Monthly Archives: October 2011

Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 3]

 

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Acha que tem estilo? Ou acha que tem um estilo próprio? Acha que é “especial”?

Madalena Matoso: Quando estou a fazer uma ilustração, ter um estilo não é o que mais me preocupa. Acho que é importante ter uma voz própria, mas isso vai-se construindo naturalmente. O que mais gosto é de experimentar coisas novas, de andar à procura, e isso faz com que trabalhe com muitos tipos de técnicas, com materiais diferentes… Vejo os livros como pequenos laboratórios em que posso experimentar ideias, e isso entusiasma-me muito. Mas, à medida em que vamos fazendo trabalhos (no meu caso, são maioritariamente livros), a tal voz própria vai emergindo, porque somos a mesma pessoa, pensamos com a mesma cabeça. Às vezes podemos trabalhar em técnicas muito diferentes, mas a forma como ocupamos uma página ou abordamos um assunto vai definindo o tal “estilo” próprio. Mas não me vejo a cristalizar num tipo de representação, numa gama de cores, para ser fiel a um estilo. Em cada trabalho gosto que haja coisas novas para mim e para os leitores.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Andar por aí” (Planeta Tangerina, 2009)

 

Madalena Matoso: Esta ilustração foi feita para as guardas do livro “Andar por aí”. Gosto muito desse texto da Isabel Minhós Martins. É um livro sobre um avô e um neto que “andam por aí”. Não vão a nenhum lado em especial, não têm nenhuma tarefa em mãos… O único objetivo é deambular pela cidade como se a estivessem a ver pela primeira vez.

Gosto de fazer os desenhos das guardas porque não estamos a ilustrar nenhuma passagem em particular do texto, mas podemos tentar captar a essência do livro e condensá-la numa imagem. Há guardas mais gráficas, com um padrão, por exemplo, há outras que nos dão pistas sobre a história, há outras que nos dizem o “sítio” da história… São uma espécie de genérico do livro. Nestas guardas, a planta da cidade transformou-se em pássaro.

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Eça de Queiroz e o regresso às aulas [3ª parte]

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Se aprofundarmos a análise comparativa da obra “Contos”, de Eça de Queiroz, com a versão adaptada por Luísa Ducla Soares, deparamo-nos com a opção pela simplificação sistemática, com recurso à paráfrase e à metáfrase, embora a autora-adaptadora se reja por critérios de fidelidade ao texto original. Tendo em conta os destinatários preferenciais e os objetivos enunciados logo no prefácio, se estivermos a falar da necessidade de se atingir um público massificado, heterogéneo, integrado em contexto escolar de sala de aula, as ilustrações e falas-chave em balão ou legenda, que surgem na versão adaptada, podem ser interessantes ao estabelecerem protocolos de leitura, redirecionando o leitor na visualização de personagens e espaços. A adaptação é útil ainda na inclusão de elementos paratextuais, como as notas e o glossário, que potenciam a intenção pedagógica. O prefácio salienta o didatismo, dirigindo-se ao adulto mediador, funcionando, antes de mais, como justificação de pressupostos e opções concetuais, explanando uma estratégia editorial.

Colocando os dois textos lado a lado, verificamos que a técnica do resumo é utilizada de forma sistemática, concretizando-se em omissões, generalizações ou condensações, aplicadas quer a descrições e elementos espaciais e temporais, quer a acontecimentos e caraterizações físicas e retratos psicológicos, e até a dados de cariz histórico-cultural, filosófico, social e familiar. Relativamente aos “Contos” de Eça de Queiroz, sendo estes lineares por natureza, oferecendo-se já em extensão reduzida, com uma estrutura actancial concentrada, com personagens, tempo e espaços pouco caraterizados, e discurso pouco complexo, justificar-se-á este tipo de procedimento?

 

 

No caso específico do conto “O tesouro”, por exemplo, comparemos o início dos dois textos, o original e a adaptação:

 

“Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara esses senhores mais bravios que lobos.”

