Antes do Halloween

No Dia de Todos os Santos, as mesas eram postas. Amassava-se a broa de milho, com erva doce, mel e azeite, que ia ao forno sobre folhas de figueira ou de couve. Em grandes tachos, estavam as papas de milho (o xarém) ou de abóbora menina. Fazia-se a melada, chá e licor de romã (três romãs, três decilitros de aguardente, 150 gramas de açúcar mascavado e a raspa de um limão). Jarros de vinho e garrafas de aguardente de medronho passavam de mão em mão. Depois, começava o rodopio: gente das aldeias, crianças, mendigos, gente de fora, de passagem. Pediam o “Pão por Deus” e tinham fome. Oferecia-se pão, chouriço, frutas (figos secos, pinhões, amêndoas, romãs, castanhas, nozes, marmelos, uvas). Em Lisboa, esta tradição ganhou força depois do terramoto, explicam alguns estudiosos.

 

Claude Monet, “Still life with melon”, 1872

 

Décadas depois, já eram só as crianças, com saquinhos bordados nas mãos, que iam de porta em porta, cantando: “Pão por Deus / Fiel de Deus / Bolinho no saco /Andai com Deus”, na cidade; ou, na serra algarvia, “B´linh, b´linh / P´l´alma d’ sé defuntinh’”. “As alminhas andam perdidas por esses serros”, diziam-nos. O verão acabava, o inverno começava. Acendia-se uma fogueira ao pôr do sol e deixavam-se as portas abertas. Avisavam-se sempre os mais pequenos para terem cuidado com o homem do saco, com o papão. Depois começava a brincadeira, todos vestindo roupas velhas, mais rasgadas ainda durante as perseguições de enfarruscados com as cinzas da fogueira.

 

Vincent Van Gogh, “Stilleven rond een bord met uien”, 1889

 

Hoje, são poucos os que se recordam destes costumes, convivialmente pagãos e cristãos. As tradições celtas, de que somos legítimos herdeiros, historicamente reconvertidas e incorporadas pelo cristianismo, parecem ter-se secularizado e “hollywoodizado” definitivamente, esquecendo a raiz comum. A “doçura ou travessura” anglo-saxónica, a versão moderna do céltico Samhain irlandês, levado para a América pelos imigrantes durante a “fome da batata”, em 1846, ouve-se agora nas casas e nas escolas em Portugal. As montras enchem-se de abóboras de plástico e de máscaras sofisticadas. A diabetes espreita em forma de doces inacreditavelmente lustrosos, de formato, sabor e composição suspeitos, duplamente viciantes, sobretudo na ilusória satisfação da posse.

 

René Magritte, “Portrait”, 1935

 

A memória das mesas postas, encenações gastronómicas e rituais de outros tempos, ocorreu-nos recentemente também porque olhamos com renovada atenção para um género artístico estável, herdado, a natureza morta, em exposição desde 21 de outubro na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. São 93 obras, 70 artistas, oriundos de 37 museus e entidades, que nos obrigam a refletir sobre o conceito de tradição em confronto com a modernidade e a experimentação. Os valores irónicos e o advento de práticas visuais fílmicas e fotográficas, típicos do pós-modernismo, trouxeram desafios à tradição da natureza morta. Mas analisando os quadros de Monet, Courbet, Bonnard, Renoir, Van Gogh, Cézanne, Souza-Cardoso, Gaughin, Matisse, Braque, Magritte ou Picasso, continuamos suspensos na nossa interrogação: que euforias contemporâneas poderá ainda a tradição encenar?

Nós, aqui no Cria Cria, celebraremos estes dias bebendo chá e sumo de romã. Tem propriedades mágicas, diziam os druidas. A ciência parece comprová-lo. A arte também.

 

até 8 janeiro
exposição “A perspetiva das coisas – A natureza morta na Europa, séculos XIX/XX”
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
[a partir dos 6 meses]

 

Paula Pina

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Filed under Artes plásticas, Ram Ram

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