“Crictor”, de Tomi Ungerer

 

Tomi Ungerer (nascido em 1931), um dos artistas mais polifacetados, influentes, controversos e geniais da história da literatura para crianças, da arquitetura, da escultura, do design, da publicidade, tem sido recentemente alvo de merecida e renovada atenção, um pouco por todo o mundo. A ele voltaremos a 28 de novembro, dia do seu aniversário, para retrospetivamente desvendarmos um pouco mais da biografia, obra e personalidade.

O implacável olhar crítico de Ungerer e as suas ousadias artísticas suscitam polémica, e as suas afirmações são manifestos: “toda a gente devia saber jabberwocky” (a língua absurda de Carroll, Belloc e Lear), “as minhas obras são o pesadelo dos pedagogos”, “gosto que as crianças se riam dos adultos”. Adjetivos como “traumatizante”, “perverso” ou “instigador” foram aplicados ao autor, e, como consequência, os seus livros para crianças deixaram de ser editados. Mas, contrariamente ao previsto, Ungerer não caiu no esquecimento, muito pelo contrário. Exemplos disso são a reedição recente das suas obras (algumas não disponíveis desde 1970), ou o Musée Tomi Ungerer, inaugurado em 2007, em Estrasburgo, já considerado um dos dez melhores museus da Europa.

Com “Crictor”, publicado originalmente em 1958, a Kalandraka amplia a lista de obras de Ungerer traduzidas para português, estreada com o clássico “Os três bandidos” (1961), em 2007. “Crictor” é divertido e supreendente. Ao refinado toque neoclássico francês, visível na elegância das linhas e nos décors, junta-se o exotismo africano de algumas referências e o insólito da narrativa. Recorrendo a uma paleta reduzida de cores em fundo sóbrio (tons femininos e requintados de cor de rosa aliados à singeleza vegetal dos verdes), temos uma síntese perfeita de dois universos: a cidadezinha francesa, na qual habita uma frágil, solitária e sofisticada senhora idosa, Madame Louise Bodot; o distante e misterioso terrítório africano, e o filho de Madame Bodot, estereótipo do explorador, que por lá estuda répteis.

Uma jiboia, ou melhor, uma boa constritora, é a mascote protagonista da história e futura heroína da cidade. Bem humorado e didático, “Crictor” fará as delícias dos que desejam iniciar as suas crias nos mistérios da literacia e da numeracia. Entre a ilustração, a banda desenhada e o filme de animação, entre o manual e a narrativa exemplar, “Crictor” conjuga o irónico e o absurdo, o satírico e o cómico, numa história de aceitação mútua e integração, para todas as idades, raças… e feitios.

Felizmente, a edição portuguesa não acrescentou nenhum subtítulo, ao contrário da brasileira: “Crictor, a serpente boazinha”. Tomi Ungerer iria detestar. Nós também. “Crictor”, apenas, está muito bem.

 

livro “Crictor”, de Tomi Ungerer
Kalandraka, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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