Rabiscar, desenhar, colorir, pintar,…

 

A voz da professora vai ficando cada vez mais longe… mais longe… ele olha pela janela… assalta-o a memória das férias, do passeio de canoa… Não, não pode ser. Tenta concentrar-se na voz monocórdica, que vai ficando cada vez mais aguda com o esforço e cansaço. A professora vira-se e começa a desenhar um gráfico no quadro, sem parar de falar. Agarrando-se à caneta, como boia de salvação, as notas soltas que tirava tornam-se setas e figuras geométricas. Umas espirais no canto superior direito do caderno, um jogo do galo. Os outros recantos da página enchem-se subitamente de olhos e do símbolo do Super Homem…

(…)

– Sim, avó, está bem. Sim. Sim, adorei a camisola. Não. Não. Não faz mal ter ursos e gatinhos… Pois são. Hum, hum… Sim, comi. Comi. Não, não se estragou. Estava bom. Pronto. Pronto. Beijinhos também para ti. Também para o avô. Está bem. Vou à farmácia. Está bem, não me esqueço de comprar o chá… Sim, e da pomada. Pronto. Pronto. Beijinhos. Tchau. Tchau.

A porta da rua fechou-se, com um estrondo atrás dela. A casa ficou silenciosa. O bloco de notas ao pé do telefone, esse, enchera-se de traços, de flores, de rabiscos e letras ornamentadas, uma casa e um raio de tempestade ziguezagueante.

(…)

Está provado, afirmam diversos especialistas, que rabiscar livremente aumenta a memória e a concentração. Rabiscar requer um esforço cognitivo mínimo, suficiente apenas para assegurar que os recursos mentais estão focalizados na atividade mais importante. Ou seja, rabiscar acaba por constituir uma distração adequada, na dose certa, que, contraintuitivamente, nos obriga a focalizar na execução da tarefa rotineira, aborrecida, repetitiva, desinteressante, mas essencial, que precisa de ser completada. Sem o apoio dos rabiscos, o jovem estudante teria certamente enveredado pela viagem mental de canoa. Sem o auxílio dos rabiscos, a conversa telefónica não teria conduzido à concretização da lista de tarefas.

 

 

Amplamente utilizado por psicopedagogos como instrumento de avaliação e estratégia comunicativa com crianças, o jogo dos rabiscos está presente, de um modo mais ou menos óbvio, mais ou menos criativo, em versões dos velhinhos (ora amados, ora odiados) livros para colorir, que têm, em tempos recentes, invadido o mercado editorial português. Com a chancela de editoras respeitáveis na área da literatura para crianças, como a Civilização, a Edicare, a Gailivro e a Orfeu Mini, estas obras caraterizam-se, paradoxalmente, pelo oposto do que apregoam nos títulos.

Se os principais conceitos inerentes ao ato de rabiscar, de fazer “doodles”, são a liberdade (de traços, de ação, de estilo, de contexto, de suportes…) e ausência de regras, as coleções agora apresentadas oferecem, precisamente, oportunidades de criação plástica segundo normas fixas. Claro que os cenários para personalizar são originais; as ideias apontadas são divertidas; as atividades são sugestivas e variadas; o papel é geralmente bom (o que é sempre maravilhoso). Em tom mais ou menos didatorial, didático ou até poético, os jovens destinatários preferenciais são convidados a ler e a criar… criativamente. Misericordiosamente poupados à angústia da folha em branco. Caridosamente salvos das tristes folhinhas fotocopiadas para colorir com impressões de gosto duvidoso de figurinhas dos desenhos animados ou aparentados, retirados à pressa da internet, que os educadores e professores assoberbados e bem intencionados lhes colocam à frente. Miraculosamente resgatados do contacto com os livrinhos de atividades comprados pela avó na papelaria da esquina para o menino pintar por dentro, muito sossegadinho, com lápis de cera, depois de fazer as fichazinhas dos trabalhinhos de casa, enquanto a avó faz o jantar, passa a ferro e dá o biberão ao mano.