(Eça de Queiroz in “O tesouro”)

 

“Os três irmãos Rui, Guanes e Rostabal eram os fidalgos mais pobres do Reino das Astúrias. O seu palácio já não tinha telhas nem vidros nas janelas. A grande lareira da cozinha há muito deixara de se acender. O jantar deles era uma simples côdea de pão com alho. Nas noites geladas iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas. Tanta miséria tornara os três senhores mais bravios que os lobos.”

(Eça de Queiroz “recontado” por Luísa Ducla Soares in “O tesouro”)

 

Porque desaparece o Paço de Medranhos e, mais adiante, a mata de Roquelanes? Porque se omite a última secção da frase de abertura? Será que a caraterização “os fidalgos mais famintos e os mais remendados” não é acessível a um leitor inicial, sendo preferível a sua substituição pelo adjetivo generalista “pobres”? E o que se perde em ritmo de frase e força estilística com a omissão da repetição? Haverá imagem mais forte da fome verdadeira do que esta das éguas roendo as traves da manjedoura? Ao privilegiar-se a frase simples sobre a complexa, assim como a opção pela transformação de frases complexas em frases curtas, sem recurso a articuladores, de facto, a narrativa torna-se veloz e as sequências catalíticas rápidas. Todavia, as simplificações implicam, regra geral, o desaparecimento de uma das caraterísticas mais típicas do estilo de Eça de Queiroz. O que acontece às adjetivações duplas e triplas? E aos advérbios de modo? Ou aos modificadores apositivos, nominais, adjetivais ou preposicionais? Mais ainda, sintaticamente, encontramos frases passivas transformadas em ativas, momentos de discurso indireto ou de narração que se metamorfoseiam em discurso direto, o discurso direto que passa a descrição, o discurso indireto livre a indireto, os sujeitos simples a sujeitos indeterminados. As metáforas despem-se da sua complexidade, sendo substituídas por comparações e enumerações simples sem articuladores. Há substituições lexicais. As repetições são eliminadas. A adjetivação é espremida ao essencial. O advérbio de modo é vencido pelo adjetivo. A pontuação e os diminutivos, juntamente com o discurso indireto livre acentuam o coloquialismo discursivo, facilitando a leitura. Recorre-se com frequência à interjeição e à onomatopeia, criando efeitos dinâmicos no texto, que ressalvam efetivamente a apetência por uma leitura em voz alta, especialmente vocacionada para a infância. O mesmo sucede com a presença de intervenções ativas do narrador, em forma de comentários valorativos ou morais, interrogações retóricas e exclamações.

 

                       Nuno Fonseca, pormenor de ilustração para “O tesouro”

 

Supondo-se que a audiência seria menos seduzida por habilidades estilístico-literárias e se entusiasmaria mais facilmente pela jactância fílmica, a ação decorre em cenas galopantes, com supressões de descrições e eventos. Uma das mais óbvias é a sequência das mortes dos irmãos de Medranhos, por exemplo: não há referência ao conluio entre Rui e Rostabal. Simplesmente Rui prende a égua e Rostabal mata Guanes. Quando Rostabal se vai lavar, Rui mata-o, e pronto. Mas as supressões ocorrem igualmente a outros níveis, nomeadamente cultural e ético-religioso, sendo notória a tentativa de contenção no que se refere a temas tabu, como a sexualidade, a violência ou a fé cristã.

