Monthly Archives: October 2011

Laboratórios Professor Damásio e Polvorosa Lda., Criatura #005

 

– Que horas são?
– Quase 9.
– 9 da manhã ou 9 da noite?
– O que lhe parece?
– Se soubesse não perguntava.
– Parece-lhe que é de manhã?
– Não é isso que interessa. Se são 9, são 9 da manhã. Se são 21 horas, são da noite. Aliás, a terminologia inglesa a.m. e p.m. é utilíssima nestes casos e acho sinceramente que o…
– É de noite.
– A sério? Não sabia. Passo os dias todos aqui enfiado e não sei se é dia ou noite, se chove ou se faz sol. Considero também que seria possível arranjar um sistema de medição que…
– Fez sol. Agora está a chover.

(…)

– Já está pronto? Não tem a cor certa. Junta mais umas gotas da solução A2ZE com NaNO3. Creio que isso será suficiente para agitar as partículas.
– Assim?
– Hum?
– Assim? Já misturei a solução toda e continua com uma cor esquisita.
– Fizeste o quê?
– Misturei e dissolvi a solução, como me disse para fazer…
– O quê? O que fizeste? Seu…
– Eu fiz exatamente o que me disse para fazer. Misturei a solução A12E com…
– A A2ZE?!… Não… não… não…
– Mas…?
– Baixa-te. Isto vai explodir!

(…)

– Explodiu mesmo.
– Não serves para assistente. Estás despedido.

(…)

– Parou de chover.
– O quê?
– Parou de chover. Se olhar através do buraco que ficou no teto, vê-se a lua. E parou de chover.
– Hã?!
– Está cheia.
– Hum? Olha… pois está. E é amarela…
– Tem a cor certa.
– Pois tem. Tem mesmo a cor certa.

 

Paula Pina, com ilustração de Cesária Martins

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Passatempo “Crictor”, de Tomi Ungerer


O Cria Cria tem para oferecer, com a amável colaboração da Kalandraka, cinco exemplares do livro “Crictor”, de Tomi Ungerer, à venda desde anteontem. Para receber um destes álbuns, basta que seja um dos primeiros cinco leitores a enviar-nos uma frase criativa subordinada ao tema “A minha mascote assustadora predileta”, bem como a responder corretamente às seguintes questões:

1) Em que ano Tomi Ungerer foi galardoado com a Legião de Honra francesa?

2) Qual é a profissão de Madame Louise Bodot, uma das protagonistas de “Crictor”?

3) Que ocasião irá trazer novamente o nome de Tomi Ungerer ao Cria Cria no final do próximo mês?

As respostas devem ser enviadas para op@oporium.net, com a referência “passatempo Tomi Ungerer” no assunto. Não se esqueça igualmente de referir os seus dados pessoais: nome, morada completa para envio do livro, email e telemóvel.

Este passatempo é válido apenas para subscritores do Cria Cria. Se ainda não subscreveu o blogue, poderá fazê-lo no espaço reservado para o efeito que encontrará aqui ao lado, na coluna da direita.

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“Greve”, de Catarina Sobral

 

Dizem os linguistas (“vendo-se gregos”) que as expressões idiomáticas sempre constituíram um problema para a gramática, ou melhor, que a própria definição de idiomaticidade (“deus-nos-acuda”), sendo sobretudo um fenómeno semântico, possuiria aquela caraterística de não composicionalidade, definida em função da convencionalidade. Ou seja, sem conhecimento prévio da regra, como a maior parte das expressões idiomáticas distribuem sentido pelas partes que as compõem, não se curvam à literalidade (“é um ver-se-te-avias”, portanto)…

O que a ilustradora e designer de comunicação Catarina Sobral faz em “Greve”, seu livro de estreia, nesta semana lançado pela Orfeu Mini, é oferecer-nos, “ponto por ponto”, um texto que vai longe na exigência decifrativa e no consequente resultado humorístico. Em primeiro lugar, toda a obra atribui dimensão gráfica a um encadeamento de expressões idiomáticas em torno da palavra “ponto”, que pedem uma leitura atenta; depois, múltiplos textos (subtextos, intertextos, paratextos e metatextos) se esgueiram, se infiltram, se revelam ou escondem, sublimemente descarados e disponíveis para a sorridente descoberta simultânea, algures nas ilustrações. Num primeiro nível, surgem referências artísticas ousadas: à obra “Ulysses” e à figura de James Joyce, à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, Fernando Pessoa e à “Orfeu”, à peça shakespeariana “Hamlet” (desta feita não com a caveira na mão, mas brandindo uma tíbia); num outro nível, encontramos referências a objetos, marcas e produtos que podem passar despercebidos a quem não pertenceu à geração dos automóveis “Carocha”, dos eletrodomésticos Miele, Lavamat ou Minerva, a todos os que não usaram detergente Rinso, aos que não leram a Burda nem a Crónica Feminina, a quem não estudou pelos antigos compêndios para o ensino liceal e por sebentas científicas em carteiras com tampo de abrir, com buraco para colocar o tinteiro, aos que não fizeram as contas do mês com caneta de aparo, a todos os que não reconhecem as amarelecidas folhas dos cadernos e mapas, os catálogos, fotografias e guias, a sépia e a preto e branco…

 

 

Parte da originalidade subversiva de Catarina Sobral deve-se às sobreposições de elementos gráficos e de perspetivas, às colagens originais de efeitos inesperados, aos jogos constantes com o nonsense. “Greve” é uma narrativa fílmica e dinâmica, em que todos os elementos, mesmo os balões de banda desenhada, parecem estar em cada página apenas de passagem, vindos de algum lado e dirigindo-se para outro lado qualquer. Personagens sem rosto ou de rostos alongados, minimalizados numa geometria retangular, olhar ciclópico, de traço infantil, meio centopeia, meio protozoário, penteados “à garçonne”, seguindo o figurino das revistas para “a mulher moderna” da época, são expressivas nas suas conversas mudas e gestualidade rígida. Repare-se ainda na inteligente ironia de incluir a ficha técnica no corpo da narrativa, apresentando-se um excerto de página de jornal fictício anunciando a data de lançamento da própria obra (hoje, dia 29 de outubro, na Biblioteca Camões, Lisboa), ou anunciando o tão esperado livro “Oinc! A história do Príncipe-Porco”, com litografias de Paula Rego e texto de Isabel Minhós Martins, a partir de um conto de Straparola, que a editora publicará daqui a poucas semanas. Mas o mais significativo nesta “Greve” é o facto de, mesmo que o leitor não esteja familiarizado ou desconheça as referências sofisticadas, mesmo que não descubra os detalhes culturais, mesmo que os anacronismos não suscitem um sorriso mais rasgado, a leitura continuar a resultar.

 

 

Exibindo uma vertente política, panfletária até, na escolha das cores e nas referências, “Greve” é cómico e provocador, numa época de agitação económica e social, como é esta que vivemos, brincando inclusivamente com os efeitos do marketing na atribuição de prémios, com catalogações arbitrárias, com suspeitas inclusões ou exclusões em Planos Nacionais seja do que for: “Pointless award”, “Melhor livro desde maio ’68”, “Prix OhhhMonDieu!” e “Recomendado pelo PNC* Plano Nacional de Costura”…

Acaso ou não, o que é certo é que, no nosso exemplar de “Greve”, a ponta de uma linha branca, despontada, espreita na costura que une as páginas de rosto. Terá alguma coisa a ver com o facto de a direção de arte/design ser da responsabilidade da Alfaiataria de Rui Silva? Não queríamos escrever nem mais uma linha, mas gostaríamos mesmo de saber se foi ou não por acaso. Detestamos deixar pontas soltas…

 

livro “Greve”, de Catarina Sobral
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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Recordando Charles-Émile Reynaud e Vasco Granja no Dia Mundial da Animação

 

Charles-Émile Reynaud (1844-1918), num acesso de raiva, deitou ao rio Sena as suas máquinas e filmes. Os filmes eram apenas películas perfuradas com imagens pintadas à mão, “desenhos em movimento” dançando em 50 metros de banda, perfazendo um total de 40 minutos de projeção por três bandas. As máquinas eram praxinoscópios. Quanto a Charles-Émile Reynaud, foi o fundador da moderna cinematografia, ao projetar no Museu Grévin, em Paris, e para pasmo das audiências, o seu Théâtre Optique, no dia 28 de outubro de 1892. A razão do acesso de fúria: o advento do cinematógrafo dos irmãos Lumière.

Curiosamente, do outro lado do Oceano Atlântico, no mesmo dia 28 de outubro de 1892, inaugurava-se aquele que é, hoje ainda, um símbolo imediatamente reconhecível, mesmo para qualquer distraído ou contrariado frequentador de salas de cinema: a estátua da liberdade, que inspiraria a imagem de marca da produtora e distribuidora Columbia Pictures.

