Músicas, presépios e anjos de papel

 

Por esta altura, começavam os ensaios. Escolhia-se o repertório natalício, selecionando peças tradicionais, clássicas e populares, para agradar a todos. Alguns tocavam (geralmente guitarra, orgão, acordeão, bandolim, harmónica ou flauta). Uns poucos, raros, frequentavam escolas de música de associações recreativas ou começavam a tocar em bandas filarmónicas. Um ou outro cantava, um pouco contrariado, aos domingos, no coro da igreja. Apanhavam-se as melodias de ouvido, ensaiavam-se harmonias, buscavam-se cifras. Faziam-se arranjos, muitos deles claramente inspirados pelas “assombrosas” edições do “Orgão mágico”, da “Guitarra mágica” ou da “Flauta mágica” da autoria do misterioso senhor Eurico A. Cebolo, que parecia ter o condão de simultaneamente fascinar e assustar todos com o seu particularíssimo gosto editorial.

 

 

Os cantores escreviam as letras à mão, em folhas, que enfeitavam com desenhos de ramagens e azevinho, e que depois juntavam e furavam, atando os caderninhos assim criados com cordel colorido. Em grupos, gargarejavam refrões e coros antifónicos, repetindo, com a mesma desafinada convicção, as passagens mais difíceis de um coral de Bach ou de um cante alentejano, a duas ou três vozes, auxiliados por umas compadecidas canecas fumegantes de chá de mel e limão.

Ia-se ao musgo, pelos campos. Recolhiam-se pinhas, pedras, folhas secas. Apanhavam-se ramos verdes e com eles se moldavam as coroas, enfeitadas depois com largas fitas vermelhas. Desembrulhavam-se as figurinhas de barro, colavam-se as lascas partidas e pintavam-se de fresco. De vez em quando, ia-se à oficina do oleiro, ou à feira, e comprava-se mais uma ovelhinha (para amparar outra à qual já faltava uma perna) ou mais um pastor (para fazer companhia a um outro, geralmente maneta ou estropiado em consequência de algum choque inesperado ou descuidada manipulação por mãos infantis) – assinale-se que todos os pedacinhos de barro resultantes destes acidentes eram colecionados e guardados numa caixa que se escondia atrás da gruta da sagrada família, uma espécie de secreta oferenda de bracinhos e mãozitas, orelhas, bicos e focinhos, pernas e cabeças, e às vezes até metade de um pato. Na minha fantasia infantil, sempre imaginei o menino Jesus, descalço, friorento, louro e rosado, levantando-se às escondidas da sua cama de palhinhas para ir brincar com estas macabras relíquias de barro nas traseiras da sua gruta…

 

 

As avós, tias e primas esvaziavam e limpavam armários e prateleiras, esfregavam paredes, perfumavam recantos com alfazema e alecrim. Um desses recantos (na verdade, quase metade da sala), sempre do lado direito de quem entrava, era coberto com cartão, plástico e serapilheira. Construiam-se depois montes e vales, usando terra, areia, barro e pedras. Bem no centro, a gruta de Belém. No primeiro domingo do advento montava-se então o presépio, distribuindo-se as figurinhas de barro pelo cenário. De vez em quando, dúvidas quanto à posição dos reis magos, do moinho, ou quanto à distribuição dos rebanhos ou dos anjos, causavam alguma polémica. Encher de água o pequeno lago artificial era um momento alto, obra de engenharia, nem sempre brilhante. No final, seria o mais pequenino de todos nós que, algo receoso e reticente, desalojava então o menino Jesus do quente ninho cor de rosa das suas mãos, instalando-o no seu berço de palha, solenemente rodeado por toda aquela parafernália humana, divina, santa e animal.

Espalhava-se uma imensa toalha velha, de plástico, sobre a mesa de jantar, e dispunham-se os materiais: caixas com cadernos de papel de lustro, papel dourado e prateado, papel crepe e de seda, tecidos e algodão, fitas, linhas e botões, boiões com brilhantina, tintas, pincéis, tesouras e cola. Havia ainda um caixote com revistas e jornais, papéis de embrulho, embalagens usadas. Todos os que queriam (e quase todos queriam, nem que fosse por uma hora) eram convidados a construir estrelas, pássaros, flores, borboletas e anjos de papel. Dos mais simples aos mais sofisticados, havia modelos para todos os gostos, habilidades e faixas etárias. Depois da ceia, acendia-se então a primeira das quatro velas (lembro-me que, de início, eram imensas, uma para cada dia, até à véspera de Natal) e, entre cânticos, o mais novo da família, amparado pelo mais velho, tinha a honra de empoleirar a grande estrela no alto do pinheiro (um dos verdadeiros, perfumados e resinosos, daquela época pré-ecológica), já enfeitado com os resultados das ambições artísticas da miudagem, postais, algodão em rama e com chocolates (em forma de peixe, gato, cão, coelho, bolas, pinhas, palhaço e pai natal).

 

 

Nestes tempos que correm, em que tanto se fala de economia, ecologia e reciclagem, a recente sugestão da coleção Edicare Atividades faz todo o sentido: são “365 coisas para fazer com papel e cartão”, da autoria de Fiona Watt, uma obra concebida e ilustrada por Erica Harrison, Antonia Miller e Emily Beevers. Não estão lá os anjos da nossa memória, mas encontrámos outras ideias e propostas simples, transbordantes de estilo e criatividade, para muitos dias do ano.

 

 

livro “365 coisas para fazer com papel e cartão”, de Fiona Watt, Erica Harrison, Antonia Miller e Emily Beevers
Edicare, 2011
[a partir dos 2 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura, Ram Ram

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