Celebrando 153 anos do nascimento de Selma Lagerlöf

 

O mesmo olhar claro. O mesmo semblante sério. Uma, a menina sossegada, de cabelo entrançado, que caminhava coxeando, com as pernas tolhidas por doença e por uma lesão congénita da anca.

 

 

Outra, a escritora conceituada, cabelo branco e pose altiva, magistral, quase zangada. Uma e outra são a mesma: Selma Lagerlöf (20 de novembro de 1858 – 16 de março de 1940), a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1909. Nascida numa propriedade rural, Marbacka, na Suécia, Selma Lagerlöf concluiu o curso de educação de infância em Estocolmo e tornou-se professora numa escola para meninas. Feminista e pacifista militante, durante a II Guerra Mundial contribuiu empenhadamente para a defesa da Finlândia durante a invasão russa e salvou refugiados alemães, intelectuais e poetas, conseguindo-lhes vistos suecos. Entre estes refugiados esteve Nelly Sachs, poetisa e dramaturga, Prémio Nobel da Literatura em 1966 (em conjunto com o romancista Shmuel Yosef Agnon). Selma Lagerlöf, falecendo em março de 1940, não chegou a saber que a amiga, com quem trocara intensa correspondência, chegara de facto a salvo à Suécia, acompanhada pela mãe, escapando ao comboio para o campo de concentração, onde morreu toda a restante família.

“A saga de Gösta Berling” (1891), foi o primeiro grande romance de Selma Lagerlöf e é uma das obras mais extraordinárias da história da literatura. Nela reencontramos a herança das lendas nórdicas ancestrais na escrita de uma exímia contadora de histórias. Lendas e fábulas, tratados de moral, drama psicológico, poesia, visualidade e memória fundem-se, em plenitudes criativas, românticas e naturalistas, em paisagens geladas, palpitantes de tensão, de vida e de paixão, cenários em que a luta permanente entre o Bem e o Mal constitui a exata medida de todas as coisas. Como nesta inesquecível cena, extraída da adaptação da obra ao cinema, num filme mudo de 1924, realizado por Mauritz Stiller, com Greta Garbo e Lars Hanson nos principais papéis:

 

 

“A maravilhosa viagem de Nils Holgersson” (1906/7), em Portugal listada no Plano Nacional de Leitura para o 6º ano, resultou de uma encomenda à autora por parte da Associação de Professores após as cerradas críticas de que eram então alvo os manuais escolares na Suécia. Contudo, a obra depressa transcendeu os limitados objetivos pedagógicos iniciais e alcançou um êxito sem precedentes. Mais do que ensinar geografia, mais do que louvar a cultura rural do país, mais do que recuperar as narrativas tradicionais, a obra resultou efetivamente num imenso e surpreendente conto, em que constelações de mitos e lendas, misturando referências pagãs e cristãs, fornecem explicações etiológicas acerca de detalhes da paisagem sueca. As histórias que ouvia contar em criança surgem agora imbuídas de uma dimensão didática e de novos conhecimentos acerca da psicologia infantil. O talento narrativo de Selma Lagerlöf conduz o leitor numa viagem aventurosa que é, de facto, maravilhosa, com o realismo mágico da narrativa redimensionando a beleza nórdica. Um rapaz preguiçoso, malcriado e cruel, desespero dos pais e terror dos animais, é castigado por um duende mágico e transformado num gnomo minúsculo, percorrendo depois a Suécia, em redentora viagem, agarrado às costas de um ganso. Mas Nils é apenas uma personagem que não retira protagonismo ao país, com a sua geografia tão estranha e selvagem, terrena e espiritual, regeneradora e gloriosa. Atualmente, duvidamos que na Suécia se leia “A maravilhosa viagem de Nils Holgersson” para “aprender” geografia. Mas esta é uma obra, já centenária, que continuará a ser lida, e em qualquer país do mundo.

 

 

Curiosamente, comemora-se hoje também, 20 de novembro, aniversário de Selma Lagerlöf, a publicação da Declaração dos Direitos da Criança (1989). Adequadíssima coincidência, pensamos nós.

 

Paula Pina

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Filed under Cinema, Literatura

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