Madalena Matoso [ilustradora convidada, outono 2011, semana 8]

Dando continuidade ao nosso ciclo Ilustrador Convidado, neste outono de 2011 estamos a receber Madalena Matoso, uma das criadoras mais relevantes no campo da ilustração infantojuvenil portuguesa da última década, mas também uma designer brilhante, editora e fundadora da Planeta Tangerina, casa que publicou muitos dos seus mais notáveis trabalhos. Semanalmente, Madalena Matoso aqui responderá a uma das nossas perguntas e aqui apresentará uma sua ilustração de que se orgulhe particularmente.

 

Cria Cria: Por que é que acha que as pessoas desenham? E por que é que a Madalena desenha? Ainda sente a mesma motivação que tinha quando começou a ilustrar?

Madalena Matoso: O desenho pode ser o começo de alguma coisa. A mão desenha sozinha e, às vezes, aparecem resultados de que não estávamos à espera. Pode ajudar-nos a pensar, a encontrar, a ver melhor. Quando olhamos para uma coisa e a desenhamos, começamos a vê-la de maneira completamente diferente — é como se a víssemos por dentro. Podemos desenhar para passar o tempo. Ou para nos concentrarmos nalguma ideia. Às vezes, uso o desenho para me ajudar a perceber como hei de transformar uma ideia numa coisa visível. Antes de saber escrever, o Homem já desenhava (para comunicar, memorizar, expressar, celebrar…). Nas grutas de Rouffignac, em França, há uns desenhos que se diz terem sido feitos por crianças (há 13000 anos).

Quanto à terceira parte da pergunta: penso que tenho a mesma motivação, embora as ilustrações que faço hoje em dia sejam bastante diferentes das do começo. O que me atrai continua a ser a procura, encontrar soluções novas. Se ilustrar um livro alguma vez se tornar numa rotina, sem nada de novo, penso que deixará de ter interesse.

 

ilustração originalmente publicada no livro “O meu vizinho é um cão” (Planeta Tangerina, 2008)

 

Madalena Matoso: Este livro conta a história de uma menina e a chegada de novos vizinhos ao prédio onde vive. Ao fazer este prédio cheio de janelas, claro que comecei logo a inventar histórias para cada um dos seus habitantes. A senhora antipática, as irmãs velhinhas, a cantora de bar, o senhor sozinho, o casal jovem, as trigémeas de Xangai, a professora de ginástica. No fim do livro, há outra imagem do prédio, passados cerca de 20 anos, e podemos ver algumas mudanças. Há vizinhos novos, uma das irmãs velhinhas morreu e a outra acabou por se juntar ao senhor sozinho, a cantora envelheceu (mas continua curiosa)… A senhora antipática e família tinham sido os primeiros a abandonar o prédio… Estas histórias que inventamos muitas vezes são quase invisíveis. Mas fazem parte da construção das imagens. Não são importantes, mas podem levar a outras histórias, a que o livro possa ser lido muitas vezes e que em cada leitura se vão descobrindo alguns segredos.

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