“Antologia poética”, de Cesário Verde e José Manuel Saraiva

 

São verdadeiramente edições apaixonadas. E  apaixonam quem as toca, vê, cheira e lê. Estamos a falar das antologias poéticas que compõem a coleção Treze Luas, da Faktoria K de Livros, cuidada transferência do ideal ibérico multicultural da espanhola Kalandraka Editora. Começando com Fernando Pessoa (volume ilustrado por Pedro Proença), em novembro de 2009, continuando com Bocage (com ilustrações de André da Loba) e Florbela Espanca (acompanhada pelas imagens de Joana Rêgo) em dezembro de 2010, eis-nos agora, dois anos depois do início, perante a recente antologia de poemas de Cesário Verde.  Apesar de pensadas para um público juvenil, pelo conceito, pela originalidade, pela cuidada seleção de poemas, pela riqueza desafiadora das ilustrações, pela qualidade e beleza poética encantatória da edição, estas antologias seduzem igualmente adultos e crianças.

São treze poemas em cada livro, “treze poemas com treze luas, como os treze poemas do calendário lunar”. O primeiro texto é um retrato (autorretrato também), um poema que apresenta o poeta ao leitor. Depois, percursos e momentos-chave, textos fulcrais, na dose certa, para que o leitor absorva crítica e  deleitosamente os principais aspetos temáticos e imagéticos, assimile lógicas e estruturas, se prenda nas problemáticas e se deixe reverberar em comunhões com o poeta. A nota biográfica crítica final é enriquecedora. No caso de Cesário, poderiam colocar-se algumas dificuldades, nomeadamente em pormenores que se referem à fixação do texto ou à opção pela inclusão apenas da parte I de “Nós”, que são ultrapassadas com discernimento.

Outra das originalidades desta coleção é a oportunidade de se desvendar a escrita da mão de quem ilustra, em forma de nota final sobre o processo de criação das imagens. Raras são as vezes em que as vozes da escrita de quem ilustra são permitidas. Não aqui. E funciona. Criação literária, seleção e reflexão sobre a criação literária, criação plástica a partir da seleção da criação literária, reflexão sobre a criação plástica, a partir da criação poética, que é, por vezes, também criação poética… Confusão? Errado: são leituras. Iluminação.

Atente-se igualmente nas notas finais, que sublinham um desvelo editorial único: as datas especiais de publicação, nunca aleatórias, mas comemorativas e/ou acompanhadas por resquícios poéticos, como se fosse difícil a separação ou penosa a “partida” do projeto. Quando pensamos que a obra acabou, surge ainda, já na própria página da ficha técnica, um convite, conselho assisado e sábia sugestão de leitura, também ele em forma de poema: “Este livro convida-o a ler um poema por dia, / ou por semana, / ou mês lunar. / Depois, pode deixá-lo a repousar numa estante, / aberto na ilustração que quiser, / que é, nem mais nem menos, / a leitura que José Manuel Saraiva fez das palavras da [sic] poeta, / para deleite dos nossos olhos e do nosso olhar mais pessoal.” Reforçado fica pois, neste Cria Cria, o imperativo absoluto com que a editora termina esta nota comum à coleção: “Desfrute-o!”. Desfrute-a!

 

livro “Antologia poética”, de Cesário Verde [texto] e José Manuel Saraiva [ilustrações]
Faktoria K de Livros / Kalandraka, 2011
[a partir dos 10 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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