“Emigrantes”, “A árvore vermelha” e “Contos dos subúrbios”, de Shaun Tan

 

Era uma livraria pequena, discreta, montra de dois painéis de vidro, molduras de madeira pintada de um tom desbotado. No interior, as prateleiras escuras aconchegando policromias encadernadas, uma mensagem de boas vindas, e uma nota: “spectacular bargains to be found in the basement”. De olhar focalizado nas prateleiras de literatura técnica, mas com o passo intimamente vacilante, típico de quem oscila entre a perdição e a assertividade, com os movimentos experientes de quem parece saber bem o que quer (porque sabe mesmo ou porque sabe que não pode perder tempo por ser pouco o que lhe resta já para as aleatórias e saborosas incursões em salvíficas livrarias londrinas), e ainda com os minúsculos cristais de gelo picando a ponta dos dedos enluvados – foi nesse momento que o vi.

Estava na zona central da loja, uma mesa com as novidades de 2007, meio torto, encaixado entre uns títulos de filosofia, uns álbuns de banda desenhada e a secção de literatura infantojuvenil. Milagrosamente, nesse momento todas as urgências desapareceram. Pousada a mochila, trolley abandonado, para a semi-emigrante que era na altura, “The arrival” (2006), da autoria de um quase desconhecido Shaun Tan, foi uma oferenda-revelação. Mesmerizante pela estranheza, que nos obriga a parar o sentido do tempo, universal na linguagem da imagem sem palavras das suas épicas 128 páginas fílmicas, a capa é a de um álbum de fotografias velho, as páginas a sépia, subtil e detalhadamente trabalhadas, de um naturalismo fotorrealista enganoso, retro-futurista e mágico.

 

 

Mais do que livros ou álbuns ilustrados, cada nova obra deste australiano de origem chinesa, constitui um exercício magnífico de criação de mundos. Shaun Tan vai para além dos clichés estereotipados da integração/pertença. As emoções mais profundas e os medos mais universais concretizam-se em metáforas visuais oníricas, acompanhadas ou acompanhando uma fluidez narrativa quase transcendente. O que é familiar, afinal, já não o é. Cada objeto ou criatura surgem dotados de dimensões surpreendentes. Há imagens que nunca se esquecerão, pela intensidade e estranheza, pelo detalhe e pela empatia que suscitam perante a humana vulnerabilidade dos protagonistas.

 

 

Publicados neste ano em edições portuguesas, temos “A árvore vermelha” (“The red tree”, 2001) e “Emigrantes” (tradução portuguesa de “The arrival”, 2006), ambos com a chancela da Kalandraka, e “Contos dos subúrbios” (“Tales from outer suburbia”, 2008), que nos chega pela Contraponto. Nesta última obra, Shaun Tan testa (e testa-nos) a sua mestria de ilustrador e de escritor recorrendo a uma diversidade de técnicas, conteúdos e temas, elencando uma multiplicidade de viagens e universos. Trata-se de uma antologia de 15 pequenos contos, de uma trivialidade apenas aparente, em que a autobiográfica voz narradora é calorosa, empática. A ficção científica e um onirismo arriscadamente hieronymosboschiano (surrealista ou vagamente paisagístico, como De Chirico), da fábula à anedota ou à lenda urbana, convocam encadeamentos inusitados. Mostruário de repertório técnico, do carvão à tinta, dos lápis de cor ao gesso, passando pela esferográfica, pela aguarela e pelo acrílico, dos recortes e colagens em vários suportes e com recurso a diferentes materiais, quase impulsivo e colecionista, nesta obra se confirma o extremo cuidado que Shaun Tan coloca no tratamento dos detalhes, nos cantos e recantos, das guardas ao índice e à ficha técnica.

 

 

Numa entrevista, Shaun Tan – que começou a desenhar aos três anos, aos seis dizia querer ser artista, foi adolescente interessado pelas ciências, universitário graduado em filosofia, história, artes e literatura inglesa – deixa um conselho aos jovens aspirantes: “observar e praticar, praticar, praticar”, “não ter medo de cometer erros porque o erro é um meio de descobrirmos novas coisas”. Uma das suas diretivas criativas é a de que embora não escrevendo explicitamente para crianças ou jovens, faz sempre algo que sabe que as crianças irão apreciar. Parece estar a resultar, para crianças e para adultos.

Premiadas pela crítica, adaptadas ao cinema de animação e ao teatro musical, as obras de Shaun Tan derrogam fronteiras e hierarquias universais, espantam-nos com inimagináveis possibilidades, visuais e literárias, emocionais e etárias. Nada é óbvio, nada é impossível. Reinventando mundos (im)possíveis, as obras de Shaun Tan permitem a nossa própria reinvenção, humana e solitária, alienada e esperançosa. Mágica. Única. Intemporal.

 

livro “A árvore vermelha”, de Shaun Tan
Kalandraka, 2011
[a partir dos 5 anos]

livro “Emigrantes”, de Shaun Tan
Kalandraka, 2011
[a partir dos 7 anos]

livro “Contos dos subúrbios”, de Shaun Tan
Contraponto, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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