“O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone

 

A jovem e promissora Gato na Lua premiou-nos, até agora, com quatro obras, exemplo do que pretende vir a ser uma visão editorial diversificada: temos de novo à venda “Um lobo culto”, de Becky Bloom e Pascal Biet, uma presença permanente na lista de recomendações do Plano Nacional de Leitura; surge-nos ainda uma nova versão do tradicional “O gato das botas”, com adaptação e ilustrações de Ayano Imai; mas as duas obras que merecem o nosso particular destaque são, inequivocamente, o divertido “O que é o amor?” de Davide Cali, com ilustrações de Anna Laura Cantone, e o belíssimo “O meu balão vermelho”, de Kazuaki Yamada, que aqui apresentaremos em breve.

Davide Cali e Anna Laura Cantone são já bem conhecidos em Portugal: tanto como dupla em “Quero uma mamã robot” (Horizonte, 2007) e “Um papá à medida” (Ambar, 2007), como em outras parcerias de sucesso, nomeadamente “Eu espero” (Davide Cali com Serge Bloch, na Bruaá, 2008), “Um dia, um guarda-chuva” (Davide Cali com Valerio Vidali, para a Planeta Tangerina, 2011); ou “Alice entre as gravuras” (Anna Laura Cantone ilustrando Gianni Rodari para a Dinalivro, 2008) e “Uma noiva bela, belíssima” (Anna Laura Cantone com Beatrice Masini, Horizonte, 2002).

 

 

“O que é o amor?” é um álbum ilustrado para crianças. Correto. Mas apetece-nos pensá-lo como um tratado de filosofia. O título interrogativo, típico das indagações filosóficas mais complexas (na realidade, esta pode ser considerada uma das interrogações chave da história da humanidade), afigura-se igualmente surpreendente e incomodativo quando debitado pela boca de uma criança. Neste caso, se toda a narrativa se constrói cumulativamente em torno da demanda interrogativa da pequena Emma junto do seu núcleo familiar, o que é certo é que chegamos ao final com diversas respostas… mas sem “a” resposta (o que também constitui, em si, uma resposta) e com um convite implícito para que sejamos nós, leitores pequenos e grandes, a criar outras respostas. Confusos?

Apesar de na tradução se perder algo da dimensão poética e rítmica do texto original, cada personagem que surge oferece uma definição de “amor”, simultaneamente concisa e metafórica, uma perfeita analogia em função dos seus interesses e atividades. Define-se o conceito abstrato de “amor” recorrendo à sua objetificação concreta. O resultado é uma compilação delirante e hilariante, sobretudo quando a protagonista reflete maduramente sobre as respostas e decide colocar em prática os ensinamentos. Os binómios seriedade/humor, intensidade/leveza, alegria/ansiedade surgem no texto e são acompanhados pela ilustração. Na verdade, equilíbrio semântico e icónico reforçam a dimensão cómica da obra.

 

 

A ilustração integra detalhes subtis de décor retro e um universo doméstico ultrarromântico, simbólico e feminino, de filigranas de papel, flores e borboletas, numa paleta de cores contida. As imagens pedem tempo para o pormenor. Em torno das figuras espiralam e rodopiam linhas, descobrem-se colagens, cenários e objetos de tecido, fazem-se flores de rosetas de croché, que adicionam textura a elementos já de si dinâmicos. Interessante, ainda, é a utilização de elementos do cenário, como a porta do armário da coleção de carrinhos e a cama, para aconchegar o texto.

 

 

Paradoxalmente, as personagens assumem uma fisicalidade de cartoon, com corpos ora alongados, ora inchados, quase grotescos, e ostentam expressivos rostos de caricatura: os olhos são globosos, esbugalhados, com pálpebras de persiana, os narizes são disformes, as bocas concretizam-se em linhas expressivas ou em lábios clássicos, ou arreganham-se em amplitudes de bocejo ou sorrisos de dentadura completa. Nota-se ainda a irónica marca do universo dos contos de fadas, nomeadamente através de uns estereotipados sapos (ou rãs?), aguardando a chegada do amor, em poses expectantes e compostas. E o que dizer das provocadoras borboletas, irritantes na sua obsessiva e ziguezagueante presença, do princípio até ao fim da obra? Dizem que a borboleta é a metáfora perfeita da teoria do caos, e a ancestral representação da feminilidade e da harmonia conjugal, do amor, do renascimento e da metamorfose. Mas é também o símbolo da paciência para refletir e da demanda.

 

livro “O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone
Gato na Lua, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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