Fizemos a experiência de leitura, com crianças e jovens, presumíveis destinatários da obra, tanto em contexto de classe, como em família. Eis alguns dos comentários:

– O segundo texto parece para bebés.
– Gostei mais do primeiro. Mas o segundo percebe-se melhor.
– Gostei dos dois. Mas havia palavras no primeiro que não percebi bem.
– O primeiro é muito melhor. Vê-se melhor o que está a acontecer. O segundo parece que é um resumo ou assim. Não gostei tanto, mas é mais fácil.
– Acho que o segundo texto foi escrito para miúdos mais pequenos, tipo do segundo ano ou assim…
– Isto é que é o Eça de Queiroz? Pensava que fosse mais difícil do que o Harry Potter… Hum? Há palavras que não sei bem, mas não gostei nada do segundo texto.
– Eu gostei mais do primeiro, mas acho que muita gente vai antes querer o segundo… Porquê? Porque tem menos palavras, é mais pequeno. É bué rápido e se calhar não têm de ir ver no dicionário… Mas gostei mais quando leu o primeiro. O segundo parecia que estava sempre a acabar. Parece que falta qualquer coisa.
– O primeiro é muito melhor.
– O segundo é da Luísa Ducla Soares? Eu já li livros dela.

 

 

Nós também já lemos muitos livros de Luísa Ducla Soares, incluindo o recentíssimo “O som das lengalengas”, da Livros Horizonte. Trata-se de mais uma compilação de variantes de textos da nossa tradição oral, e não só lengalengas, como o título erroneamente faz crer, já que inclui também rimas em jogo e uma canção de embalar. A obra vem acompanhada de um CD, no qual se podem ouvir versões musicadas dos textos, compostas e interpretadas por Daniel Completo, com um acompanhamento coral infantil amadorístico. Com ilustrações de João Vaz de Carvalho, a provável intenção humorística da obra surge logo na capa, com o retrato do trio de autores, em pose estática de desequilíbrio semi-adormecido. Na contracapa, a paródia ao logotipo da His Master’s Voice… O olhar esgazeado e petrificado do sorridente cão infeta, em viral epidemia, as personagens, animais e humanas, que pululam nas ilustrações. Apesar do CD ser um mero subproduto comercial, de qualidade musical e técnica confrangedora, não fazendo jus à riqueza das raízes da tradição musical portuguesa nem ao universo musical infantil, não conseguimos evitar sorrir ao reconhecermos a voz de leitora de Luísa Ducla Soares logo na primeira peça. Aplaudimos, enquanto compiladora, a sua paixão pela divulgação, em múltiplos formatos, dos textos da nossa tradição oral; reconhecemos, enquanto adaptadora, a leitora apaixonada por Eça de Queiroz que é Luísa Ducla Soares.

 

livro com cd “O som das lengalengas”, de Luísa Ducla Soares com ilustrações de João Vaz de Carvalho e música de Daniel Completo
Livros Horizonte, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Eça de Queiroz e o regresso às aulas [2ª parte]

[ 1. ]

 

 

Regra geral, o principal objetivo das adaptações infantis ou juvenis dos clássicos da literatura é estimular a leitura de textos canónicos. Todavia, se assim é, cabe-nos perceber o que terão estas obras canónicas de tão especial que, apesar de não serem explicitamente destinadas a essa audiência em particular, a ela devam ser oferecidas. Durante a nossa infância, nunca a menor dúvida ensombrou aquele que era considerado um processo de descoberta natural e obrigatório: os clássicos iriam mais cedo ou mais tarde ser lidos, em edições de bolso ou em pesadas encadernações adornadas a ouro, em volumes de capas esfiapadas pelo uso ou em requintadas edições ilustradas, desde as epopeias clássicas até aos “clássicos” da Vampiro. E esta era uma certeza.

Lembro-me de olhar gulosamente para as capas vermelhas enceradas das obras completas de Eça de Queiroz da Livros do Brasil enquanto me passavam para as mãos “A morgadinha dos canaviais” e “Uma família inglesa”, de Júlio Dinis, aos nove anos, alternando com os “clássicos” de Enid Blyton, de Charles Dickens, com Agatha Christie e “As mil e uma noites” pelo meio, e ainda, claro, “A ilha do tesouro” e “Uma agulha no palheiro”, juntamente com Ellery Queen, e “Les aventures de Tintin” no original francês. Avançava-se depois para os russos, com Tolstoi e Dostoievski, para Jane Austen e irmãs Brontë, e ainda Sófocles, com o “Édipo Rei”. Como é (era mesmo!) óbvio, antes já tínhamos digerido as “Fábulas” de Esopo e de La Fontaine, todos os contos de Perrault, dos irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, todos os contos de Sophia de Mello Breyner Andresen e Matilde Rosa Araújo, os contos de Oscar Wilde e os contos populares da Ásia, na tradução de Pedro Tamen, na edição com a chancela da UNESCO. O “Dom Quixote”, de Cervantes, era sempre esperado com grande expetativa, assim como o Jonathan Swift de “As viagens de Gulliver” e os volumes de Alexandre Dumas, pois não perdíamos um episódio dos desenhos animados.

