“O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

Com arreliante regularidade nos chegam aos ouvidos histórias (verídicas) que atestam o canibalismo estético e estreiteza de visão a que estão sujeitas, ainda hoje, muitas crianças e jovens. Correndo o risco da canícula, variados trejeitos faciais e insuficiência respiratória que a repetição de semelhantes narrativas habitualmente nos provoca, optamos pela cataplasma consoladora do comprazimento estético que a novíssima obra de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, oferece, elencando, em formato teatral, sem mais, algumas “pérolas de sabedoria estética e pedagógica” que temos colecionado ao longo dos anos, logo seguidas de imagens das obras de dois artistas – Franz Marc, homenageado, e Eric Carle, autor da homenagem:

 

Ato I

Cena 1

(numa sala de aula)

Professor – Agora vamos pintar por dentro esta linda vaca, tão nossa amiga, que nos dá, vá lá, digam em coro, nos dá… o leite, o queijo, a… a…

Aluno (de braço no ar) – Já sei!… A Becel! A Becel!…

Professor (franzindo o sobrolho) – Não, não é a Becel. Isso é uma marca. A vaca dá-nos a manteiga.

Aluno (tristonho) – Oh! Mas eu pensava que…

Professor (decidido) –  Vá lá. Vamos então pintar as vacas amigas do homem.

Aluna (pondo timidamente o braço no ar) – Professor! Posso dizer uma coisa? A vaca não é minha amiga. A minha mãe diz que a lactose do leite me pode matar…

Professor (irritado) – Pronto! Então, a vaca não tem culpa que a menina seja alérgica. Pinte mas é a vaca, vamos.

(…)

 

Cena 2

Professor (agarrando num dos desenhos) – O que é isto? Isto não é nenhuma vaca. As vacas são brancas, com manchas pretas. Não existem vacas amarelas…

Aluno (prestes a chorar) – Mas eu não sabia… Nunca vi nenhuma. Só fui duas vezes à terra dos meus pais, a Monte Real, e era muito pequeno, não me lembro bem… Pensava que as vacas podiam ser amarelas…

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Die gelbe kuh”, 1911

 

Ato II

Cena 1

(numa sala de jardim de infância e pré-escolar)

Educadora – Os vossos desenhos estão muito bonitos. Agora é o vosso grupo. Mostrem lá aos colegas da sala o que estiveram a pintar a partir da história que eu contei.

Crianças 1, 2 e 3 (mostrando uma pintura) – Pintámos um céu e um cavalo e uma raposa que…

Educadora – Hã? Os cavalos não são azuis, pois não? E as raposas são… vermelhas, não é? Está uma pintura muito, muito… imaginativa, não acham meninos? Mas para a próxima têm de pintar os animais da cor certa, está bem? E o céu não é cor de laranja, pois não meninos? Digam lá à Ana de que cor é o céu… É azul!

Criança 1 (acusadora) – Foi ela, Ana, foi ela! (Virando-se para a colega) Eu bem te disse que as raposas não deviam ser roxas.

Criança 2 (na defensiva) – Pois, mas tu também não sabias. E foste tu que pintaste o cavalo de azul, não foste? E também está errado, não é?

Criança 3 (perplexa) – Mas eu já vi muitos céus cor de laranja e cor de rosa… Oh Ana, mas por que é que o céu não pode ser cor de laranja e cor de rosa? Por que é que não pode?

Educadora (atrapalhada) – Bem, não pode porque… porque… bem, pode mas… Quem quer que eu leia outra vez a história do Elmer?!

(…)

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blauschwarzer fuchs”, 1911

 

Eric Carle presta, com a obra “O artista que pintou um cavalo azul”, lançada nesta semana pela Kalandraka, uma explícita e devida homenagem a Franz Marc (1880-1916). Recorrendo às colagens, como é seu apanágio, em papel de seda colorido, Carle apresenta neste livro um catálogo de animais. A narrativa, de primeira pessoa, e a autoreferência adjetival, serve de base à enumeração de coloridas criaturas que se segue, recorrendo-se ao tipicamente infantil conetor frásico “e”, sempre destacado na segunda das duas páginas em que surge o animal: “Sou um artista e pinto… um cavalo azul e… um crocodilo vermelho e… uma vaca amarela e… um coelho cor de rosa e… um leão verde e… uma raposa roxa e… um urso polar preto e… um burro às bolinhas. Sou um bom artista.”

Repare-se no final humorístico, culminar de um percurso em que aos animais se atribuem cores incomuns, incongruentes com a sua natureza física. E é no burro que todas as cores da paleta se encontram. Atente-se igualmente no facto de ser a pintura do cavalo azul, aquela a cujo começo, de céu amarelo, assistimos no início do texto, a mesma que se apresenta logo de seguida, e se reproduz na última página, tendo a afirmação final “sou um bom artista” como legenda. O artista, menino pintor, olha-nos, de frente, manchado de tinta, orgulhoso do trabalho realizado.

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blaues pferd I”, 1911

 

Em dezembro de 1910, numa famosa carta, Marc atribuía valores emocionais às cores: “O azul é o princípio masculino, adstringente e espiritual. O amarelo é o princípio feminino, gentil, alegre e espiritual. O vermelho é matéria, é brutal, é pesado e é sempre a cor a opor e a ser ultrapassada pelas outras duas.” Em meados de 1911 começa a criar a série de quadros de animais que o tornariam famoso. Morto precocemente, durante a I Guerra Mundial, a sua obra destaca-se talvez menos por ser particularmente representativa das caraterísticas do expressionismo alemão, movimento ao qual ficou associado, mas pelas suas conceções estéticas e empenho associativo em defesa da arte abstrata.

Pode ler-se, na nota biográfica final da obra, a seguinte afirmação de Eric Carle: “O meu leão verde, o meu burro às bolinhas e outros animais pintados com cores ‘erradas’ nasceram realmente nesse dia há 70 anos.” Que dia foi esse? O dia em que, ainda pré-adolescente, um professor de arte chamado Krauss, elogiou o seu estilo livre e lhe deu a conhecer, em segredo, reproduções coloridas da obra de Franz Marc, proibidas pelo regime nazi. Foi um professor esclarecido e corajoso que mudou a vida de Eric Carle. Educadores, professores e pais esclarecidos e corajosos: procura-se.

 

 

livro “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 18 meses]

 

Paula Pina

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Filed under Artes plásticas, Ilustração, Literatura

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