Rubik’s Cube, o cubo mágico

Chegavam e sentavam-se no muro de cimento, decorado com azulejos partidos por alguma turma de Educação Visual graças à iniciativa de um professor mais preocupado com a cinzenta fealdade do recinto escolar. Traziam-nos dentro das mochilas verde-tropa, de presilhas de couro encaracoladas, duvidosamente decoradas a caneta Bic azul (normalmente com os símbolos da paz, de grupos anarquistas ou radicais, bandas hard rock ou heavy metal). Outras vezes, extraíam os seus formatos suspeitos dos bolsos dos kispos e das parkas, das camisolas de malha tricotadas pelas mães, e até do peitilho das jardineiras e dos calções de ginástica.

 

 

De início, eram poucos. Alguns, eleitos, aceitavam uma pastilha Gorila como suborno e partilhavam o seu novo, intrigante e viciante brinquedo. Passavam-no de mão de mão, com tempo contado. Trocavam-se trabalhos de casa, garrafas de leite com chocolate da Ucal, beijos e até passes sociais. Depois, passaram a ser mais. Formaram clubes, organizaram concursos na sala de convívio com o aval dos diretores de turma. Deixaram de ser tão misteriosos. As versões de plástico 3x3x3, seis faces, seis cores, conquistaram as famílias mais reticentes, aplaudia-se o génio nos irmãos mais novos que resolviam com uma facilidade ofensiva os problemas de configuração que deixavam os mais velhos boquiabertos.

 

 

De quando em quando aparecia um Pyraminx ou um Skewb. Raramente, um MegaMinx ou um Skewb Diamond. Um pouco por todo o lado, o seu deslizar crocante, as coreografias de cores, a dança dos dedos, a cabeça ligeiramente inclinada, as breves pausas de avaliação entre movimentos: nos intervalos das aulas e debaixo da carteira, à socapa durante as aulas mais aborrecidas; nas paragens de autocarro e durante as viagens de comboio; ou noutros locais insuspeitos ou inusitados, como sanitários, repartições, orquestras, esquadras, barbearias. Entrava-se na papelaria e saía-se com a caderneta de cromos; havia os concursos na televisão e ouvia-se na rádio a canção da Lara Li. Criaram-se amizades duradouras e romperam-se ligações intocáveis por causa da febre do cubo mágico.

 

 

O cubo mágico começou por ser um protótipo de madeira, desenhado como passatempo por um apaixonado da geometria, o professor Erno Rubik, em 1974, para demonstrar aos seus alunos de arquitetura e design de interiores, da Academia de Artes de Budapeste, o princípio do tridimensionalidade aplicada. Lançado na Hungria em 1977, sucesso da Feira de Brinquedos de Nuremberga em 1979, o cubo mágico tornou-se sucesso mundial de vendas, transformando o seu surpreendido criador no primeiro milionário empresarial socialista. Em três anos, uma em cada três pessoas na Europa e Estados Unidos se tornara o fanático ou o frustrado possuidor de um cubo mágico.

O princípio matemático subjacente ao brinquedo-invento-quebra-cabeças é ainda alvo de investigação recente no M.I.T.. Das 43 252 003 274 489 856 000 quintiliões de possibilidades que os 26 cubinhos, 54 faces e seis cores oferecem, uma apenas será a chave. Na página de tecnologia do site da B.B.C. News, podemos ficar a saber que 30 anos após o aparecimento do cubo, uma equipa de cientistas prova que a solução possível até agora contempla um mínimo de 20 movimentos. Afirma Erik Demaine, um desses cientistas: “A minha vida sempre se direcionou para a resolução de problemas que eu considero divertidos. É sempre difícil dizer logo na altura o que é que vai ser importante. Estudar números primos foi só uma atividade recreativa. Não teve importância prática nenhuma durante centenas de anos, até à chegada da criptografia.”

 

 

Ícone dos anos 80, o cubo mágico inspira ainda cientistas e fanáticos, mas também designers e artistas (como o Cube Works Studio ou os Space Invaders, que constroem retratos de inspiração pop com cubos mágicos). O cubo mágico brilha ainda na publicidade (como no anúncio do Cubo versus Playstation) ou no cinema (em cameos em “Super 8”, de J.J. Abrams, ou em “Os bem-amados”, de Christophe Honoré, que ontem estreou em Portugal, só para citar dois exemplos muito recentes). Criou-se até uma pastilha cúbica e uma linha de cosméticos inspiradas no seu desenho único.

 

 

Nunca nos interessou descobrir a solução mais fácil do enigma. No You Tube abundam videos que explicam como o resolver. Para quem não resistir à tentação, eis um video amador com uma abordagem que se destaca pela originalidade:

 

 

Só no ano passado se estabeleceu um novo recorde mundial: o tempo mais rápido está agora nos 5,66 segundos. O campeonato mundial está à porta: entre 14 e 16 de outubro, em Banguecoque, Tailândia. Se tiver crianças com idade igual ou inferior a quatro anos, inscreva-as – parece que há imensos bebés que são absolutamente geniais na resolução do cubo mágico. Nas suas mãozinhas, um dos maiores mistérios matemáticos universais até parece uma brincadeira de crianças.

 

Paula Pina

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1 Comment

Filed under Brinquedos, Ram Ram

One response to “Rubik’s Cube, o cubo mágico

  1. João Luís Abreu

    Excelente artigo!

    Cumprimentos,
    João Abreu

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