Ayrton Senna

 

As crianças brincavam pela casa, empurrando-se à vez, dentro de uma caixa de cartão pintado, a cabeça amparada por um par de almofadas de rendinhas, luvas improvisadas, um prato de plástico de piquenique servindo de volante.
– Então, o que querem ser quando forem grandes?
O menino afirmou logo:
– Piloto de Fórmula 1.
Uma menina pensou e respondeu:
– Piloto aviador.
A outra, hesitou, mas disse:
– Piloto de… comboios.
A mais velha deu-lhe um ligeiro encontrão:
-Não é piloto de comboios, é maquinista.
A mais pequenina abanou a cabeça e insistiu:
– Não, é piloto. Quero ser piloto de comboios. Quero ser como ele, só que de comboios.
O seu dedinho espetado apontava para o ecrã da televisão. Na imagem estava Ayrton Senna, que acabara de cortar a meta, sagrando-se campeão do mundo pela primeira vez.

 

 

Velocidade. Emoção. Prazer. Desafio. As cores, a precisão dançada das paragens nas boxes. O rosnar de motores. Reconhecíamos o seu capacete amarelo em qualquer lado, dentro de qualquer carro. Entrava na pista de ar carracundo, rosto fechado, duro. Rugas de preocupação entre os olhos, o peso do mundo sobre os ombros. Raramente sorria, e quando o fazia, o sorriso, maravilhoso, nunca transbordava nos olhos, que se ausentavam, perdidos, etéreos, num ponto infinito. Por vezes, agachava-se e acariciava os pneus do carro, sentindo-lhes a textura e a temperatura, ou tocava no asfalto como quem media a pulsação de uma criatura viva.

 

 

Quando começou a caminhar, conta a mãe, a sua ânsia de rapidez era tal que tropeçava constantemente. Sempre que lhe comprava um gelado, tinha de comprar outro logo a seguir, porque certamente o primeiro iria parar ao chão. Era descoordenado, trapalhão, desengonçado, de lateralidade indefinida, esquerdino provável. Levaram-no ao médico e um neurologista detetou um problema de coordenação motora. Talvez por essa razão, ofereceram-lhe um pequeno kart com um motor de cortador de relva, aos três anos. Aos oito, os pais já nem estranhavam quando o carro desaparecia da garagem. Quando completou dez anos, corria em karts a sério. Brincava com microaviões, réplicas reais, a combustível, montando-os e desmontando-os cuidadosamente, apreendendo os estranhos segredos das suas entranhas mecânicas.

 

 

Fazia as curvas de corpo rígido, muito direito, as pernas e o dorso num ângulo de 90 graus. Curvava por vezes apenas com uma mão, a esquerda, dedos longos entalhados no volante. Problemas de lateralidade? Talvez fosse a sua tendência ambidextra, o facto de ser esquerdino, que o tornava particularmente poderoso ao volante. Descoordenação? Travava com a sensibilidade de um baterista, mudava de marcha, girava o volante, acelerava, controlando minuciosamente cada momento da condução com um ritmo e coordenação de percussionista premiado.

 

 

Aos 14 anos, levava um cronómetro para a pista e, em vez de fazer a volta completa e contar o tempo, Senna dividia o circuito em quatro secções e experimentava novos traçados em cada trecho, colecionando milésimos de segundo. Esses milésimos de segundo somados significavam muito tempo. Manteve o mesmo hábito de caça-milésimos na Fórmula 1. O seu talento inato, a sua ânsia de vencer a todo o custo e a religiosidade evidente, entrechocavam-se com a coragem, o perfecionismo, a persistência, em corridas inteligentes, cerebrais. Recolhia os dados telemétricos todos os dias e estudava-os cuidadosamente. Analisava os resultados dos outros pilotos. Seguia rotina minuciosa e fornecia informações assombrosas aos engenheiros, com um detalhe e rigor de computador: ponto de rotação do motor, problemas de chassis, pressão e temperatura.

 

 

Conhecia o seu carro e testava-o até aos limites do impossível. Ultrapassagens e curvas em sexta, rapidez e segurança em pistas encharcadas, manobras que ficarão na história. Gastava muito mais combustível, pois acelerava mais cedo, travava mais tarde, entrando nas curvas com toques de acelerador. Descobria pontos de ultrapassagem impensáveis. No Mónaco, tinha um apartamento frente à pista de rua. Observava-a da janela. Outras vezes, passeava de bicicleta ou lambreta pelo circuito, para memorizar as curvas e as retas, meticulosamente. “Fazer uma volta perfeita é como dar um nó de gravata em que as duas pontas devem ficar exatamente da mesma altura. A experiência ensina-nos que podemos fazê-lo, o treino também, mas, na realidade, jamais conseguimos.”

 

 

Senna era a estrela dos grandes prémios, bastando a sua presença para fazer subir as audiências. Quando morreu, muitos nunca mais assistiram a corridas de Fórmula 1. Para além do Instituto, com o seu nome, que apoia programas de educação infantil, Ayrton Senna transformou-se em super-herói de revista de quadr(ad)inhos no Brasil, o Senninha, com o seu Capacete Falante, e a inevitável Turma. Merecia melhor. O filme “Senna”, comercializado em DVD em conjunto com a edição de ontem da revista AutoHoje, recebeu o prémio do público World Cinema para Documentário do Festival de Cinema de Sundance, em 2011. Canções, videos, homenagens, há-as um pouco por todo o lado. Mas é mesmo só quando ouço Norberto Lobo a tocar o seu tema “Ayrton Senna”, do álbum “Pata lenta” (Mbari, 2009), que os olhos se me enchem de lágrimas.

 

 

“Canalizo todas as energias para ser o melhor do mundo. Se depender de mim, esgotarei os adjetivos do dicionário.”

“Quero fazer algo de especial. Todos os anos alguém ganha o título. Eu quero ir além disso.”

Fez. Foi.

 

 

dvd “Senna – Sem medo. Sem limites. Sem igual.” (“Senna”), de Asif Kapadia
Universal / AutoHoje, 2010 / 2011

 

Paula Pina

Advertisements

Leave a comment

Filed under Cinema, Ram Ram

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s