Recordamos estas histórias no Cria Cria porque se celebra hoje o Dia Mundial da Animação, um evento simultâneo que envolve o intercâmbio entre instituições congéneres, a nível mundial, em mais de 50 países, e que em Portugal ganha expressão em múltiplas iniciativas, um pouco por todo o território, e numa programação vasta, centralizada pela Casa da Animação, Porto, na qual se destaca a produção nacional e o premiado Shaun Tan que, com Andrew Ruhemann, criou “The lost thing”:

 

 

Recordamos estas histórias no Cria Cria também porque nos lembramos muito bem do tempo em que não havia salas de cinema com filmes para crianças ou videotecas (haver bibliotecas com secção infantil era um luxo). Lembramo-nos ainda da televisão a preto e branco (e só para alguns), em que apenas um programa na RTP, anódina e asseticamente intitulado “Cinema de animação”, começou a divulgar, a partir de 1974 e durante 16 anos, milhares de obras do género. Os recursos eram escassos, mas havia variedade e ousadia. Por detrás do tão atacado “amadorismo” e do inglês arrevesado, havia a determinada paixão de um autodidata convicto – Vasco Granja -, com a chancela superior do balcão da Tabacaria Travassos, a garantia dos Armazéns do Chiado, os títulos académicos da Livraria Bertrand, a experiência formativa dos cineclubes e das prisões da PIDE. Foi com ele que pela primeira vez ouvimos falar de anime, devorámos Looney Tunes e Warner Bros., absorvemos animação experimental vinda de leste e oeste, descobrimos Peter Foldes e Norman McLaren. Havia convidados (pequenos e crescidos) e concursos. O que Vasco Granja fez com edição portuguesa da revista Tintin (1968) foi notável: escrevia, traduzia, respondia aos leitores. Continuamos a descobrir ainda hoje tudo o que vimos nessa altura. Continuamos a descobrir que tudo faz sentido. Gostaríamos que todas as crianças soubessem como se diz “Fim” em polaco. Nós sabíamos: “Koniec”.

 

Paula Pina

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“Crictor”, de Tomi Ungerer

 

Tomi Ungerer (nascido em 1931), um dos artistas mais polifacetados, influentes, controversos e geniais da história da literatura para crianças, da arquitetura, da escultura, do design, da publicidade, tem sido recentemente alvo de merecida e renovada atenção, um pouco por todo o mundo. A ele voltaremos a 28 de novembro, dia do seu aniversário, para retrospetivamente desvendarmos um pouco mais da biografia, obra e personalidade.

O implacável olhar crítico de Ungerer e as suas ousadias artísticas suscitam polémica, e as suas afirmações são manifestos: “toda a gente devia saber jabberwocky” (a língua absurda de Carroll, Belloc e Lear), “as minhas obras são o pesadelo dos pedagogos”, “gosto que as crianças se riam dos adultos”. Adjetivos como “traumatizante”, “perverso” ou “instigador” foram aplicados ao autor, e, como consequência, os seus livros para crianças deixaram de ser editados. Mas, contrariamente ao previsto, Ungerer não caiu no esquecimento, muito pelo contrário. Exemplos disso são a reedição recente das suas obras (algumas não disponíveis desde 1970), ou o Musée Tomi Ungerer, inaugurado em 2007, em Estrasburgo, já considerado um dos dez melhores museus da Europa.

Com “Crictor”, publicado originalmente em 1958, a Kalandraka amplia a lista de obras de Ungerer traduzidas para português, estreada com o clássico “Os três bandidos” (1961), em 2007. “Crictor” é divertido e supreendente. Ao refinado toque neoclássico francês, visível na elegância das linhas e nos décors, junta-se o exotismo africano de algumas referências e o insólito da narrativa. Recorrendo a uma paleta reduzida de cores em fundo sóbrio (tons femininos e requintados de cor de rosa aliados à singeleza vegetal dos verdes), temos uma síntese perfeita de dois universos: a cidadezinha francesa, na qual habita uma frágil, solitária e sofisticada senhora idosa, Madame Louise Bodot; o distante e misterioso terrítório africano, e o filho de Madame Bodot, estereótipo do explorador, que por lá estuda répteis.

Uma jiboia, ou melhor, uma boa constritora, é a mascote protagonista da história e futura heroína da cidade. Bem humorado e didático, “Crictor” fará as delícias dos que desejam iniciar as suas crias nos mistérios da literacia e da numeracia. Entre a ilustração, a banda desenhada e o filme de animação, entre o manual e a narrativa exemplar, “Crictor” conjuga o irónico e o absurdo, o satírico e o cómico, numa história de aceitação mútua e integração, para todas as idades, raças… e feitios.

Felizmente, a edição portuguesa não acrescentou nenhum subtítulo, ao contrário da brasileira: “Crictor, a serpente boazinha”. Tomi Ungerer iria detestar. Nós também. “Crictor”, apenas, está muito bem.

 

livro “Crictor”, de Tomi Ungerer
Kalandraka, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 6]

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Tem pesadelos com as suas ilustrações? E sonhos bons? Os seus momentos de criação são, por norma, felizes? Ou são difíceis?

Madalena Matoso: Não tenho pesadelos mas, às vezes, não me deixam dormir. Há momentos de criação difíceis e outros fáceis. Há livros em que começo por ter momentos difíceis e, sem saber muito bem quando ou porquê, torna-se tudo mais fácil. Às vezes, posso saber que ainda não encontrei o caminho certo, mas vou avançando até aparecer o caminho certo (ou o que, na altura, me parece certo), e começo tudo de novo. Há livros para os quais tenho uma quantidade enorme de desenhos que ficaram para trás; há outros em que só tenho dois ou três que não se usaram. Muitos desses desenhos que não aparecem no livro nem sequer estão acabados, são abandonados a meio (mas, às vezes, é um desses que não se chega a acabar que nos dá a ideia para o que queremos mesmo fazer).

 

ilustração originalmente publicada no livro “Cá em casa somos…” (Planeta Tangerina, 2009)

 

Madalena Matoso: Neste livro, os números ajudam-nos a conhecer melhor a vida de uma família. Em cada página ficamos a saber o número de pés, de pernas, de dentes, de cabelos, etc. que há “lá em casa”. As primeiras ilustrações que fiz eram bastante descritivas em relação ao texto e seguiam sempre a lógica de “confirmar” os números que eram referidos. Mas quando as vimos todas juntas achamos que eram muito parecidas entre si. Uma das coisas que mais gosto de trabalhar quando faço um livro é a sequência das imagens, o ritmo das páginas. Quando fazemos uma ilustração isolada (para um cartaz, para uma capa de livro ou para a imprensa) é completamente diferente. Num livro, mais importante do que cada imagem isolada, é o conjunto — o modo como as imagens funcionam umas depois das outras (para além da relação com o texto). Assim, fiz uma segunda versão com ilustrações mais abstratas e abertas. Alguns dos desenhos que ficaram de fora poderiam, à primeira vista, parecer mais ricos, por terem mais pormenores, mas eram também mais fechados e permitiam menos leituras. Cada página tem um tempo próprio. Umas são para ver muito depressa, outras são para ficarmos lá muito tempo (e de cada vez que pegarmos no livro vai ser sempre diferente).

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Yara Kono: uma exposição e dois livros

 

Yara Kono, a premiada artista e ilustradora nipobrasileira da Planeta Tangerina, é – a partir de hoje – um dos imperdíveis destaques do 22º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, inaugurado anteontem. Nem as aparentemente inevitáveis e contagiosas contenções orçamentais conseguiram impedir a realização do já histórico festival. Pequenos e crescidos por certo encontrarão na lista de programação sobejas razões para uma visita. Começando pelo tema apetecível (“Humor”), teremos os 60 anos dos “Peanuts”, “Astérix entre os Portugueses”, Adolfo Simões Müller e Vasco Granja, para além da presença de outros incontornáveis nomes da BD nacional e mundial. Há ainda as “Oficinas de cinema de animação e música digital”, entre outras propostas para os mais pequenos, aos sábados e domingos de manhã, até 6 de novembro. Na Casa Roque Gameiro, podemos apreciar devidamente os adoráveis detalhes das ilustrações e experiências de Yara Kono para a obra que venceu o Prémio Nacional de Ilustração de 2010, “O papão no desvão” (Caminho, 2010), com texto de Ana Saldanha.

 

 

Vale igualmente a pena atentar no recente e cativante livro “Eu só – Só eu”, de Yara Kono, autora de ilustrações marcantes no âmbito da produção literária infantil portuguesa dos últimos anos. As imagens expandem os afetos escondidos no texto, aqui reduzido à mais poética essencialidade, novamente pela pena de Ana Saldanha.

 

 

Claro que nem todas as parcerias são tão equilibradas. Em “O ar está cheio de vozes”, por exemplo, o potpourri de poemas compostos por Raul Malaquias Marques (com quem a ilustradora já havia partilhado a autoria do livro “De sol a sonho”, publicado pela Caminho em 2009), que Yara Kono alegre e diligentemente ilustra, apesar de irónicos e bem humorados, muitas vezes resvalam para uma poeticidade algo desgastada.

