“Grande coisa”, de William Bee

 

Estruturada como um tradicional conto de advertência, para benéfico proveito e exemplo moral, tão na linha de “Pedro esgrouviado” de Hoffmann, esta obra do artista e designer comercial William Bee (conhecido sobretudo pelos seus trabalhos para as marcas Issey Miyake e Paul Smith) oferece um perfeito antídoto para todos aqueles que acham que os álbuns ilustrados são “coisa para miúdos”. O desafio à moralidade convencional esboça-se logo na capa e na contracapa, em espelho: a verdade e o seu contrário. Devemos tomá-lo também como um aviso, e não nos precipitarmos nos julgamentos do que é certo ou errado.

 

 

As personagens são apresentadas individualmente na imaculada brancura das páginas iniciais. Um menino, Billy, e o seu pai, réplicas exatas um do outro, se excetuarmos o chapéu. Billy está distraído, olha para um ponto imaginário à direita. O pai, esse, cumprimenta o leitor polidamente, tirando o chapéu. Parece que o filho é uma “criança difícil”: das mais convencionais até às mais hercúleas e originais tentativas do progenitor, nada parece conseguir divertir o pequeno Billy. O ilustrador deixa-nos apenas um ligeiro movimento de sobrancelhas, uma direção no olhar, um pequeno gesto ou uma expressão da boca.

Sintéticos, hilariantes, texto e ilustrações, ambos elencam “whatever” como um leitmotiv, um eufemismo para uma míriade de outras expressões. Assim, “grande coisa” transforma-se num sarcasmo ritualístico. Sendo talvez um dos vocábulos mais desagradáveis e irritantes enquanto interjeição, “whatever” é útil ferramenta de bloqueio conversacional, ofensiva ou passivo-agressiva, revelando indiferença ou apatia, desrespeito cínico ou amplo desdém (acentuado pela entoação sarcástica, encolher de ombros ou gesto de mãos). “Whatever” não é de fácil tradução. Pode significar: “não quero saber”, “não me importo minimamente”, “pois, certo…”, “sim, sim…”, “tanto faz”, “o que quiseres”, “cala-te e vai-te embora”, “deixa-me em paz”, “podes dizer o que quiseres que para mim não é relevante”. A expressão “grande coisa” da tradução portuguesa cumpre a sua missão, legendando os microepisódios de uma narração que nos encaminha para um final absurdo e previsível, mas (ou por isso mesmo) inteiramente compensador.

O pai esforça-se por divertir o filho, cada objeto convenientemente adjetivado e cada adjetivo sublinhado a negrito no texto. Billy é presenteado com soldadinhos de chumbo e fantoches (bem feios, por sinal!), com animais maravilhosos (a girafa, que se espraia em página dupla, é belíssima), e ainda com um castelo insuflável, uma trompete extraordinária, uma locomotiva antiga (e fumarenta, adjetivo que não figura na tradução) da histórica Great Western Railway, até com uma viagem espacial.

Quantos pais desesperados tentaram hoje divertir os seus infantes, proporcionando-lhes experiências que consideram únicas e maravilhosas? Por vezes, o problema reside precisamente no facto de sermos nós, adultos, a propor atividades que apenas a nós divertem, num regresso revigorante à infância. Noutras vezes, talvez seja preciso esperar, aguardando discretamente o momento em que aquilo que nos divertiu possa contagiar as nossas crias e fazê-las descobrir e partilhar o prazer que sentimos. Sem saltarmos logo para outra proposta e sem a frustração de imediato a aflorar-nos os sentidos. Talvez nos faça falta “perder tempo” e pegar num álbum ilustrado para crianças. Pode ser este. Para ler e sorrir, mesmo sem crianças ao colo.

 

livro “Grande coisa”, de William Bee
Planeta Tangerina, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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