Eça de Queiroz e o regresso às aulas [3ª parte]

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Se aprofundarmos a análise comparativa da obra “Contos”, de Eça de Queiroz, com a versão adaptada por Luísa Ducla Soares, deparamo-nos com a opção pela simplificação sistemática, com recurso à paráfrase e à metáfrase, embora a autora-adaptadora se reja por critérios de fidelidade ao texto original. Tendo em conta os destinatários preferenciais e os objetivos enunciados logo no prefácio, se estivermos a falar da necessidade de se atingir um público massificado, heterogéneo, integrado em contexto escolar de sala de aula, as ilustrações e falas-chave em balão ou legenda, que surgem na versão adaptada, podem ser interessantes ao estabelecerem protocolos de leitura, redirecionando o leitor na visualização de personagens e espaços. A adaptação é útil ainda na inclusão de elementos paratextuais, como as notas e o glossário, que potenciam a intenção pedagógica. O prefácio salienta o didatismo, dirigindo-se ao adulto mediador, funcionando, antes de mais, como justificação de pressupostos e opções concetuais, explanando uma estratégia editorial.

Colocando os dois textos lado a lado, verificamos que a técnica do resumo é utilizada de forma sistemática, concretizando-se em omissões, generalizações ou condensações, aplicadas quer a descrições e elementos espaciais e temporais, quer a acontecimentos e caraterizações físicas e retratos psicológicos, e até a dados de cariz histórico-cultural, filosófico, social e familiar. Relativamente aos “Contos” de Eça de Queiroz, sendo estes lineares por natureza, oferecendo-se já em extensão reduzida, com uma estrutura actancial concentrada, com personagens, tempo e espaços pouco caraterizados, e discurso pouco complexo, justificar-se-á este tipo de procedimento?

 

 

No caso específico do conto “O tesouro”, por exemplo, comparemos o início dos dois textos, o original e a adaptação:

 

“Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara esses senhores mais bravios que lobos.”

(Eça de Queiroz in “O tesouro”)

 

“Os três irmãos Rui, Guanes e Rostabal eram os fidalgos mais pobres do Reino das Astúrias. O seu palácio já não tinha telhas nem vidros nas janelas. A grande lareira da cozinha há muito deixara de se acender. O jantar deles era uma simples côdea de pão com alho. Nas noites geladas iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas. Tanta miséria tornara os três senhores mais bravios que os lobos.”

(Eça de Queiroz “recontado” por Luísa Ducla Soares in “O tesouro”)

 

Porque desaparece o Paço de Medranhos e, mais adiante, a mata de Roquelanes? Porque se omite a última secção da frase de abertura? Será que a caraterização “os fidalgos mais famintos e os mais remendados” não é acessível a um leitor inicial, sendo preferível a sua substituição pelo adjetivo generalista “pobres”? E o que se perde em ritmo de frase e força estilística com a omissão da repetição? Haverá imagem mais forte da fome verdadeira do que esta das éguas roendo as traves da manjedoura? Ao privilegiar-se a frase simples sobre a complexa, assim como a opção pela transformação de frases complexas em frases curtas, sem recurso a articuladores, de facto, a narrativa torna-se veloz e as sequências catalíticas rápidas. Todavia, as simplificações implicam, regra geral, o desaparecimento de uma das caraterísticas mais típicas do estilo de Eça de Queiroz. O que acontece às adjetivações duplas e triplas? E aos advérbios de modo? Ou aos modificadores apositivos, nominais, adjetivais ou preposicionais? Mais ainda, sintaticamente, encontramos frases passivas transformadas em ativas, momentos de discurso indireto ou de narração que se metamorfoseiam em discurso direto, o discurso direto que passa a descrição, o discurso indireto livre a indireto, os sujeitos simples a sujeitos indeterminados. As metáforas despem-se da sua complexidade, sendo substituídas por comparações e enumerações simples sem articuladores. Há substituições lexicais. As repetições são eliminadas. A adjetivação é espremida ao essencial. O advérbio de modo é vencido pelo adjetivo. A pontuação e os diminutivos, juntamente com o discurso indireto livre acentuam o coloquialismo discursivo, facilitando a leitura. Recorre-se com frequência à interjeição e à onomatopeia, criando efeitos dinâmicos no texto, que ressalvam efetivamente a apetência por uma leitura em voz alta, especialmente vocacionada para a infância. O mesmo sucede com a presença de intervenções ativas do narrador, em forma de comentários valorativos ou morais, interrogações retóricas e exclamações.