Para finalizar, uma pergunta: quem é capaz de descobrir, no livro “Eu só – Só eu”, o detalhe de ilustração que surge no cabeçalho do blogue da ilustradora, a transbordar de maravilhosas fotografias?

 

até 6 novembro
Yara Kono, “O papão no desvão”
22º Festival Internacional de Banda Desenhada
Casa Roque Gameiro, Amadora
[a partir dos 6 meses]

 

livro “Eu só – Só eu”, de Ana Saldanha com ilustrações de Yara Kono
Caminho, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

livro “O ar está cheio de vozes”, de Raul Malaquias Marques com ilustrações de Yara Kono
Caminho, 2011
[a partir dos 5 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

Celebrando 200 anos do nascimento de Franz Liszt

 

Aos seis anos, reproduzia as peças que o pai tocava no piano. Aos oito, começou a compor. Aos nove, deu o seu primeiro recital como pianista. O menino prodígio de aparência angelical em breve se mudaria para Viena com a família, graças a uma bolsa de estudos, tornando-se discípulo de Carl Czerny, em piano, e de Salieri, em composição. Aos dez anos, tocava as peças mais difíceis de Bach, Beethoven, Mozart, Cramer e Clementi, e improvisava com uma facilidade assombrosa. Em 1822, a sua primeira apresentação perante uma plateia vienense resultou num êxito absoluto de público e de crítica. Aos 12 anos de idade, Liszt era um ídolo.

Numa carta datada de maio de 1832, Franz Liszt (22 de outubro de 1811 – 31 de julho de 1886) escreve ao seu aluno e amigo Pierre Wolff: “Há duas semanas que o meu espírito e os meus dedos trabalham como loucos [sic] – Homero, a “Bíblia”, Platão, Locke, Byron, Hugo […], Beethoven, Bach, Hummel, Mozart, Weber, todos eles estão à minha volta. Estudo-os, observo-os, devoro-os com entusiasmo e, para além disso, exercito-me quatro a cinco horas […]. Ah! Se não ficar louco, quando regressar, vais ter perante ti um artista!”. Por ser estrangeiro, Liszt vê recusada a sua candidatura ao Conservatório de Paris. Torna-se então aluno de composição de Anton Reicha e Ferdinando Paer. E quem tiver ainda lá por casa um piano Érard, saiba que o construtor, o famoso Sebastien Érard, contratou Liszt para divulgar os seus novos modelos.

 

Henri Lehmann, “Franz Liszt”, 1840

 

Retemos até hoje algumas histórias acerca do pequeno Franzi, pormenores que nos fizeram vê-lo não apenas como uma personagem prodigiosa, mas como um menino, talentoso, alegre, curioso e disparatado, atormentando os seus pais e professores com as mais inesperadas acrobacias e experiências. Conta-se que um dia, tendo descoberto como o seu pai manipulava pequenas quantidades de pólvora para a caça e para diversos outros usos domésticos, resolveu experimentar o efeito que obteria se lançasse no forno da cozinha uma maior quantidade. A explosão foi apenas assustadora e vistosa, felizmente para o autor da proeza, que foi projetado para o chão, incólume. Outro dos divertimentos de Franzi consistia em criar dedilhações loucas para as peças que Czerny o mandava estudar, deixando perplexo o seu pai, que assumia que o prestigiado professor seria amiúde acometido de delírios técnicos estapafúrdios. Noutra ocasião ainda, frustrado com os inglórios esforços para tocar décimas com as suas mãos infantis, Liszt foi apanhado segurando um imenso facalhão de cozinha, prestes a golpear as membranas entre os polegares. Numa época em que a criança prodígio estava na moda, muitos aspirantes a pianistas, e suas famílias e mentores, estavam dispostos a tudo para ultrapassar dificuldades técnicas, inclusivamente a recorrer à mutilação das mãos, cortando as membranas interdigitais ou submetendo-se a dolorosas máquinas de “modelar dedos”, como o “finger tormenter”, que terá arruinado a mão de Robert Schumman, por exemplo. Décadas depois, Liszt escrevia a uma das suas alunas: “My dear young lady: I beg you to think no more of having the barbarous finger-operation. Better to play every octave and chord wrong throughout your life than to commit such a mad attack upon your hands. With best thanks, I sign myself yours respectfully. F. Liszt”.

Liszt correspondia ao  estereótipo do compositor místico e caricatural, de rosto fantasmagórico, que escrevia para si próprio peças que exigiam acrobacias impossíveis. “Uma figura excessivamente alta e magra, uma face pálida com olhos verde-mar que brilhavam com flashes rápidos, como ondas em chamas… um andar indeciso, parecendo deslizar mais do que tocar com os pés no chão, uma aparência distraída e inquieta, como a de um fantasma prestes a regressar à escuridão”, assim o descreve Marie d’Agoult. Quarenta anos mais tarde, Amy Fay, uma das suas alunas, escreve: “A sua boca revira-se para cima nos cantos, o que lhe confere uma elaborada e mefistofélica expressão quando sorri, e toda a sua aparência e modos têm uma espécie de elegância jesuítica e à-vontade… Ele é todo espírito, mas metade do tempo, pelo menos, é um espírito trocista… Ele é bastante alto e estreito… faz-me pensar, antes de tudo, num mágico de outros tempos, e senti que, com um toque da sua varinha, ele poderia transformar tudo.”

Liszt transformava mesmo tudo aquilo em que tocava: as passagens simples surgiam dobradas em terceiras e oitavas; os trilos simples metamorfoseavam-se em trilos em sextas; tocava décimas com a facilidade com que os restantes tocariam oitavas e, mais, sequenciava-as. Movendo-se pelos salões aristocráticos, mas fascinado pelos ciganos, homem ardente nas suas paixões humanas, leitor ávido e profundamente religioso (tomou ordens franciscanas), Liszt era um virtuoso, mas também um pedagogo extraordinário. Não tinha método, nem sistema didático, nem técnica específica. Não dava conselhos. Entregava-se como modelo aos seus alunos: a observação direta do modo como as mãos de dedos incrivelmente longos pousavam no teclado, a sua dedilhação única, o modo como usava o pedal, a interpretação mágica que oferecia, valiam mais do que todos as escolas, métodos e técnicas. “Technique should create itself from spirit, not from mechanics”, afirmava. Não cobrava nada pelas lições e recebia alunos de todo o lado, respeitando a sua individualidade, como o provam múltiplas gravações. “O primeiro dever do professor é tornar-se desnecessário. O segundo dever do professor é ensinar os alunos a ensinarem-se a si próprios.” Na verdade, poucos como ele entendiam toda a dimensão etimológica do termo “educare” – encaminhar. A cidade de Weimar enchia-se quando Liszt lá estava para ensinar. E enchia-se não apenas de alunos ansiosos por ouvir e ser ouvidos. A cidade enchia-se de sons de teclados, em todas as ruas, em todas as praças, becos, esquinas e salões. A situação chegou a tal ponto que a câmara promulgou um edital proibindo tocar com as janelas abertas (os transgressores seriam oficialmente notificados e multados no valor de três marcos).

 

 

Num ano em que abundam gravações cedendo ao marketing das efemérides, destacaríamos “The Liszt concertos”, da Deutsche Grammophon, gravados ao vivo com a Staatskapelle Berlin, e em que a equilibrada serenidade de Pierre Boulez redimensiona os contrastes composicionais expressivos rapsódicos do compositor. Esta é uma gravação em que Daniel Barenboim injeta de cromáticas ilusões poéticas a inultrapassável técnica pianística (preparem-se, todos os pais e filhos amantes do triângulo, para o imperdível solo no “Piano concerto nº 1”).

Liszt detestava crianças prodígio. Ironicamente, um tataraneto recebeu a sua herança genética genial e tornou-se num menino prodígio do piano. Chama-se Michael Andreas Haeringer, e nasceu em Barcelona, filho de pais alemães. Brinca com peluches e gosta de desenhos animados.

 

 

 

CD “The Liszt concertos”, de Daniel Barenboim e Pierre Boulez com a Staatskapelle Berlin
Deutsche Grammophon / Universal, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Música

A pedagogia eletrónica de Morton Subotnick ao vivo em Lisboa e em projeto online interativo

 

“Aprender criando” poderia ser a máxima de Morton Subotnick (nascido em 1933), um dos mais inovadores compositores e dedicados pedagogos nas áreas da música eletrónica e multimedia, que nos visita amanhã (sábado, 22 de outubro) para um concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Nos idos anos 60 do século XX, foi um dos pioneiros no uso do sintetizador analógico modular construído por Donald Buchla (e para o desenvolvimento do qual Subotnick também contribuiu decisivamente). Os arrojados efeitos sonoros experimentais que criou em 1967, com a obra “Silver apples of the moon”, que agora vem apresentar numa versão revista, fizeram do seu nome uma referência histórica transdisciplinar. Hoje ainda, a sofisticação tímbrica e rítmica, as suas texturas contrapontísticas complexas, as continuidades sonoras baléticas e coreografáveis, a sua musicalidade expressiva e teatral, continuam vivas, misteriosas e sedutoras. Som, palavra, gesto, movimento formam indestrutíveis parcerias, contextualizadas agora num universo multimedia.