Só bastante mais tarde me apercebi, numa  visita à biblioteca da escola com a professora de português, que havia versões “adaptadas para a minha idade”. Aliás, tinha passado uma imensa vergonha na aula, depois da leitura em voz alta de um excerto do manual com “As pupilas do Senhor Reitor”. Na ingenuidade dos meus dez anos, a resposta a uma pergunta de interpretação fora dada com base na leitura da obra integral, incluindo por isso a menção ao nome de uma personagem, omitido no excerto. Fora por isso publicamente criticada e a resposta penalizada, para minha grande estupefação e dor.

As adaptações que me foram parar às mãos naquela altura sempre me pareceram infantilizações desnecessárias de uma linguagem que, apesar de por vezes desafiadora ou nem sempre totalmente inteligível, nunca me parecera inacessível. O texto surgia simplificado, mas muito menos cativante; as passagens mais aliciantes (e potencialmente mais corruptoras também) desapareciam misteriosamente. Nunca me preocupei com o facto de saltar frases, parágrafos, ou até páginas inteiras nos originais; nunca me atormentou a leveza com que avançava capítulos, voltava atrás, relia, ignorava ou decorava passagens; nunca me senti penalizada por começar pelo fim, deixar a meio e repegar mais tarde ou abandonar por completo; nunca fui censurada por ler muitas coisas ao mesmo tempo, de forma assistemática e selvagem, ou por decidir não ler. Nunca me passou pela cabeça, ou pela cabeça dos adultos que me acompanhavam, julgo eu (dotados, diga-se de passagem, de uma cultura literária mínima ou inexistente), censurar os meus métodos de leitura. E nessa época ninguém falava ainda dos “direitos inalienáveis do leitor” de Daniel Pennac…

 

 

O interesse pela leitura dos clássicos e de obras de autores consagrados é ditado, em primeiro lugar, pelas instâncias educativas (famílias, educadores, professores), governamentais, autorais e editoriais. Mas as crianças e jovens que leem verdadeiramente, fazem-no simplesmente “porque sim”. Não exibem preocupações programáticas, filosóficas, teórico-literárias, linguísticas, autorais ou simbólico-culturais. Logo, os prefácios, prólogos e notas das adaptações, mesmo que chamem reiteradamente a atenção para as vantagens da leitura do original, mesmo que apontem diligentemente para a necessidade de descoberta de um autor em toda a sua dimensão artística, estarão condenadas ao esquecimento ou serão pura e simplesmente ignorados.

 

[continua amanhã, 3 de outubro]

 

Paula Pina

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Eça de Queiroz e o regresso às aulas [1ª parte]

Eça de Queiroz, nas suas “Cartas de Inglaterra”  (1903), escreveu: “Eu às vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças. Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação pela leitura. Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros os portugueses só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual.” O texto de Eça continua, referindo o exemplo inglês e lamentando o facto de se “sepultar” a inteligência dos “nossos filhos sob grossas camadas de latim”, de retórica e “de lógica (de lógica, Deus piedoso!). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!”.

