetato, em que juncos, um recife de coral, algas e rocha escondem e desvendam peixes diversos, originais ou bizarros. Por outro lado, a expressividade comunicativa do olhar dos peixes e as variações encantatórias de cores e de posições compensam inteligentemente a singeleza dos diálogos. É o respeitável Senhor Cavalo-Marinho que nos acompanha numa visita guiada pelo fundo do mar, descobrindo outros peixes que, tal como ele, tomam conta dos ovos e das crias, numa narrativa estruturada pela repetição e pela alternância, entre peixes que se camuflam, e os que não o fazem: são esses que transportam ovos.

 

 

Depois de acompanhar a viagem aquática da barriga cada vez mais redonda do Senhor Cavalo-Marinho, não haverá quem não saiba nomear os peixes que, tal como ele, tomam conta dos ovos preciosos e dos filhotes recém-nascidos. Este é, certamente, um livro sobre o amor paternal, sobre a devoção masculina, sobre o papel dos pais, mas Carle dedica-o uma mãe muito especial, a sua: Johanna Oelschläger Carle.

Vejam as guardas: tantos cavalinhos marinhos, não é? Que bela ideia para papel de parede, dirão de imediato aqueles com olho para a decoração. Mas atenção: alguém reparou no pequeno filhote, o único virado ao contrário? Claro que só lendo o livro todo, claro que só mesmo na última página da história descobrimos porquê: “Um dos bebés virou-se para trás e tentou voltar para dentro da bolsa. – Isso é que não! – disse o Senhor Cavalo-Marinho. – Eu gosto muito de ti, mas agora já estás preparado para seguir o teu caminho sozinho.” Não será esta uma das mais difíceis tarefas da educação? Por esta razão “O Senhor Cavalo-Marinho” é “uma incrível história de amor”.

 

livro “O Senhor Cavalo-Marinho”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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