 

 

Mas Morton Subotnick é também um pedagogo atento e ousado, responsável pela criação de novas estratégias e ferramentas criativas para a educação musical infantil. O seu papel enquanto criador do California Institute Of The Arts ou os seus incansáveis contributos para a reformulação de empoeirados curricula em educação artística credenciam-no suficientemente para que decidamos espreitar, sem mais delongas, o seu projeto online Creating Music. Para além de anunciar seis CD-ROMs, o site fornece um ambiente no qual as crianças podem fazer as suas experiências musicais criativas, jogando, compondo as suas próprias peças e ouvindo-as em tempo real, mesmo sem saberem ainda decifrar a notação musical convencional. Editar, alterar, inventar, avançar, recuar, duplicar, escolher, ouvir, tocar, compor, decifrar, comparar, são verbos que se concretizam em experiências sonoras diversas, como puzzles e jogos. Mas o site não se esgota na dimensão lúdica, não condescende nem banaliza: os jogos oferecem exemplos claros que ajudam a entender conceitos musicais difíceis, como timbre, altura, ritmo, tempo, melodia, dinâmica, estrutura, escala, notação. Para educadores e professores usarem de vez em quando na sala de aula. Para pais e filhos brincarem juntos.

 

22 outubro, 11 pm
Morton Subotnick
Zé dos Bois, Lisboa
[a partir dos 10 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Internet, Música, Ram Ram

“A viagem de Olaj”, de Martín León Barreto

 

“A viagem de Olaj”, do designer gráfico e ilustrador Martín León Barreto (Montevideu, 1973), já foi notícia neste ano ao vencer, entre 374 candidatos, o IV Prémio Internacional Compostela Para Álbuns Ilustrados, uma iniciativa do Departmento de Educação do Município de Santiago e da Kalandraka. Obra publicada em basco, catalão, espanhol e galego, “A viagem de Olaj” chega amanhã às lojas com tradução portuguesa, da autoria de Elizabete Ramos.

No texto ecoam os ritmos, cadências e rimas, a estrutura repetitiva e circular, e as marcas da oralidade e do discurso infantil, tão típicos das lengalengas e histórias acumulativas da literatura oral e tradicional. Mas nele encontramos igualmente o tópico da demanda, o afastamento de casa, e a viagem de descoberta e conhecimento iniciático protagonizadas por um ser masculino, que “vivia num planeta muito, muito pequeno”, qual “Principezinho”. Solitário, pensativo, sentado no cimo do telhado da sua “casa muito, muito grande”, Olaj decide tomar caminho, as pernas agigantadas vestindo calças de concêntricas joelheiras azuis, iguais ao seu olhar. As ilustrações, caleidoscópicas e cromáticas, desdobram-se em colagens mecânicas e planos arquitetónicos, que apetece tocar, que apetece mover. As figuras aglutinam-se, incorporam-se em formas geométricas, que se fundem em verdadeiros puzzles zoológicos.

 

 

Ao longo da viagem, animais impossíveis e animais míticos seguem Olaj, numa aquiescência muda ao seu convite: “Queres vir comigo? – perguntou, e como ele não se negou…”. Mais tarde, o dom da comunicação, a palavra que chega com um pássaro que sabia falar e que lhe oferece, pela primeira vez, um “sim” verdadeiro. Olaj encontra mais animais, anónimos, e, depois de ter atravessado ambientes com cenários noturnos e diurnos, encontra finalmente “a noite” e, na noite, um pequeno pirilampo que os guiará até chegar o dia. O dia traz a descoberta do percurso circular da viagem, com o regresso ao ponto de partida. Apenas uma diferença fundamental: a casa, outrora tão grande, fica subitamente… “muito pequenina!”. Porque será?

 

livro “A viagem de Olaj”, de Martín León Barreto
Kalandraka, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 5]

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Como é que faz para se “lembrar” de coisas que ainda não existem? Como é que trabalha a imaginação?

Madalena Matoso: Às vezes, tenho a sensação que cada coisa que fazemos é uma preparação para a próxima. Como se cada desenho tivesse lá dentro todos os que fizemos até ali (e não fosse possível existir sem todos os que ficaram para trás). Assim, as ideias novas que surgem em cada projeto são uma base para as seguintes. E essas ideias podem vir de vários sítios. Quando faço um livro, concentro-me muito no texto. Há o que está escrito e há um universo por trás das palavras. Podemos usar as ideias do texto como porta para outras, podemos fazer uma ilustração que seja ela mesma uma “porta”, podemos acrescentar ideias nossas… Nesse sentido, penso que fazer um álbum ilustrado é um verdadeiro trabalho de equipa, mesmo que nunca se tenha conhecido o autor (ou mesmo que sejamos nós próprios o autor do texto). Depois, tudo o que vivemos e fazemos, se estivermos atentos, pode ajudar-nos a inventar as tais coisas que não existem. Há o cinema, os livros, andar na rua, a música, memórias de quando éramos pequenos, pessoas que conhecemos,… Às vezes as ideias aparecem quando estou a andar de carro ou de comboio — é como se estivesse a ver o mundo através de uma moldura, e essa moldura faz com que as coisas nos pareçam mais distantes e novas.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Trava-línguas” (Planeta Tangerina, 2008)

 

Madalena Matoso: Esta ilustração foi feita para o “Trava-línguas” (com recolha de Dulce de Souza Gonçalves). Já tinha há alguns anos a vontade de trabalhar a tipografia como imagem, e o “Trava-línguas” foi o pretexto ideal. Para este livro, desenhei um alfabeto a partir da “Century gothic” (1991, Monotype Imaging, que por sua vez é baseada na “Twentieth century”, de 1937, da Lanston Monotype) e fiz carimbos com esse alfabeto. Todas as imagens do livro foram desenhadas com esses carimbos. Primeiro, ia experimentando fazer os desenhos em folhas de rascunho. Quando me parecia que havia ali qualquer coisa que valia a pena, repetia a composição com um papel vegetal e ia acrescentando ou melhorando alguns aspetos. Depois, digitalizei todos os desenhos e trabalhei-os no computador. Nessa fase tentei aperfeiçoar alguns detalhes e alterei a escala de algumas letras — para que a figura que formavam fosse mais perfeita e ganhasse pormenor. Mas acabei por achar que manter sempre a mesma escala ao longo do livro era mais interessante, e voltei aos primeiros desenhos, mesmo que fossem menos perfeitos. Foi uma escolha entre um desenho mais espontâneo, com erro, ou um desenho mais “limado”. Escolhemos o erro.

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“O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone

 

A jovem e promissora Gato na Lua premiou-nos, até agora, com quatro obras, exemplo do que pretende vir a ser uma visão editorial diversificada: temos de novo à venda “Um lobo culto”, de Becky Bloom e Pascal Biet, uma presença permanente na lista de recomendações do Plano Nacional de Leitura; surge-nos ainda uma nova versão do tradicional “O gato das botas”, com adaptação e ilustrações de Ayano Imai; mas as duas obras que merecem o nosso particular destaque são, inequivocamente, o divertido “O que é o amor?” de Davide Cali, com ilustrações de Anna Laura Cantone, e o belíssimo “O meu balão vermelho”, de Kazuaki Yamada, que aqui apresentaremos em breve.

Davide Cali e Anna Laura Cantone são já bem conhecidos em Portugal: tanto como dupla em “Quero uma mamã robot” (Horizonte, 2007) e “Um papá à medida” (Ambar, 2007), como em outras parcerias de sucesso, nomeadamente “Eu espero” (Davide Cali com Serge Bloch, na Bruaá, 2008), “Um dia, um guarda-chuva” (Davide Cali com Valerio Vidali, para a Planeta Tangerina, 2011); ou “Alice entre as gravuras” (Anna Laura Cantone ilustrando Gianni Rodari para a Dinalivro, 2008) e “Uma noiva bela, belíssima” (Anna Laura Cantone com Beatrice Masini, Horizonte, 2002).

 

 

“O que é o amor?” é um álbum ilustrado para crianças. Correto. Mas apetece-nos pensá-lo como um tratado de filosofia. O título interrogativo, típico das indagações filosóficas mais complexas (na realidade, esta pode ser considerada uma das interrogações chave da história da humanidade), afigura-se igualmente surpreendente e incomodativo quando debitado pela boca de uma criança. Neste caso, se toda a narrativa se constrói cumulativamente em torno da demanda interrogativa da pequena Emma junto do seu núcleo familiar, o que é certo é que chegamos ao final com diversas respostas… mas sem “a” resposta (o que também constitui, em si, uma resposta) e com um convite implícito para que sejamos nós, leitores pequenos e grandes, a criar outras respostas. Confusos?