 

 

Eis-nos chegados a setembro. Os pais mais previdentes consultaram logo no final do ano letivo as listas de manuais escolares e fizeram as respetivas encomendas, não fosse dar-se o caso de os ditos manuais esgotarem, como frequentemente acontece, não obstante supliciantes e atempadas diligências. Outros ainda (ou os mesmos) terão enfiado, talvez não tão subrepticiamente quanto seria desejável, entre os DVDs, CDs e gadgets de última geração atulhados no fundo das mochilas de férias dos seus púberes herdeiros, algumas das obras de leitura obrigatória ou recomendada no Plano Nacional de Leitura. Alimentados quiçá pelo fogo vago da esperança de umas férias tão relaxantes quanto educativas, planearam leituras em família, acampamentos culturais, umas páginas de um clássico com salpicos de piscina, umas antologias para as horas da digestão, uma ou outra peregrinação ao alfarrabista da terra, uma passeata pela feira do livro da avenida. Adquiriram ainda uns “kits” de cartas-“quiz” de ciências, história e língua portuguesa com a chancela de faculdades credenciadas, e uns livros com imagens para completar, desenhar ou colorir, para os pequenotes não iniciados nos mistérios da decifração da escrita.

Eis-nos em setembro. Folhetos de hipermercados atulhavam a caixa de correio anunciando distintas promoções, descontos estonteantes, saldos piramidais. A lista de material escolar cresce, tal como cresceram pés, pernas, braços, cabelos. É preciso esvaziar e limpar armários, apertar livros velhas nas prateleiras para nelas se aconchegarem os novos. Ei-los que chegam, então, em invólucros de plástico. Um título chama-nos a atenção: “Seis contos de Eça de Queirós recontados por Luísa Ducla Soares”.

Publicada pela Terramar em 2000, por  ocasião do centenário da morte de Eça de Queiroz, esta adaptação surge como oferta, agregada aos manuais da Porto Editora destinados ao 7º ano de escolaridade. Verificamos também que é, de novo, esta adaptação que integra a lista de obras de leitura recomendada no Plano Nacional de Leitura para o 5º ano de escolaridade. Mas no que se repara mesmo é no facto de que é a adaptação que figura na lista de leituras orientadas ao programada para o 9º ano, e não mais a obra original, “Contos”, de Eça de Queiroz.

Quando, e se, ultrapassada a perplexidade inicial, seguida de uma eventualmente precoce perda de compostura, alguns dos pais a que nos referimos atrás irão justamente interrogar-se. Mas muitos outros suspenderão a interrogação, substituindo-a por um suspiro e por um encolher de ombros desolado, primeiro numa aceitação murmurada dos “novos tempos, novas modas, novas leituras, eles é que sabem”, silenciosa depois de mirada a chancela de um qualquer respeitável ministério, em forma de autocolante.

Estamos conscientes de que o fenómeno de adaptação literária não é novidade, pelo menos desde Aristóteles. Sim, sempre vivemos rodeados de adaptações, e até de adaptações das adaptações, inclusivamente de adaptações das adaptações das adaptações: quem não conhece aqueles livrecos que são a tradução portuguesa de uma versão espanhola de uma edição inglesa de uma adaptação francesa de um original alemão? Más ou boas adaptações, género subsidiário, menor e menorizado, adaptação “certificada” ou não, reconhecida editorialmente, literariamente meritória ou pedagogicamente escrutinada, é evidente que muitas destas produções podem ser ligadas a modelos e práticas, culturais ou educativas, de teor político.

Que posição ocupa hoje a adaptação literária na literatura infantojuvenil no contexto português? Quais os critérios aplicados na seleção dos textos a adaptar? Que intenções comunicativas, educativas ou didáticas estão na base desses critérios? Quais as estratégias de que se serve o adaptador, quais os mecanismos de re-criação literária? Que papel fica reservado para o autor? Que relação de pertença cria o texto original com o autor-adaptador? Haverá já estudos, ou práticas experimentais com amostras mais ou menos representativas, que nos permitam aferir a receção destes textos junto dos seus destinatários e em diferentes contextos? Ficarão de facto os jovens leitores mais motivados? Tornar-se-ão eles mais leitores?

 

[continua amanhã, 2 de outubro]

 

Paula Pina

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