Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 5]

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Como é que faz para se “lembrar” de coisas que ainda não existem? Como é que trabalha a imaginação?

Madalena Matoso: Às vezes, tenho a sensação que cada coisa que fazemos é uma preparação para a próxima. Como se cada desenho tivesse lá dentro todos os que fizemos até ali (e não fosse possível existir sem todos os que ficaram para trás). Assim, as ideias novas que surgem em cada projeto são uma base para as seguintes. E essas ideias podem vir de vários sítios. Quando faço um livro, concentro-me muito no texto. Há o que está escrito e há um universo por trás das palavras. Podemos usar as ideias do texto como porta para outras, podemos fazer uma ilustração que seja ela mesma uma “porta”, podemos acrescentar ideias nossas… Nesse sentido, penso que fazer um álbum ilustrado é um verdadeiro trabalho de equipa, mesmo que nunca se tenha conhecido o autor (ou mesmo que sejamos nós próprios o autor do texto). Depois, tudo o que vivemos e fazemos, se estivermos atentos, pode ajudar-nos a inventar as tais coisas que não existem. Há o cinema, os livros, andar na rua, a música, memórias de quando éramos pequenos, pessoas que conhecemos,… Às vezes as ideias aparecem quando estou a andar de carro ou de comboio — é como se estivesse a ver o mundo através de uma moldura, e essa moldura faz com que as coisas nos pareçam mais distantes e novas.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Trava-línguas” (Planeta Tangerina, 2008)

 

Madalena Matoso: Esta ilustração foi feita para o “Trava-línguas” (com recolha de Dulce de Souza Gonçalves). Já tinha há alguns anos a vontade de trabalhar a tipografia como imagem, e o “Trava-línguas” foi o pretexto ideal. Para este livro, desenhei um alfabeto a partir da “Century gothic” (1991, Monotype Imaging, que por sua vez é baseada na “Twentieth century”, de 1937, da Lanston Monotype) e fiz carimbos com esse alfabeto. Todas as imagens do livro foram desenhadas com esses carimbos. Primeiro, ia experimentando fazer os desenhos em folhas de rascunho. Quando me parecia que havia ali qualquer coisa que valia a pena, repetia a composição com um papel vegetal e ia acrescentando ou melhorando alguns aspetos. Depois, digitalizei todos os desenhos e trabalhei-os no computador. Nessa fase tentei aperfeiçoar alguns detalhes e alterei a escala de algumas letras — para que a figura que formavam fosse mais perfeita e ganhasse pormenor. Mas acabei por achar que manter sempre a mesma escala ao longo do livro era mais interessante, e voltei aos primeiros desenhos, mesmo que fossem menos perfeitos. Foi uma escolha entre um desenho mais espontâneo, com erro, ou um desenho mais “limado”. Escolhemos o erro.

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