Apesar de na tradução se perder algo da dimensão poética e rítmica do texto original, cada personagem que surge oferece uma definição de “amor”, simultaneamente concisa e metafórica, uma perfeita analogia em função dos seus interesses e atividades. Define-se o conceito abstrato de “amor” recorrendo à sua objetificação concreta. O resultado é uma compilação delirante e hilariante, sobretudo quando a protagonista reflete maduramente sobre as respostas e decide colocar em prática os ensinamentos. Os binómios seriedade/humor, intensidade/leveza, alegria/ansiedade surgem no texto e são acompanhados pela ilustração. Na verdade, equilíbrio semântico e icónico reforçam a dimensão cómica da obra.

 

 

A ilustração integra detalhes subtis de décor retro e um universo doméstico ultrarromântico, simbólico e feminino, de filigranas de papel, flores e borboletas, numa paleta de cores contida. As imagens pedem tempo para o pormenor. Em torno das figuras espiralam e rodopiam linhas, descobrem-se colagens, cenários e objetos de tecido, fazem-se flores de rosetas de croché, que adicionam textura a elementos já de si dinâmicos. Interessante, ainda, é a utilização de elementos do cenário, como a porta do armário da coleção de carrinhos e a cama, para aconchegar o texto.

 

 

Paradoxalmente, as personagens assumem uma fisicalidade de cartoon, com corpos ora alongados, ora inchados, quase grotescos, e ostentam expressivos rostos de caricatura: os olhos são globosos, esbugalhados, com pálpebras de persiana, os narizes são disformes, as bocas concretizam-se em linhas expressivas ou em lábios clássicos, ou arreganham-se em amplitudes de bocejo ou sorrisos de dentadura completa. Nota-se ainda a irónica marca do universo dos contos de fadas, nomeadamente através de uns estereotipados sapos (ou rãs?), aguardando a chegada do amor, em poses expectantes e compostas. E o que dizer das provocadoras borboletas, irritantes na sua obsessiva e ziguezagueante presença, do princípio até ao fim da obra? Dizem que a borboleta é a metáfora perfeita da teoria do caos, e a ancestral representação da feminilidade e da harmonia conjugal, do amor, do renascimento e da metamorfose. Mas é também o símbolo da paciência para refletir e da demanda.

 

livro “O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone
Gato na Lua, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Leonard Bernstein

 

Foi em Tanglewood que Leonard Bernstein (25 de agosto de 1918 – 14 de outubro de 1990) fez a sua formação e iniciou a carreira de maestro. E era a Tanglewood que voltava sempre, para ensinar, mesmo em período sabático, em detrimento de tournées agendadas e concertos esgotados nas salas mais importantes das grandes capitais do mundo. Também em Tanglewood terminou a sua carreira, em 1990.

 

 

Talvez estivesse encantado, como Nathaniel Hawthorne, autor de “Tanglewood tales” (1853), volume de contos cujo título mágico nomeia, hoje ainda, o centro educativo e cultural da Boston Symphony Orchestra. Veem-se as montanhas Berkshire, ao fundo, e o lago Stockbridge Bowl espreita por entre as moitas e extensos relvados. O espaço está serenamente salpicado de cadeiras de lona e guarda sóis. De vez em quando, um pequeno grupo abre uma cesta de piquenique. Sob a sombra, alguém se curva sobre uma partitura. Chegam-nos sons distantes de cordas. Os edifícios parecem hangares ou celeiros gigantes, acolhendo quem chega e abrindo-se para o exterior, inundados de luz durante o dia, iluminando os relvados à noite. As pessoas, de todas as idades, trazem as suas cadeiras e mantas, enquanto ecrãs gigantes projetam imagens da orquestra.

 

 

Bernstein fundou institutos, escolas e uma classe mundial de prática orquestral, no Schleswig Holstein Music Festival. Fundou o Pacific Music Festival, em Sapporo, Japão, importando o modelo de Tanglewood. Havia quem o encontrasse, fazendo o seu jogging alegremente, ou cruzando os caminhos serpenteando entre os relvados de Tanglewood no seu Mercedes beige descapotável, acenando aos estudantes. “Sou um rabino disfarçado”, dizia, espreitando por cima das meias lentes dos óculos. Estava sempre a pregar, imbuído de uma espécie de espírito missionário, que considerava mais importante do que tudo o resto. Usava uma camisola desportiva azul bebé, jeans, botas de cowboy, e um lenço vermelho espreitava-lhe do bolso. Os seus elogios eram abundantes: “Great, but I want it twice as great!”. A sua energia levava-o muitas vezes a um exagero nos gestos, com meneios e saltos, rapidamente tornados moda em passos de dança, como o famoso “Lenny’s jump”. Mas a sua exigência, rigor analítico, fervor e perspicácia crítica e psicológica eram ainda mais extraordinárias: “Regra número um para quem toca em grande orquestra: é tudo música de câmara!”. Leonard Bernstein começara a sua carreira de maestro em 1943, substituindo à última hora um Bruno Walter engripado. Tocava-se o “Dom Quixote”, de Richard Strauss. Mais tarde, quem olhasse com atenção, veria que Bernstein usava sempre os botões de punho do seu mentor, o maestro Serge Koussevitzky.

 

 

“In my end is my beginning”, escreveu Bernstein na carta que enviou aos amigos convidando-os para a performance de gala em benefício do Tanglewood Music Centre, coincidindo com o seu 70º aniversário. T. S. Eliot nos “The four quartets” escrevera, em “East Coker”: “In my beginning is my end”. Nas Harvard Lectures, enquanto Charles Eliot Norton Professor of Poetry, Leonard Bernstein falava de música e linguagem. Na conferência “The principle of hope”, proferida no 13º aniversário do Berkshire Music Centre, a esperança é o tema. Bernstein foi incansável, impulsionado pela necessidade imperiosa de partilhar a sua paixão pela música, na afirmação da esperança, na certeza de que, através das artes e da música, poderíamos tornar o mundo num lugar melhor: “We who were sitting there in 1940 were a generation of hopers.” Ou “It’s the artists of the world, the feelers and the thinkers, who will ultimately save us, who can articulate, educate, defy, insist, sing and shout the big dreams.”

 

 

Hoje, dia 14 de outubro de 2011, em Tanglewood, a Orquestra irá tocar um bailado (ou poema sinfónico), obra rara, baseado num conto de fadas: “The wooden prince”, de Bela Bartok. Nós, aqui no Cria Cria, vamos pegar numa das obras escritas por Leonard Bernstein: “O mundo da música”, na edição da Livros do Brasil, com tradução de Manuel Jorge Veloso. Depois, vamos sentar-nos e rever alguns dos seus inesquecíveis programas “Young people’s concerts”. Claro que a tecnologia televisiva usada era ainda primitiva – há distorções de imagem e o som não é brilhante (geralmente mono, ou remisturado, exceto nos cinco últimos concertos, já em stereo). Mas quem se importa? Mesmo a preto e branco, mesmo com desfocagens, há um discurso musical pejado de poesia e emoção, há clareza e técnica, há interatividade e há perguntas complexas e divertidas, há surpresa e variedade, clássicos conhecidos e compositores recentemente descobertos, há folk e música latina, da Broadway aos Beatles. Mas há, sobretudo, a presença e a voz de um músico, um verdadeiro contador de histórias apaixonado.

 

 

Inicialmente aos sábados de manhã, os “Young people’s concerts” foram transmitidos durante três anos na CBS, em horário nobre, passando depois para os domingos à tarde. Duravam cerca de uma hora. Era pouco. Por lá passaram convidados ilustres, como Christa Ludwig ou Walter Berry, um Gunther Schuller muito novinho, uma Natania Devrath cantando Villa-Lobos, e até uma injustamente desconhecida Marni Nixon (que dobrava as vozes cantadas de Natalie Wood, Audrey Hepburn ou Deborah Kerr). Não eram concertos comentados vulgares, tão na moda em Portugal e tantas vezes tão mal engendrados. Os “concertos para jovens” de Leonard Bernstein eram verdadeiras aulas de apreciação estética musical. E, graças a ele, muitos aprenderam a gostar de música.

 

 

A procissão com o corpo de Leonard Bernstein percorreu as ruas de Manhattan até ao cemitério de Green-Wood, Brooklyn. Pelo caminho, passaram por um edifício em construção. Todos os trabalhadores pousaram baldes, pás e martelos, tiraram os capacetes amarelos e acenaram, dizendo: “Goodbye, Lenny!”.

