A dupla juventude de Caetano Veloso ao vivo em Lisboa e no Porto

 

Autorretratos do artista quando jovem (outra vez): desde há meia dúzia de anos, desde a sua tão propalada emancipação conjugal e consequente arroubo ginecófobo, Caetano Veloso só rejuvenesce. O processo iniciou-se com modos não propriamente subtis no intenso álbum “Noites do norte” (2000), no seu espelho ideológico ampliado “Noites do norte ao vivo” (2001) e em “Eu não peço desculpa” (2002), o iconoclasta cruzamento com essoutro incorruptível adolescente que é Jorge Mautner. O tão adulto e tão imaturo “A foreign sound” (2004) foi um evitável passo atrás, compensado em absoluto com a ânsia de aventura e o vigor teen que se lhe seguiria: “Onqotô” (2005), “Cê” (2006), “Cê ao vivo” (2007) e “Zii e zie” (2009).

Mas Caetano Veloso sempre foi assim, afoito e sincero como uma criança. “Some may like a soft brazilian singer / But I’ve given up all attemps at perfection”, cantava em 1989 na obra prima “O estrangeiro”, ainda hoje o mais completo e o mais complexo dos seus álbuns. E é exatamente à luz dessa “bruta flor do querer” que melhor podemos compreender e aceitar a falaciosa pletora de concertos convertidos em discografia com que tem preenchido a sua agenda editorial nos últimos 20 anos. Consideremos então os álbuns ao vivo como a infância da experiência sensorial permitida por Caetano Veloso ao seu próprio labor criativo. Mas consideremos igualmente os álbuns ao vivo como hipótese sinecurista em tempos de assumida recolha de dividendos emocionais, formais e comerciais.

 

 

“Zii e zie – MTV ao vivo” e “Caetano e Maria Gadú – Multishow ao vivo”, publicados em Portugal nas últimas semanas, sintomaticamente exibem nas respetivas capas um Caetano Veloso fotografado na sombra, como imanente metáfora da realidade ética que estes entretenimentos simbolizam no seu corpo de trabalho. Ao assinar apenas “Caetano”, tal como já o fizera no registo de estúdio do magnífico e incompreendido “Zii e zie”, reforça definitivamente essa paralipse do eterno retorno à origem da sua juvenília, aos sentimentos primevos da sua ordem artística. Caetano Veloso, no sentido inverso de Joyce, agora Joyce Moreno (que podia e devia estar na cadeira injustificadamente reservada para Maria Gadú no caminho que os traz a Lisboa e ao Porto, respetivamente hoje e neste próximo sábado), questiona o passado tido como inconveniente, exclamando assim o seu futuro. Caetano seja!

Tal como as memoráveis datas da digressão relativa a “Zii e zie” que em julho de 2010 passou pelos Coliseus de Lisboa e do Porto, “Zii e zie – MTV ao vivo” é, apesar das reticências atrás enunciadas, um relevante testemunho de toda esta rebeldia, risco e algum rancor. Do pensamento recompensado pelo improviso e pela liberdade, como numa criança. Apesar das reticências atrás enunciadas, há quase sempre particularidades que dão crédito mínimo a estes projetos, documentos válidos e valorosos para fãs, mas também para quem ambiciona apenas uma recordação da presença, mais ou menos acidental, no espetáculo em causa. Para quem não pode ou não quer ir aos concertos, a discografia de estúdio cumpre invariavelmente um papel mais digno.

É então sob essa perspetiva que inventariamos as mais nobres virtudes de “Zii e zie – MTV ao vivo”. Aos 69 anos, Caetano é praticamente tão jovem quanto o era em 1969, momentos antes da prisão que o levou ao exílio londrino, momentos depois do cume sinestésico tropicalista. É desse período que resgata para a abertura deste disco o singularíssimo “A voz do morto”, histórico falso samba proibído pela censura, originalmente gravado com Os Mutantes, com letra “ditada por Aracy de Almeida”, aqui enxertado com citações a “Viola” e ao “Kuduro” nordestino da banda Fantasmão (e a outra daquelas mediocridades, um pouco como Maria Gadú, que Caetano provocatoriamente gosta de defender: “Cole na corda” de Psirico). Provas mais sensatas dessa recente re-(in)sistência juvenil são, por exemplo, a recuperação de outros temas esplendorosos da sua juventude composicional, como “Irene” (de 1969) ou “Maria Bethânia” (de 1971) ou mesmo “Eu sou neguinha?” (do já tão distante ano de 1987). Ou, por outra via, uma versão da comovente “Água”, de Kassin +2, com ligação direta à memória afetiva de “Alagados” dos Paralamas do Sucesso.

“Força estranha”, que encerra “Zii e zie – MTV ao vivo”, como programa da ação vivida: “Eu vi o menino correndo, / Eu vi o tempo / Brincando ao redor do caminho daquele menino. / Eu pus os meus pés no riacho / E acho que nunca os tirei. / O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei. // Eu vi a mulher preparando outra pessoa, / O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga. / A vida é amiga da arte, / É a parte que o sol me ensinou, / O sol que atravessa essa estrada que nunca passou.”

 

 

“Zii e zie – MTV ao vivo” é o Caetano enfant terrible, de coração escancarado para o futuro, que deliberadamente ignora “O leãozinho”, “Menino do Rio”, “Sozinho”, etc. – gestos políticos da maior importância, mas a que não se atreve ao lado de Maria Gadú… “Caetano e Maria Gadú – Multishow ao vivo”, promessa daquilo a que o Pavilhão Atlântico e o Pavilhão Rosa Mota irão assistir nestas duas noites, é um quase seu negativo. É Caetano na defesa adulta da juventa que agora advoga. Mas ainda é também Caetano Veloso “Beleza pura”, “Vaca profana”, “Odara”, “Genipapo absoluto”. Maria Gadú é, pelo que aqui se comprova, mais equilibrada intérprete do que autora – e, quando amparada pelo mestre, mostra-se quase contida, quase sóbria, quase discreta. Quase merecedora do privilégio imenso. E, nisso, o primeiro destes dois CDs é mais revelador – entre uma dezena de duetos que não nasceram com esse destino, destaca-se a pertinente revisitação de “Nosso estranho amor”, que garante fidelidade (invertida) à parceria original de Caetano, seu autor, com Marina Lima, que nunca como aqui pode ser tida como uma espécie de Maria Gadú dos anos 80. Já o segundo disco, aparentam ser apenas dois meios álbuns sem qualquer sinergia ética ou estética: uma entediante sequência de seis faixas de Maria Gadú ocupa a sua metade inicial, pecado expungível graças às sete de Caetano que selam e conferem o merecido enlevo ao registo. Em conclusão? “Alegria, alegria”: “Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou”…

 

CD “Zii e zie – MTV ao vivo”, de Caetano
Natasha / Universal, 2011
[a partir dos 14 anos]

CD “Caetano e Maria Gadú – Multishow ao vivo”, de Caetano e Maria Gadú
Mercury / Universal, 2011
[a partir dos 12 anos]

3 + 5 novembro, 10 pm
concerto de Caetano Veloso com Maria Gadú
Pavilhão Atlântico, Lisboa (dia 3)
Pavilhão Rosa Mota, Porto (dia 5)
[a partir dos 12 anos]

 

Moreno Fieschi

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