“Minimalário”, de Pinto & Chinto

 

Neste “Minimalário”, os protagonistas são sempre animais – e cada qual tem a sua história e seu adequado e divertido retrato humorístico. São 114 animais, de todos os reinos, filos, classes, ordens, espécies, em aleatório desrespeito por qualquer taxonomia, que se incluem num catálogo que recusa reger-se pela lei da popularidade: nele não encontramos só os bichinhos mais convencionais e amados pelos humanos. Cada qual, do elefante ao piolho, do morcego à tartaruga, da solha à avestruz, protagoniza um microepisódio, isolado, trágico ou cómico, sempre surpreendente ou absurdo, recorrendo por vezes a frases feitas ou expressões idiomáticas. Noutras vezes, os episódios surgem aos pares, ou até em trios, em que um animal, de algum modo esperado ou inesperado, mais ou menos previsível, acaba por se ligar a um seu vizinho antológico.

Ideal para aqueles pais que não sabem o que ler quando estão com pressa, ou para educadores e professores com falta de ideias quando chega a altura da tradicional visita ao jardim zoológico. Bom para ler devagar com as crias em fase de aquisição da leitura, na cadência hesitante de quem decifra e saboreia a vitória de chegar ao fim. Bom para ler muito depressa, para abrir onde calhar e ler num instante, em disparo de anedota, fábula ou história absurda, sábia, original, tola ou exemplar. Também podemos procurar no índice, alfabeticamente desorganizado, certo animal, em digna consulta de investigador faunístico, com um objetivo muito bem definido. Nem sempre a tradução ajuda a perceber o humor do texto, como acontece com a raia. E que animal se esconde na folhagem que antecede o índice? Talvez seja aquele que está “com uma grande cabra”, ou seja, que está louco, mas que, por decisão da tradutora, surge adjetivado como “bêbado”. Uma engenhosa picadela satírica e política, em referência à “crise das vacas loucas”, desta dupla premiada de humoristas gráficos galegos, com uma carreira de quase 20 anos na imprensa espanhola?

Pinto & Chinto (nome artístico para o duo constituído pelo ilustrador David Pinto e pelo escritor Carlos López) brincam com o conhecimento, popular ou técnico, acerca do mundo animal. Imaginam situações, lógicas e ilógicas, instantâneos narrativos e visuais, tão ao estilo das primeiras narrativas infantis. Mas, desta vez, a fórmula inicial tradicional “Era uma vez”, que as crianças tão rapidamente reconhecem, adoram e adotam, é sistematicamente substituída pelos demonstrativos e pronomes indefinidos “este/a era um/a”, seguidos do nome do animal, graficamente destacado, como se o leitor estivesse a folhear um álbum fotográfico, acompanhado pela voz que recorda e descreve brevemente o evento fixado. Uma obra para descobrir e sorrir de mansinho. Para desbravar olhares satíricos e soltar a escrita (e o desenho) sobre tantos outros animais (e criaturas que tais) que pululam à nossa volta.

 

livro “Minimalário”, de Pinto & Chinto
Kalandraka, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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