 

 

Paula Pina

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“Popville”, de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud

 

Eis um exemplo de uma história silenciosa. Fugindo ao estereótipo, mais ou menos extravagante, do típico livro pop-up com destinatário infantojuvenil que inunda o mercado, mas inserindo-se ainda na já longa tradição do livro-jogo, a atração mecânica continua presente na fabulosa técnica artesanal do recorte e colagem das formas que se desdobram em cenário tridimensional. Depois do sucesso de “Popville”, a mesma dupla de autores, ambos licenciados em artes decorativas, criou já uma segunda obra (“Dans la forêt du paresseux”, já editado no Brasil com o título “Na floresta do bicho-preguiça”), desta vez sobre um animal singular, a preguiça, que assiste à desflorestação da floresta amazónica.

 

 

Não há palavras ao longo de “Popville”. Não é preciso. Talvez por isso mesmo apeteça tanto ler a história do nascimento e crescimento desta cidade encostando simplesmente o nariz às folhas cartonadas, bebericando o líquido mágico de “Alice no país das maravilhas” e diminuindo de tamanho, para então percorrer as ruas e avenidas, entrando e saído dos edifícios de papel colorido azul, vermelho, amarelo, cinzento. Verdes apenas as árvores e as áreas bordejantes, gradualmente reduzidas ou eliminadas, para depois reaparecerem, estrategicamente reposicionadas em manchas domadas, na última página. Apetece sobrevoar esta cidade, em slides cinematográficos. Apetece povoá-la de brinquedos e seres pequeninos. Apetece começar pelo fim. Desejamos que o livro continue, crescendo, subindo, mais e mais alto, criatura viva concretizada em sólidas e discretas geometrias de arranha-céus, em sofisticadas torres de ficção científica, em elegantes pontes suspensas e em máquinas impossíveis.

Na sua ancestral engenharia de papel, “Popville” parece fácil, no sóbrio retorno à redescoberta da simplicidade do ato de olhar e do gesto que manipula. Mas “Popville” não é fácil. Espantosa metonímia do tempo que passa, a metamorfose opera-se a cada mudança de página, na cidade que cresce. O fundo, esse, permanece. Alguns elementos são perenes, outros são eliminados, outros ainda desaparecem para retornar, mais adiante, e mais tarde, noutros locais.

 

 

O posfácio, de Joy Sorman, pode ler-se como uma apologia, em forma de relato proto-narrativo, descrevendo as fases da construção urbana, e como um panegírico do conceito de comunidade. De facto, “Popville” oferece-nos a história da evolução de uma paisagem urbana, o nascimento e evolução de uma metrópole. Na génese, no centro de tudo, uma igreja de tijolo vermelho, à volta da qual a cidade e todo o livro se desenvolvem. Desse ponto de vista, sublinha-se a dimensão ideológica, religiosa, sagrada ou mítica, da origem da cidade e a sua importância para a história da civilização, especialmente a americana. Todavia, um travo melancólico acompanha as descrições de Sorman, ao passarem-nos pela retina imagens de selváticas construções e grotescos urbanismos. E, daí, talvez possamos pensar um novo urbanismo, mais equilibrado, mais próximo do princípio.

Exemplo de uma dialética entre a mudança e a permanência, entre a expetativa e a imprevisibilidade, entre a simplicidade e a sofisticação, “Popville” ultrapassa os limites de uma catalogação restritiva, de um âmbito único, de um destinatário previsível ou canónico. É para crianças e é para adultos. É para brincar e é para pensar. É uma homenagem à história do urbanismo e é um aviso ecológico e cívico para as gerações que hoje folheiam, com gestos hesitantes ainda, as suas páginas.

 

livro “Popville”, de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud
Bruaá, 2010
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 4]

 

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Tem segredos ou técnicas especiais no seu método de trabalho que nos possam ajudar a desenhar melhor?

Madalena Matoso: O segredo para desenhar melhor é simples: desenhar. Quanto mais desenharmos, melhor desenhamos. Claro que para desenhar muito é preciso gostar de desenhar (e “isso” é mais difícil de explicar, não se sabe muito bem de onde vem, se está na mão, na cabeça, nos olhos). O meu professor de desenho da Sociedade de Belas Artes dizia que aprender a desenhar era como aprender uma língua estrangeira – não era preciso nascer com “nada de especial” para desenhar. E é verdade, há muitas técnicas que se podem ensinar/aprender para desenhar melhor. Mas depois há a vontade de desenhar, o estar sempre a desenhar, que não se ensina.

Por vezes, o desenho também pode ser uma luta. Li há poucos dias, sobre uma exposição do Rui Chafes: “Aquele que desenha também não pode deixar de se ferir com o que trabalha: a sua própria ferida.” (…) “As feridas são um dom. É delas que surge a obra, porque é delas que se alimenta o artista.”

 

ilustração originalmente publicada no livro “A charada da bicharada” (Texto Editores, 2008)

 

Madalena Matoso: Esta ilustração foi feita para o livro “A charada da bicharada”, com texto de Alice Vieira. Quando me enviaram o texto com as charadas, percebi que havia um quase-problema: não podia desenhar um gato para ilustrar o texto sobre o gato. Na altura, fiquei muito entusiasmada porque achei que era a oportunidade ideal para fazer um livro cheio de dobragens, em que só se revelaria o animal quando se desdobrassem as páginas. Como era uma editora grande, achei que seria viável fazer um livro de produção mais cara (que no Planeta Tangerina seria insustentável). Mas, depois, em conversa com o Jorge Silva, que na altura era o diretor de arte do grupo Leya/Texto, percebemos que uma produção muito complicada também não seria possível. Assim, vi-me “condicionada” (no bom sentido) às páginas normais de um livro e tive de encontrar uma solução para ilustrar cada adivinha sem desvendar o animal mistério. Experimentei, então, fazer ilustrações em que o animal estivesse lá mas que não se visse num primeiro olhar.

Acabei por me divertir muito a fazer estes desenhos porque inventei histórias para a ilustração “que se via” (vagamente relacionadas com o “tema”), e o único compromisso era que o animal lá estivesse escondido.

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Rabiscar, desenhar, colorir, pintar,…

 

A voz da professora vai ficando cada vez mais longe… mais longe… ele olha pela janela… assalta-o a memória das férias, do passeio de canoa… Não, não pode ser. Tenta concentrar-se na voz monocórdica, que vai ficando cada vez mais aguda com o esforço e cansaço. A professora vira-se e começa a desenhar um gráfico no quadro, sem parar de falar. Agarrando-se à caneta, como boia de salvação, as notas soltas que tirava tornam-se setas e figuras geométricas. Umas espirais no canto superior direito do caderno, um jogo do galo. Os outros recantos da página enchem-se subitamente de olhos e do símbolo do Super Homem…

(…)

– Sim, avó, está bem. Sim. Sim, adorei a camisola. Não. Não. Não faz mal ter ursos e gatinhos… Pois são. Hum, hum… Sim, comi. Comi. Não, não se estragou. Estava bom. Pronto. Pronto. Beijinhos também para ti. Também para o avô. Está bem. Vou à farmácia. Está bem, não me esqueço de comprar o chá… Sim, e da pomada. Pronto. Pronto. Beijinhos. Tchau. Tchau.

A porta da rua fechou-se, com um estrondo atrás dela. A casa ficou silenciosa. O bloco de notas ao pé do telefone, esse, enchera-se de traços, de flores, de rabiscos e letras ornamentadas, uma casa e um raio de tempestade ziguezagueante.

(…)

Está provado, afirmam diversos especialistas, que rabiscar livremente aumenta a memória e a concentração. Rabiscar requer um esforço cognitivo mínimo, suficiente apenas para assegurar que os recursos mentais estão focalizados na atividade mais importante. Ou seja, rabiscar acaba por constituir uma distração adequada, na dose certa, que, contraintuitivamente, nos obriga a focalizar na execução da tarefa rotineira, aborrecida, repetitiva, desinteressante, mas essencial, que precisa de ser completada. Sem o apoio dos rabiscos, o jovem estudante teria certamente enveredado pela viagem mental de canoa. Sem o auxílio dos rabiscos, a conversa telefónica não teria conduzido à concretização da lista de tarefas.

 

 

Amplamente utilizado por psicopedagogos como instrumento de avaliação e estratégia comunicativa com crianças, o jogo dos rabiscos está presente, de um modo mais ou menos óbvio, mais ou menos criativo, em versões dos velhinhos (ora amados, ora odiados) livros para colorir, que têm, em tempos recentes, invadido o mercado editorial português. Com a chancela de editoras respeitáveis na área da literatura para crianças, como a Civilização, a Edicare, a Gailivro e a Orfeu Mini, estas obras caraterizam-se, paradoxalmente, pelo oposto do que apregoam nos títulos.

