“Elefante em loja de porcelanas”, de Adélia Carvalho e André da Loba

 

O que pensamos, o que dizemos, o modo como sentimos e deciframos o mundo é baseado em conceitos metafóricos. Apesar de usadas quotidianamente de forma inconsciente e automática, as metáforas influenciam e estruturam a nossa linguagem – infiltram-se no vocabulário corrente e nele assentam tão profundas raízes, despojam-se do seu lastro metafórico e vaporizam-se, em voláteis convencionalidades (o que acabei de escrever, agora vejo, é disso acabado exemplo). Elementos provenientes de um determinado contexto aplicam-se a outro, transferindo-se sentidos entre conceitos devido a similitudes percecionadas, não obstante diferentes potenciais de transferência. Na realidade, a metáfora não é apenas uma figura de estilo – a cognição humana está dependente da metáfora e graças a ela, porque preenche vazios lexicais, as nossas possibilidades comunicativas e expressivas aumentam. Um dos desafios mais interessantes na aprendizagem de línguas estrangeiras, por exemplo, é o de apreender o sentido e utilizar depois corretamente estas expressões.

 

 

Talvez faça por isso todo o sentido que o mais recente livro da editora Tcharan, com ilustrações de André da Loba e texto de Adélia Carvalho, seja editado em português, em inglês e em espanhol, uma vez que ostenta um título que pode considerar-se um exemplo da literalização visual e gráfica de uma dessas transculturalmente famosas expressões – “Elefante em loja de porcelanas”. Quer surja em versões com outro protagonista animal, como a inglesa (“like a bull in a China shop”), ou em variantes regionais ou nacionais que substituem a porcelana pelo cristal ou pela popular “loiça”, o que é certo é que o sentido da expressão é convencionalmente aplicado à pessoa desastrada, indelicada, deselegante ou pouco diplomática.

Claro que podemos olhar para este livro e pensá-lo “literalmente”: é a história de um elefante que, coitadinho, todos apelidam de grande e desajeitado, um perigo para as finas porcelanas, portanto, mas que afinal até revela ser um animalzinho cuidadoso e requintado. Também podemos validar a obra como mais uma que aposta na animização de objetos, humanizados e falantes, na esteira da tradição literária e imaginário fílmico de sucesso assegurado junto do público infantil, dos ancestrais apólogos, passando por D. Francisco Manuel de Mello, até chegarmos ao estonteante universo Disney de “A bela e o monstro” e “A pequena sereia” à “Toy story”.

 

 

Apesar de o texto, de cariz dramático, não estar à altura das ilustrações, acaba por criar um dinamismo que não desvirtua totalmente o conceito estético e gráfico original da obra, que pretende claramente promover o desafio à criatividade do leitor, que poderá criar um novo texto e ilustrações alternativas no verso. Leiteiras precavidas, potes arautos da desgraça, manteigueiras corajosas, taças pessimistas, pires crentes no fim do mundo, dotados de membros e devidamente calçados e adornados, criam o suspense e anunciam a catástrofe que se aproxima: um misterioso “ele” anónimo.

A Tcharan aliou-se ao fabricante Vista Alegre para lançar esta edição. Parceria curiosa? Nem por isso, concluímos. A metáfora invade o real. A literatura e arte também. Em 1940, um publicitário ousado, chamado Jim Moran, fez entrar um boi numa loja de porcelanas na 5th. Avenue, em Nova Iorque. O boi, assinale-se, não partiu nada. Nem um só prato.

 

livro “Elefante em loja de porcelanas”, de Adélia Carvalho [texto] e André da Loba [ilustrações]
Tcharan, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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