A realidade da fantasia de Britney Spears ao vivo em Lisboa

 

O olhar é direto, provocante, os olhos elevando-se do rosto, de pescoço ligeiramente inclinado. A língua move-se por entre os lábios entreabertos, que articulam fonemas que se assemelham vagamente a um texto em inglês. Algumas expressões soam familiares: “baby, baby” e “get it, get it, get it, get it”. O corpo balança em movimentos sincrónicos, a anca insinuando-se em rotações ritmadas, a camisola de algodão cor de rosa enfeitada com brilhantes deixando ver um umbigo almofadado por uma cintura ainda por formar. Tem oito anos. Chama-se B., e dança, arrebatada e ingenuamente, sem música, uma coreografia que viu num video de Britney Spears.

 

 

Britney Spears tinha também oito anos quando começou a trabalhar na Broadway. Aos 12, entrou no New Mickey Mouse Club, do Disney Channel. Aos 17, era uma estrela pop, plena de glamour e transbordante de sexualidade fabricada. Foco de controvérsias de tabloide, movendo-se eternamente entre a inocência infantil e o estereótipo da sensualidade comercial, os seus fãs são ainda, e desde o início da sua carreira, uma população mista de crianças, jovens pré-adolescentes, adolescentes e pais. Protótipo icónico da típica criança showbiz, a sua imagem seduz pelas roupas, maquilhagens e adereços brilhantes, tão ao gosto das meninas, que nela encontram a boneca, de carne e osso, que tanto gostam de vestir e despir, nas múltiplas versões de barbies e bratzs com respetivos acessórios. Os videos, geralmente muito bem produzidos, oferecem tudo: entretenimento, moda, músicas dançáveis. As letras, pejadas de autoreferências e biografismos, não escondem as mensagens sexuais.

 

 

Numa época em que a pornografia é socialmente aceite, em que se assiste à sexualização da cultura, em que a sensualidade é ainda um imperativo feminino, em que a auto-objetificação é imposta permanentemente em estratégicas batalhas de marketing e em diferentes suportes (imprensa, cinema, televisão, internet, jogos de video), torna-se mais difícil distinguir a realidade da fantasia. Britney Spears inclui-se no leque de celebridades que nos ajudam a entender por que é que a B. nos explica, do alto da sua infantil sabedoria, que “ser bonito é ser sexy”… Uma equipa de estudiosos da American Psychological Association passou dois anos a estudar este assunto.

 

 

Quase que podemos apostar que estas crianças (e os seus pais, muito provavelmente) nunca ouviram falar de Nellie Bly, de Betty Zane, de Eliza Pinckney ou de Anna Dickinson. Nunca ouviram falar de Hipátia de Alexandria, de Marie Curie, de Ada Lovelace, de Inez Milholland Boissevain, de Florence Nightingale, de Helen Keller ou de Marian Anderson. Talvez não saibam como são bonitas Holly Carter, Courtney Schumacher, Jessica Watson, Clotilde Dedecker e Alicia O’Brien.

 

 

9 novembro, 8.30 pm
concerto de Britney Spears
Pavilhão Atlântico, Lisboa
[a partir dos 12 anos]

 

Paula Pina

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1 Comment

Filed under Brinquedos, Música

One response to “A realidade da fantasia de Britney Spears ao vivo em Lisboa

  1. Sara

    É mesmo uma pena a falta de inocência e de pudor na infância e na juventude de algumas destas crianças a quem lhes é ensinado que é assim que deve ser, quando nunca entenderão que é na elegância e na sobriedade que se encontra a verdadeira beleza… é por isso que esta senhora chega aos 30 e poucos anos com ar de sofá roto e jeans gastos. Mas isso não é preocupante, o que é mesmo assustador é a legião de fãs e de futuras mobílias gastas à nascença que para aí vêm.

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