Se os principais conceitos inerentes ao ato de rabiscar, de fazer “doodles”, são a liberdade (de traços, de ação, de estilo, de contexto, de suportes…) e ausência de regras, as coleções agora apresentadas oferecem, precisamente, oportunidades de criação plástica segundo normas fixas. Claro que os cenários para personalizar são originais; as ideias apontadas são divertidas; as atividades são sugestivas e variadas; o papel é geralmente bom (o que é sempre maravilhoso). Em tom mais ou menos didatorial, didático ou até poético, os jovens destinatários preferenciais são convidados a ler e a criar… criativamente. Misericordiosamente poupados à angústia da folha em branco. Caridosamente salvos das tristes folhinhas fotocopiadas para colorir com impressões de gosto duvidoso de figurinhas dos desenhos animados ou aparentados, retirados à pressa da internet, que os educadores e professores assoberbados e bem intencionados lhes colocam à frente. Miraculosamente resgatados do contacto com os livrinhos de atividades comprados pela avó na papelaria da esquina para o menino pintar por dentro, muito sossegadinho, com lápis de cera, depois de fazer as fichazinhas dos trabalhinhos de casa, enquanto a avó faz o jantar, passa a ferro e dá o biberão ao mano.

 

 

As propostas da Civilização acabam, infelizmente, por resvalar para o estilo ficha de atividade, não obstante algumas ideias interessantes que não chegam a ser exploradas.

 

 

As melhores sugestões chegam-nos via Edicare, de Fiona Watt, com diferentes ilustradores, em formato convencional ou em versão de bolso: desenhar, pintar, colorir, completar, transformar, terminar, copiar, decorar, preencher, criar padrões, rabiscar, sempre com atividades originais e em estilos diferentes. Claro que a tendência natural dos artistas em perspetiva será seguir o modelo oferecido, mas o contacto com a variedade de opções estéticas é valioso.

 

 

A Gailivro, com Nikalas Catlow, constrói em cada página uma proposta em forma de mini história, pergunta ou comentário. O estilo, ainda que simples e aliciante, é sempre o mesmo, e a fraca qualidade do papel, quase transparente, não permite a utilização de tintas ou canetas de feltro.

 

 

A Orfeu Mini propõe-nos algo próximo de uma narrativa-catálogo de coisas favoritas, legendadas, a partir da frase inicial “No meu caderno desenho todas as coisas de que gosto…”, da autoria de Laurent Moreau. Ao título “Dias felizes” (numa tradução pouco feliz de “Les beaux instants”), acrescenta-se um subtítulo desconcertante: “Um imaginário para colorir”.

 

Já o “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon, também da Orfeu Mini, se destina àqueles que desejam iniciar-se nos mistérios das cores e no manejo de materiais e pintura “a sério”: as páginas enormes, de cartolina, convidam, de facto, à experiência com os tubos de guache e pincéis; as dicas técnicas são úteis, na dose certa.

Atenção a todos os livres rabiscadores de todas as idades: há por aí muitas tentativas de interpretação pseudo-psico-cognitivo-qualquer-coisa que vos podem deixar preocupados. Não se aflijam se desenharem muitas setas, estrelas, corações inteiros ou partidos, olhos, espirais ou flores. Não se atormentem com o vosso fraco talento para o desenho (provavelmente agudizado por algumas aulas de Educação Visual ou por algum “dois” na pauta de avaliação). Desenhem. Rabisquem à vontade. Sem regras. Ou, se quiserem, com algumas delas. Mas só algumas.

 

livro “Riscos e rabiscos – Vou de férias”, s/a
livro “Riscos e rabiscos – Super rabiscos”, de Woody Fox
livro “Riscos e rabiscos – Quinta”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Livro das férias”, de Nikalas Catlow
livro “Riscos e rabiscos – Horas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Formas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Zoo”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Era uma vez”, de Andy Cooke
livro “Riscos e rabiscos – A B C”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – 1 2 3”, de Nancy Meyers
todos Civilização, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “Desenhar, rabiscar e colorir”, de Fiona Watt com ilustrações de Erica Harrison e Katie Lovell
Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livros “Rabiscar e desenhar – Livro de bolso” (dois volumes: azul e vermelho), de Fiona Watt com ilustrações de Non Figg
ambos Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “E tu, rabiscas?”, de Nikalas Catlow
Gailivro, 2011
[a partir dos 5 anos]

livro “Dias felizes – Um imaginário para colorir”, de Laurent Moreau
Orfeu Mini, 2010
[a partir dos 6 anos]

livro “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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Passatempo “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

O Cria Cria tem para oferecer, com a amável colaboração da Kalandraka, dez exemplares do novíssimo livro de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, à venda desde ontem. Para se candidatar a receber um destes álbuns, basta que seja um dos primeiros dez leitores a responder corretamente às seguintes questões:

1) Indique o ano em que foi pintado “Blaues pferd I”, a tela de Franz Marc que inspirou Eric Carle a fazer o livro “O artista que pintou um cavalo azul”.

2) Indique os títulos de outros dois livros de Eric Carle que tenham sido editados pela Kalandraka em Portugal.

3) Indique a morada (url) da nova página de Facebook do blogue Cria Cria.

As respostas devem ser enviadas para op@oporium.net, com a referência “passatempo Eric Carle” no assunto. Não se esqueça igualmente de referir os seus dados pessoais: nome, morada completa para envio do livro, email e telemóvel.

Este passatempo é válido apenas para subscritores do Cria Cria. Se ainda não subscreveu, poderá fazê-lo no espaço reservado para o efeito que encontrará aqui ao lado, na coluna da direita.

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“Os cinco”, de Enid Blyton

 

Nós também éramos cinco. É certo que o nosso cão, um rafeiro de pelo preto e feitio abominável, chamado Piloto, não possuía os dotes detetivescos de Tim. Era um perfeito desapontamento enquanto membro do “clube”. Pressentindo decerto o nosso desgosto por não ser também um border collie corajoso, divertido e astuto, limitava-se a ficar no alpendre, em poses de imperador romano coroado, banhando-se ao sol. Para cão de caça, estranhamente, as suas atividades mais enérgicas consistiam em soltar rosnadelas às lagartixas, perseguir a própria cauda, lançar uns latidos gabarolas aos cães da vizinhança, roer uma bota velha ou mordiscar-nos os tornozelos quando não lhe ligávamos. Nada parecido com o inteligente Tim.

Havia depois a comida. Nós, criados de acordo com os melhores princípios da dieta mediterrânica, suplicávamos que nos fizessem um pequeno almoço de ovos com bacon, implorávamos por pickles e sandwiches de pepino ou presunto. Nunca se bebeu tanta limonada. Nunca se saboreou tanta torta de ameixa.

A liberdade e a independência de que gozavam os protagonistas causavam-nos alguma perplexidade e inveja. As viagens, os acampamentos, os espaços e ambientes descritos, as pistas e os mistérios, os perigos e os malfeitores, passavam das cerca de 190 páginas escritas para a nossa imaginação, em ligação direta, apenas com o suporte descompassado das ilustrações a preto e branco de Eileen Soper (1905-1990).

 

 

A edição da Editorial Notícias premiava-nos ainda com uma fotografia a cores, na capa, retirada de algum filme ou série que desconhecíamos. Só mais tarde surgiram os episódios televisivos (de 1978), com uma canção cuja letra não entendíamos, mas que cantávamos a plenos pulmões, articulando com toda a convicção fonemas inventados, até chegarmos ao refrão:

 

We are the famous five:
Julian, Dick and Anne,
George and Timmy, the do-o-o-og…

 

 

A Oficina do Livro aposta agora na reedição destes clássicos juvenis de mistério e aventura, escritos por Enid Blyton (1897-1968), em plena II Guerra Mundial (1942). Retirou as ilustrações de Eileen Soper, mas incluiu uma nota de Sophie Smallwood, neta da autora.

Comparando, por exemplo, a edição de 1952 (na tradução de 1977), assinala-se a tentativa de atualizar referências, e simultaneamente, opta-se pela inclusão de elementos que na altura, em Portugal, teriam sido alvo de condenação. Os protagonistas usam agora ténis e calças de ganga, e não calções; a Ana, de dez anos, brinca com peluches ou cartas de paciência, e não com bonecas. Já não recebem, pelo Natal, comboios ou bonecas com olhos que abrem e fecham e que se parecem com a Branca de Neve, mas, em compensação, na edição atual, alguém oferece um canivete de três lâminas ao David, sem censura. Desaparecem fórmulas de tratamento típicas, como “mãezinha” e “paizinho”. Incluem-se nomes de locais recorrendo à designação original inglesa (Polseath, em vez de “praia”), e substituem-se alimentos: as crianças bebem agora cerveja de gengibre (“ginger beer”) com naturalidade, e não “laranjada”; comem scones e bolo de gengibre com melaço, não “biscoitos” e “bolo de chocolate”. De vez em quando, o texto lembra-nos que estamos mesmo no século XXI:

 

“O Sol agora iluminava tudo, ainda que estivesse muito baixo, no lado de nascente. Já se sentia calor. O céu estava muito azul e Ana não pôde deixar de notar que parecia pintado de fresco. Ela fazia sempre observações a tempo e os outros achavam-lhe graça.

