Celebrando 80 anos de Tomi Ungerer

 

Tomi Ungerer é um ícone. Merece sê-lo e sabe sê-lo. Completa hoje 80 anos. Depois da retumbante estreia com “The Mellops go flying”, o caminho foi prolífico e generoso para o multitalentoso e hipercriativo arquiteto-designer-“desenhador”-obsessivo e bibliófilo Tomi Ungerer. As suas obras encontram-se espalhadas um pouco por todo o lado e é impossível não reparar nelas: casas de banho públicas e um aqueduto, uma escola em forma de gato, joalharia e escultura, peças de teatro e filmes, cartazes e campanhas publicitárias. Também é impossível não reparar nele: olhar crítico, discurso implacável e provocador, cabelos brancos e dentes caninos proeminentes amarelecidos pelo fumo, o movimento contínuo dos dedos, os esboços permanentemente brotando do papel, a curiosidade insaciável, a postura política irredutível na luta pelos direitos humanos e por valores que considera intocáveis.

 

 

Foi para Nova Iorque em 1956 porque gostava de jazz e de blues, levando 60 dólares no bolso, escapando à Europa massacrada do pós-guerra. A experiência de vida sob o domínio nazi marcou-o para sempre. Vivendo a sua infância numa Alsácia em que o francês, sua língua materna, foi banido do ensino, convivendo com a hipocrisia, o cinismo e a crueldade, Tomi Ungerer cedo misturou a rebeldia e a arte para sobreviver. Os relatórios escolares descrevem-no como “willfully perverse and subversive individualist”. Depois da guerra, com o regresso ao poder dos franceses, percebeu que nunca conseguiria ser aceite: falava francês com acento alemão. Percorreu a Europa à boleia e trabalhando em porta-contentores. Foi vitrinista e publicitário para o pequeno comércio local. Mas depois de Nova Iorque, tudo mudou. Foi criador de porcos na Nova Escócia e vive hoje numa quinta na costa da Irlanda. Foi prémio Hans Christian Andersen. O Conselho Europeu nomeou-o “Embaixador para a infância e educação”, em 2003. Membro da Cruz Vermelha e da Amnistia Internacional. Eleito um dos “500 world leaders of influence”.

 

 

Para quem teve a oportunidade de ter nas mãos, nos anos 60 e 70, obras canónicas como “Crictor”, “The three robbers” (ambos já editados em Portugal pela Kalandraka) ou “Moon man” (“O homem da lua”, a sair daqui a poucos dias com a chancela da portuguesa Bags Of Books, uma odisseia surpreendente e intemporal, de traço afetuoso mas que não esconde uma dimensão social marcadamente crítica), é chegado o momento de as reler, sem o fantasma da censura espreitando por cima do ombro, com a orgulhosa serenidade de quem não precisa mais de ter medo que algum professor ou progenitor mais “informado” se deixe dominar pelo preconceito e lhe arranque das mãos os livros para crianças de um autor que publicou também obras de teor satírico-erótico, espicaçando a sociedade nova-iorquina, e cartazes políticos com conteúdos anti-bélicos e anti-racistas.

 

 

Trabalha para adultos e para crianças. Os adultos (só alguns!) tremem. As crianças (todas!) adoram: “Children know where children come from, but not where adults come from”, repete Tomi Ungerer. É sempre nas crianças que pensa, é neste imperativo de seriedade e respeito pelo universo infantil que se desloca, é este imperativo que advoga e propaga. Considera uma das suas missões, enquanto artista, tornar as crianças conscientes de que no mundo há muitas coisas más e que elas têm o poder de lutar contra tudo o que consideram errado e pernicioso. Deixa um conselho: “first develop your curiosity and once that happens, there is no end… The more curious you are, the more knowledge and facts you accumulate. Once you have all those facts, the real trick is to compare”.

 

 

A história nasce primeiro e, apesar de escrever fluentemente em três línguas, os livros para crianças são escritos sempre em inglês: “I never say ‘a tree’; I say ‘a willow’. I never say ‘a carriage’; I say ‘a tilbury’”. Privilegia a amplitude de estilos e a artesanalidade (fabrica os seus próprios móveis, p.ex.), herança genética da sua família de ilustres relojoeiros, recusando aclimatar-se a modernices eletrónicas. Trabalha sempre em diversas obras simultaneamente. Aos 80 anos, tem 12 livros em preparação, está a trabalhar em enormes colagens e em algumas esculturas, e finalizou um novo livro para crianças, “Fog man”, para a Phaidon.

 

 

“I desesperately draw and draw and I want it to be perfect. I sometimes do 30 sketches – I never use an eraser, I just make another drawing – and yet, even after all that, it’s never perfect”, afirma. Os livros são a coisa mais preciosa que possui, acrescenta ainda. Para nós, também. E entre os mais preciosos estão alguns concebidos pelo inigualável talento de Tomi Ungerer. Esses são, para nós, definitivamente, “perfeitos”.

 

livro “O homem da lua”, de Tomi Ungerer
Bags of Books, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Artes plásticas, Cinema, Ilustração, Literatura

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