 

 

As propostas da Civilização acabam, infelizmente, por resvalar para o estilo ficha de atividade, não obstante algumas ideias interessantes que não chegam a ser exploradas.

 

 

As melhores sugestões chegam-nos via Edicare, de Fiona Watt, com diferentes ilustradores, em formato convencional ou em versão de bolso: desenhar, pintar, colorir, completar, transformar, terminar, copiar, decorar, preencher, criar padrões, rabiscar, sempre com atividades originais e em estilos diferentes. Claro que a tendência natural dos artistas em perspetiva será seguir o modelo oferecido, mas o contacto com a variedade de opções estéticas é valioso.

 

 

A Gailivro, com Nikalas Catlow, constrói em cada página uma proposta em forma de mini história, pergunta ou comentário. O estilo, ainda que simples e aliciante, é sempre o mesmo, e a fraca qualidade do papel, quase transparente, não permite a utilização de tintas ou canetas de feltro.

 

 

A Orfeu Mini propõe-nos algo próximo de uma narrativa-catálogo de coisas favoritas, legendadas, a partir da frase inicial “No meu caderno desenho todas as coisas de que gosto…”, da autoria de Laurent Moreau. Ao título “Dias felizes” (numa tradução pouco feliz de “Les beaux instants”), acrescenta-se um subtítulo desconcertante: “Um imaginário para colorir”.

 

Já o “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon, também da Orfeu Mini, se destina àqueles que desejam iniciar-se nos mistérios das cores e no manejo de materiais e pintura “a sério”: as páginas enormes, de cartolina, convidam, de facto, à experiência com os tubos de guache e pincéis; as dicas técnicas são úteis, na dose certa.

Atenção a todos os livres rabiscadores de todas as idades: há por aí muitas tentativas de interpretação pseudo-psico-cognitivo-qualquer-coisa que vos podem deixar preocupados. Não se aflijam se desenharem muitas setas, estrelas, corações inteiros ou partidos, olhos, espirais ou flores. Não se atormentem com o vosso fraco talento para o desenho (provavelmente agudizado por algumas aulas de Educação Visual ou por algum “dois” na pauta de avaliação). Desenhem. Rabisquem à vontade. Sem regras. Ou, se quiserem, com algumas delas. Mas só algumas.

 

livro “Riscos e rabiscos – Vou de férias”, s/a
livro “Riscos e rabiscos – Super rabiscos”, de Woody Fox
livro “Riscos e rabiscos – Quinta”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Livro das férias”, de Nikalas Catlow
livro “Riscos e rabiscos – Horas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Formas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Zoo”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Era uma vez”, de Andy Cooke
livro “Riscos e rabiscos – A B C”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – 1 2 3”, de Nancy Meyers
todos Civilização, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “Desenhar, rabiscar e colorir”, de Fiona Watt com ilustrações de Erica Harrison e Katie Lovell
Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livros “Rabiscar e desenhar – Livro de bolso” (dois volumes: azul e vermelho), de Fiona Watt com ilustrações de Non Figg
ambos Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “E tu, rabiscas?”, de Nikalas Catlow
Gailivro, 2011
[a partir dos 5 anos]

livro “Dias felizes – Um imaginário para colorir”, de Laurent Moreau
Orfeu Mini, 2010
[a partir dos 6 anos]

livro “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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4 Comments

Filed under Ilustração, Literatura

4 responses to “Rabiscar, desenhar, colorir, pintar,…

  1. Sara

    Paula no seu melhor…Obrigada por esta excelente crítica e por partilhar / elucidar os pontos de vista e a importância do rabiscar e da criatividade inerente a esta atividade :-)

    • Sara,

      Não sei se me apetece apenas escrever-lhe uma resposta agradecida… Acho que vou, em vez disso, agarrar no meu lápis cor de rosa preferido e rabiscar imensos corações saltitantes bombeando estrelas e cometas, no topo do meu bloco de apontamentos.

      Paula Pina

  2. Sara

    Paula, Paula, até a sua resposta me deixa “meio sem resposta”… obrigada pelo rabisco…perfeitamente visualizado :) um beijinho.

  3. Renata

    Eu quero fazer isso

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