As nuvens estavam tão cor-de-rosa e o mar tão calmo que parecia impossível que tivesse havido um temporal na véspera.”

(tradução de Maria da Graça Lobato de Faria para a Editorial Notícias, 1977)

 

“O sol brilhava intensamente, embora ainda estivesse baixo, e já fazia calor. O céu estava tão bonito e tão azul que até passou pela cabeça da Ana que alguém se divertira a limpá-lo com muito esmero. Não resistiu e comentou:

– Parece acabadinho de sair da máquina de lavar!

Os outros desataram a rir – de vez em quando a Ana saía-se com cada uma! Mas no fundo perceberam o que ela queria dizer. Sentia-se a frescura do dia, tanto nas nuvens cor-de-rosa no céu azul como no mar tranquilo e brilhante lá em baixo. Mal dava para acreditar que no dia anterior estivera tão agitado.”

(tradução de Mariana Avelãs para a Oficina do Livro, 2011)

 

 

“Os cinco” sobreviveram até hoje, populares como sempre, estoicamente indiferentes à passagem do tempo, divertindo gerações atrás de gerações, atravessando fronteiras linguísticas e geográficas. Os anos podem até passar por eles, muito discretamente, mas a fórmula de Enid Blyton mantém-se intocável.

 

 

livros “Os cinco na ilha do tesouro” e “Os cinco – Nova aventura dos cinco”, de Enid Blyton
ambos Oficina do Livro, 2011
[a partir dos 9 anos]

 

Paula Pina

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Steve Jobs [1955 / 2011]

A maçã era a sua fruta favorita.

Estudou física e poesia, mas nunca se graduou. “Não há maior sofisticação do que a da simplicidade”, dizia. Shakespeare também o escreveu: “Brevity is the soul of wit”.

“Tens de descobrir o que amas. Ir para a cama à noite dizendo ‘fiz uma coisa maravilhosa’ é o que importa.”

 

 

“O nosso tempo é limitado, portanto é melhor não o gastarmos vivendo a vida de outra pessoa qualquer. Não se deixem apanhar na armadilha do dogma – que é viver com o resultado do que os outros pensam. Não deixem o ruído das opiniões dos outros afogar a vossa voz interior. Tenham a coragem de seguir o coração e a intuição. Inexplicavelmente, eles sabem aquilo em que verdadeiramente te queres tornar.”

 

 

“Mantenham-se esfomeados, mantenham-se loucos.”

 

 

Paula Pina

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“O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

Com arreliante regularidade nos chegam aos ouvidos histórias (verídicas) que atestam o canibalismo estético e estreiteza de visão a que estão sujeitas, ainda hoje, muitas crianças e jovens. Correndo o risco da canícula, variados trejeitos faciais e insuficiência respiratória que a repetição de semelhantes narrativas habitualmente nos provoca, optamos pela cataplasma consoladora do comprazimento estético que a novíssima obra de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, oferece, elencando, em formato teatral, sem mais, algumas “pérolas de sabedoria estética e pedagógica” que temos colecionado ao longo dos anos, logo seguidas de imagens das obras de dois artistas – Franz Marc, homenageado, e Eric Carle, autor da homenagem:

 

Ato I

Cena 1

(numa sala de aula)

Professor – Agora vamos pintar por dentro esta linda vaca, tão nossa amiga, que nos dá, vá lá, digam em coro, nos dá… o leite, o queijo, a… a…

Aluno (de braço no ar) – Já sei!… A Becel! A Becel!…

Professor (franzindo o sobrolho) – Não, não é a Becel. Isso é uma marca. A vaca dá-nos a manteiga.

Aluno (tristonho) – Oh! Mas eu pensava que…

Professor (decidido) –  Vá lá. Vamos então pintar as vacas amigas do homem.

Aluna (pondo timidamente o braço no ar) – Professor! Posso dizer uma coisa? A vaca não é minha amiga. A minha mãe diz que a lactose do leite me pode matar…

Professor (irritado) – Pronto! Então, a vaca não tem culpa que a menina seja alérgica. Pinte mas é a vaca, vamos.

(…)

 

Cena 2

Professor (agarrando num dos desenhos) – O que é isto? Isto não é nenhuma vaca. As vacas são brancas, com manchas pretas. Não existem vacas amarelas…

Aluno (prestes a chorar) – Mas eu não sabia… Nunca vi nenhuma. Só fui duas vezes à terra dos meus pais, a Monte Real, e era muito pequeno, não me lembro bem… Pensava que as vacas podiam ser amarelas…

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Die gelbe kuh”, 1911

 

Ato II

Cena 1

(numa sala de jardim de infância e pré-escolar)

Educadora – Os vossos desenhos estão muito bonitos. Agora é o vosso grupo. Mostrem lá aos colegas da sala o que estiveram a pintar a partir da história que eu contei.

Crianças 1, 2 e 3 (mostrando uma pintura) – Pintámos um céu e um cavalo e uma raposa que…

Educadora – Hã? Os cavalos não são azuis, pois não? E as raposas são… vermelhas, não é? Está uma pintura muito, muito… imaginativa, não acham meninos? Mas para a próxima têm de pintar os animais da cor certa, está bem? E o céu não é cor de laranja, pois não meninos? Digam lá à Ana de que cor é o céu… É azul!

Criança 1 (acusadora) – Foi ela, Ana, foi ela! (Virando-se para a colega) Eu bem te disse que as raposas não deviam ser roxas.

Criança 2 (na defensiva) – Pois, mas tu também não sabias. E foste tu que pintaste o cavalo de azul, não foste? E também está errado, não é?

Criança 3 (perplexa) – Mas eu já vi muitos céus cor de laranja e cor de rosa… Oh Ana, mas por que é que o céu não pode ser cor de laranja e cor de rosa? Por que é que não pode?

Educadora (atrapalhada) – Bem, não pode porque… porque… bem, pode mas… Quem quer que eu leia outra vez a história do Elmer?!

(…)

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blauschwarzer fuchs”, 1911

 

Eric Carle presta, com a obra “O artista que pintou um cavalo azul”, lançada nesta semana pela Kalandraka, uma explícita e devida homenagem a Franz Marc (1880-1916). Recorrendo às colagens, como é seu apanágio, em papel de seda colorido, Carle apresenta neste livro um catálogo de animais. A narrativa, de primeira pessoa, e a autoreferência adjetival, serve de base à enumeração de coloridas criaturas que se segue, recorrendo-se ao tipicamente infantil conetor frásico “e”, sempre destacado na segunda das duas páginas em que surge o animal: “Sou um artista e pinto… um cavalo azul e… um crocodilo vermelho e… uma vaca amarela e… um coelho cor de rosa e… um leão verde e… uma raposa roxa e… um urso polar preto e… um burro às bolinhas. Sou um bom artista.”

Repare-se no final humorístico, culminar de um percurso em que aos animais se atribuem cores incomuns, incongruentes com a sua natureza física. E é no burro que todas as cores da paleta se encontram. Atente-se igualmente no facto de ser a pintura do cavalo azul, aquela a cujo começo, de céu amarelo, assistimos no início do texto, a mesma que se apresenta logo de seguida, e se reproduz na última página, tendo a afirmação final “sou um bom artista” como legenda. O artista, menino pintor, olha-nos, de frente, manchado de tinta, orgulhoso do trabalho realizado.

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blaues pferd I”, 1911

 

Em dezembro de 1910, numa famosa carta, Marc atribuía valores emocionais às cores: “O azul é o princípio masculino, adstringente e espiritual. O amarelo é o princípio feminino, gentil, alegre e espiritual. O vermelho é matéria, é brutal, é pesado e é sempre a cor a opor e a ser ultrapassada pelas outras duas.” Em meados de 1911 começa a criar a série de quadros de animais que o tornariam famoso. Morto precocemente, durante a I Guerra Mundial, a sua obra destaca-se talvez menos por ser particularmente representativa das caraterísticas do expressionismo alemão, movimento ao qual ficou associado, mas pelas suas conceções estéticas e empenho associativo em defesa da arte abstrata.

Pode ler-se, na nota biográfica final da obra, a seguinte afirmação de Eric Carle: “O meu leão verde, o meu burro às bolinhas e outros animais pintados com cores ‘erradas’ nasceram realmente nesse dia há 70 anos.” Que dia foi esse? O dia em que, ainda pré-adolescente, um professor de arte chamado Krauss, elogiou o seu estilo livre e lhe deu a conhecer, em segredo, reproduções coloridas da obra de Franz Marc, proibidas pelo regime nazi. Foi um professor esclarecido e corajoso que mudou a vida de Eric Carle. Educadores, professores e pais esclarecidos e corajosos: procura-se.

 

 

livro “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 18 meses]

 

Paula Pina

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