 

                       Nuno Fonseca, pormenor de ilustração para “O tesouro”

 

Supondo-se que a audiência seria menos seduzida por habilidades estilístico-literárias e se entusiasmaria mais facilmente pela jactância fílmica, a ação decorre em cenas galopantes, com supressões de descrições e eventos. Uma das mais óbvias é a sequência das mortes dos irmãos de Medranhos, por exemplo: não há referência ao conluio entre Rui e Rostabal. Simplesmente Rui prende a égua e Rostabal mata Guanes. Quando Rostabal se vai lavar, Rui mata-o, e pronto. Mas as supressões ocorrem igualmente a outros níveis, nomeadamente cultural e ético-religioso, sendo notória a tentativa de contenção no que se refere a temas tabu, como a sexualidade, a violência ou a fé cristã.

Fizemos a experiência de leitura, com crianças e jovens, presumíveis destinatários da obra, tanto em contexto de classe, como em família. Eis alguns dos comentários:

– O segundo texto parece para bebés.
– Gostei mais do primeiro. Mas o segundo percebe-se melhor.
– Gostei dos dois. Mas havia palavras no primeiro que não percebi bem.
– O primeiro é muito melhor. Vê-se melhor o que está a acontecer. O segundo parece que é um resumo ou assim. Não gostei tanto, mas é mais fácil.
– Acho que o segundo texto foi escrito para miúdos mais pequenos, tipo do segundo ano ou assim…
– Isto é que é o Eça de Queiroz? Pensava que fosse mais difícil do que o Harry Potter… Hum? Há palavras que não sei bem, mas não gostei nada do segundo texto.
– Eu gostei mais do primeiro, mas acho que muita gente vai antes querer o segundo… Porquê? Porque tem menos palavras, é mais pequeno. É bué rápido e se calhar não têm de ir ver no dicionário… Mas gostei mais quando leu o primeiro. O segundo parecia que estava sempre a acabar. Parece que falta qualquer coisa.
– O primeiro é muito melhor.
– O segundo é da Luísa Ducla Soares? Eu já li livros dela.

 

 

Nós também já lemos muitos livros de Luísa Ducla Soares, incluindo o recentíssimo “O som das lengalengas”, da Livros Horizonte. Trata-se de mais uma compilação de variantes de textos da nossa tradição oral, e não só lengalengas, como o título erroneamente faz crer, já que inclui também rimas em jogo e uma canção de embalar. A obra vem acompanhada de um CD, no qual se podem ouvir versões musicadas dos textos, compostas e interpretadas por Daniel Completo, com um acompanhamento coral infantil amadorístico. Com ilustrações de João Vaz de Carvalho, a provável intenção humorística da obra surge logo na capa, com o retrato do trio de autores, em pose estática de desequilíbrio semi-adormecido. Na contracapa, a paródia ao logotipo da His Master’s Voice… O olhar esgazeado e petrificado do sorridente cão infeta, em viral epidemia, as personagens, animais e humanas, que pululam nas ilustrações. Apesar do CD ser um mero subproduto comercial, de qualidade musical e técnica confrangedora, não fazendo jus à riqueza das raízes da tradição musical portuguesa nem ao universo musical infantil, não conseguimos evitar sorrir ao reconhecermos a voz de leitora de Luísa Ducla Soares logo na primeira peça. Aplaudimos, enquanto compiladora, a sua paixão pela divulgação, em múltiplos formatos, dos textos da nossa tradição oral; reconhecemos, enquanto adaptadora, a leitora apaixonada por Eça de Queiroz que é Luísa Ducla Soares.

 

livro com cd “O som das lengalengas”, de Luísa Ducla Soares com ilustrações de João Vaz de Carvalho e música de Daniel Completo
Livros Horizonte, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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