O bebé, Criatura #006

O pai era eletricista, mas fazia biscates. A mãe tinha arranjado um trabalho temporário, numa fábrica de enfeites de Natal. Um dia, de madrugada, ainda o escuro assustava lá fora, a mãe saiu do duche e, olhando a sua barriga de grávida ao espelho, reparou que, do umbigo, saía um brilhozinho. Esfregou bem com a toalha e pensou: “Ora, é algum pozinho da brilhantina que andei ontem a colar às estrelas”. Aplicou uma boa camada de creme hidratante, vestiu-se rapidamente, bebeu um copo de leite “para o bebé”, e saiu para trabalhar. Apanhou o primeiro autocarro, como de costume. Depois apanhou o metro, como de costume. Como de costume, ninguém lhe deu o lugar na carruagem sobrelotada, apesar da sua barriga de 39 semanas ser tudo menos discreta. Quando o metro parou com um solavanco e a carruagem ficou às escuras, ela reparou que, por debaixo do seu vestido, mesmo no centro da barriga pontiaguda, se via um ponto de luz. Repuxou o casaco que lhe ficava apertado demais e curto demais, apressada, tentanto cobrir o umbigo. Mas a luz atravessava o tecido e esgueirava-se por entre os seus dedos magros que agarravam as pontas do casaco. Quando se acenderam as luzes de emergência e o metro retomou o andamento, a luz pareceu desaparecer. A mãe suspirou de alívio. Afastou uma madeixa de cabelo da testa húmida e decidiu pedir ao médico para lhe passar uma baixa. Aquilo já devia ser cansaço e, afinal, já estava mesmo no fim do tempo.

 

 

A mãe trabalhou todo o dia. Colou, coseu, enfileirou, estrelas e bolas coloridas. Depois, apanhou de novo o metro. Entrou no último autocarro e era já noite quando começou a subir a rua íngreme, de regresso a casa. Parou por uns momentos, ofegante. Conseguia ver as luzes brilhantes da grande cidade, ao longe. Quando se voltou para continuar o percurso, reparou que as iluminações celebrativas da Junta de Freguesia se acendiam. Só alguns arcos raquíticos ao longo da rua principal e no largo, este ano. Quando entrou em casa, pousou as chaves em cima da mesinha da entrada e ligou o interruptor. Nada aconteceu. Olhou para a pilha de contas por pagar que se acumulava desde que a empresa onde o marido trabalhara toda a vida abrira falência. Tateando, pendurou o casaco e procurou uma vela e fósforos, que guardava sempre na gaveta. Mas antes de conseguir acender o fósforo, um grito soltou-se da sua garganta. Enquanto caía no tapete, perdendo docemente a consciência, já nos braços do pai, que se precipitara escadas acima ao ouvir o grito da mulher, a mãe reparou, de olhos muito abertos, que da sua barriga redonda e pontiaguda se projetava um halo de luz, e que a salinha minúscula e desalinhada de outrora se iluminava totalmente, cada objeto e cada ângulo resplandecendo num brilho novo. Mesmo a estrela, velha e torta, coberta de escamosa brilhantina prateada, e encarrapitada à pressa no topo da minúscula árvore de Natal de arame e plástico esfarrapado, relampejava inauditas dignidades sobre o cortejo serpenteante de bolas e intermitentes luzinhas coloridas, meio escondidas atrás do televisor.

Nasceu uma menina. Chamaram-lhe Maria da Luz, como a sua mãe. De apelido ficou Jesus, como o seu pai.

 

Paula Pina, com ilustração de Cesária Martins

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